terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CONFABULATORES NOCTURNI

BRUNO SANTOS
Ainda que para muitos permaneça um mistério a devoção com que em Portugal milhões de pessoas, diariamente, assistem a telenovelas, não há dúvida de que essa fidelidade, esse fascínio, se relaciona com o carácter encantatório e de certa maneira hipnótico da estória e dos meios utilizados para a contar.
Jorge Luís Borges mencionou um dia os confabulatores nocturni de que se fazia acompanhar Alexandre da Macedónia na longas campanhas militares. Era um grupo de homens cuja função era contar fábulas e lendas ao discípulo de Aristóteles, pela noite dentro, estratagema que ele usava para enganar a insónia e alimentar os sonhos.
É possível que este hábito tenha origem muito antiga, bem próxima da época em que o Homem começou a dominar o Fogo e as noites, sob a sua luz, se tornaram mais longas e mais propícias à narrativa coloquial, à partilha da palavra na elaboração de imagens mentais e ao desenvolvimento da imaginação. No fundo, é disso que se trata. De alimentar a imaginação.
Os métodos usados para contar estórias evoluíram, mas o objectivo de estimular, e mesmo de condicionar, os processos de criação da imagem mental, é basicamente o mesmo. Daí que, pelas estórias que se contam e com as quais se encantam diariamente milhões de pessoas, nos é permitido entender o género de confabulatore que hoje domina a produção de imagens mentais e, principalmente, com que propósito essas imagens são estimuladas, que desígnio social veiculam e que modelo Humano preconizam.
Entendendo isto, julgo que perceberemos que nenhuma modificação sensível se introduzirá no modelo civilizacional que alegremente nos conduz ao abismo da extinção moral, sem resolvermos o problema Primeiro, o da fonte: os manipuladores de Arquétipos.

OS ESCRITORES E A INVEJA

REGINA SARDOEIRA
O texto, que vai servir de conteúdo à minha crónica de hoje, foi escrito em 28 de Junho de 2008, na sequência da primeira tentativa (falhada) de ler um livro de António Lobo Antunes, especificamente, "Ontem não te vi em Babilónia". Depois disso li (consegui ler) apenas um, a saber, "Memória de Elefante". Creio que pude aperceber -me, desta vez, da mestria do escritor, do seu talento e vasta cultura, da sua aptidão para as mais exuberantes metáforas. 

Hoje, quis o acaso (se acaso existe) , que viesse a folhear uma revista, de pouca importância no que diz respeito à literatura e ao acto cultural, em si mesmos, e defrontei-me com as afirmações de António Lobo Antunes que insiro, como imagem. 

Muitos pensamentos me ocorrem, a propósito. Decerto virei a dar-lhes vazão, um dia, pois custa-me entender a atitude intelectual de um escritor que, daquele modo rotula a obra inteira de outro escritor. Principalmente, a frase final. Mas, antes disso, vou lançar mão de mais um ou dois livros de Lobo Antunes e tentar decifrá -los; porque, quanto a Saramago, conheço -lhe toda a obra. E, sim, ele foi (e é) um grande escritor. 

Para já fica, como crónica, esta revisitação a um texto meu, parte integrante de um blog que desenvolvia na época. 

JOGOS

Não gosto de jogos em geral, principalmente dos designados «de azar» ou «de sorte», que os dois termos andam juntos, à semelhança das faces opostas de uma moeda. Certos jogos (talvez todos!) derivam de regras e, por isso, logo que conhecidas e bem treinadas pelos praticantes, o desafio é mínimo , pois a mestria levará à vitória certa ou, se a resolução do jogo não depender apenas da mestria e o azar ou a sorte aí tiverem, portanto, o seu lugar, eis-nos de novo no enunciado inicial: não gosto de jogos! Dependem de regras pré-estabelecidas e também de acidentes ou de circunstâncias que decidirão a vitória ou a derrota, em última instância. Portanto, participar (ou mesmo observar ou assistir) num jogo, cujo desenvolvimento não se entende, por desconhecimento total ou parcial das regras e, ainda por cima, sabendo que, mesmo havendo as tais normas a respeitar, pode ficar-se dependente de um acaso que decidirá o resultado das jogadas, parece-me, no mínimo, pouco inteligente.

Ora, uma certa forma de escrita em uso na actualidade (pelo menos em Portugal), um modo muito peculiar de encher páginas e páginas de livros designados ( a priori, ou a posteriori) como romances, assemelha-se, em tudo, a um desses jogos, alguns deles com as regras explícitas, outros sem quaisquer regras expressas (e, portanto, implícitas, ou do conhecimento apenas de quem escreveu, ou nem isso) e, portanto sujeitos à lei do azar ou da sorte. Do azar ou da sorte do leitor, quero sublinhar, pois o autor, a partir da hora em que dá o seu livro ao público deixa de ter sobre ele qualquer espécie de poder.

Vem este interlúdio ( reparem na permanência da palavra jogo em «interlúdio») a propósito do romance "Ontem não te vi em Babilónia" de António Lobo Antunes.

Não vou mentir acerca do efeito que esta leitura produziu em mim e, por isso, direi que li o livro exactamente até à página 114, num esforço tirânico para vencer a enorme sensação de angústia que a narrativa ( se é que de narrativa podemos falar) me provocou, linha após linha, parágrafo (?) após parágrafo, página após página. Angústia, sofrimento, uma sensação terrível de participação num pesadelo. Depois disso, folheei o livro, capítulo a capítulo, até à página 479 ( a última!) e li a frase derradeira: «porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro.», e foi então que agarrei decididamente o volume e o coloquei na estante, dando por terminado o pesadelo.

Pouco importa tudo o que li acerca do livro ou acerca do seu autor, pouco importa que certos leitores e críticos (sem dúvida eruditos excepcionais) se tenham dado ao trabalho de percorrer todas as linhas do pesadelo e feito a partir daí interpretações e exegese. Por nada deste mundo lerei uma linha mais, correndo o risco ( todavia calculado!) de não poder enfileirar na lista dos eruditos…paciência! Prefiro, de longe, a liberdade mental da minha vigília povoada, dos meus próprios sonhos e eventuais desvarios, que a prisão alucinante ao desespero psicótico da meia dúzia de personagens elípticas e quase indiscerníveis que povoam este romance.

Sei bem que as insónias ou os pesadelos ou as visões psicóticas da racionalidade demente poderão corresponder à narrativa sincopada, absurda, torrencial, tresloucada de António Lobo Antunes em "Ontem não te vi em Babilónia". Mas não experimentei o mínimo deleite, psicológico ou estético na leitura das 114 páginas que, ainda assim, fui capaz de ler. Dir-me-ão que não é esse o objectivo do livro, que o autor quis exprimir os seus próprios infernos, a sua própria loucura, a sua própria insónia ou pesadelo, lançá-los para o papel em 479 páginas de terror, libertar-se deles e deixá-los ir…não creio que António Lobo Antunes consiga ler este livro agora que o escreveu, nem creio que o deseje, nem me parece que isso tenha agora para ele a menor importância. Compreendo-o inteiramente visto que, como disse antes, logo que publica, logo que a obra se expande e encontra leitores, sejam eles quem forem, ou críticos, ou até instituições capazes de a premiarem, o autor ausentou-se em definitivo e pouco poderá acrescentar para lá do que permanece escrito. Portanto, arredado o autor da obra, pelo mesmo processo que torna o filho estranho à mãe que o gerou, apenas é cortado o cordão umbilical e o nascido se encaminha para a sua própria maturidade e autonomia, fica apenas o leitor, essa testemunha, esse cúmplice ou esse inimigo, e ele fará do livro o que quiser.

Quanto a mim, ousei deter-me na frase final e entendi-a de diversas maneiras. Em primeiro lugar, se é o autor que fala quando diz «aquilo que escrevo pode ler-se no escuro.» a mensagem para o leitor é clara e eu fiz a experiência: era de noite, estava a ler na cama, apaguei a luz, abri o livro e olhei para ele – nada vi! E, como o texto não estava em braille, nem um cego conseguiria operar o prodígio da leitura às escuras. Chamei o meu gato ( ele consegue ver, creio que razoavelmente, no escuro!) pus-lhe o livro à frente, folheei-o e percebi que também ele se desinteressou dos caracteres impressos, limitando-se a cheirá-lo, a arranhá-lo ao de leve, posto que, num jeito muito próprio deste meu felino, se deitou sobre o livro, primeiro e, mais tarde, adormeceu tranquilamente com uma das patas sobre a página aberta. Como adormeceu tranquilamente, não creio que tenha lido fosse o que fosse do romance, pois nenhum pesadelo o assomou. «Aquilo que escrevo pode ler-se no escuro, pois eu próprio escrevi no escuro» talvez possa ser uma segunda interpretação, e posso garantir que percebo exactamente o que isso significa: é a tentativa suprema de apanhar a corrente do pensar e do sentir sem permitir que a lógica se intrometa, deixando correr os dedos que escrevem ao mesmo tempo que o pensamento se organiza, desorganizando-se continuamente. Ler no escuro, permitindo que a nossa própria torrente se enuncie nos meandros da prolixidade inexorável do pesadelo ou da insónia do autor; e então, dispensar por inteiro a descrição inclemente dos pesadelos entrecortados, das frases recorrentes, dos suspiros gemebundos desta galeria que habita a mente de Lobo Antunes, e determo-nos na nossa própria avalanche, no usufruto da nossa própria insónia, na vivência do nosso próprio pesadelo.

Ler no escuro, ou seja, nem sequer ler, porque não vale a pena e aqui encontramos, talvez e por fim, a honestidade plena do escritor que nos convida a fechar o livro, seja lá em que capítulo for, porque após 479 páginas em nada teremos sido acrescentados e só nos restará um nó ansioso na garganta estrangulada.

Curiosamente, é neste repto final de "Ontem não te vi em Babilónia" que absorvo a grandiosidade do escritor, comparável (uma vez garantidas as distâncias devidas) à frase com que Wittgenstein termina o Tratado Lógico-Filosófico : «Sobre aquilo que não se pode falar deve manter-se o silêncio.». E poder-se-á falar do pesadelo, da insónia, do terror das horas percorridos pelo delírio do cansaço ou do desespero, poderá conceptualizar-se toda essa torrente agónica e atirá-la para um leitor desprevenido, como se ele pudesse ser o cúmplice de angústias sofridas na escuridão povoada de um autor? Parece que ao cabo de 479 páginas, António Lobo Antunes caiu em si, para entender que havia levado longe demais o desenrolar da sua própria angústia e deu ao leitor a solução: «Lê no escuro aquilo que eu escrevo, porque também em ti tens a matéria dos meus pesadelos, fecha o livro deixa a minha mágoa intacta…não vês que me servi de ti para lhe dar escoamento?»

"Ontem não te vi em Babilónia" obedece às regras de um jogo que é preciso conhecer ou descobrir ou inventar enquanto se vai lendo, e, como não gosto de jogos, não gostei das 114 páginas que, mesmo assim, cheguei a ler; no entanto, tal como acontece quando, ao fazermos palavras cruzadas não conseguimos encontrar o sinónimo que falta para resolver a charada, recorri às soluções e lá estava ela, na página final, na linha derradeira, como resposta para a angústia de não termos compreendido a narração: « porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro.»

DA IN(UTILIDADE) DOS LIVROS

LUÍS CUNHA
Os brasileiros chamam criado-mudo àquilo a que nós, de forma bem menos poética ou criativa, chamamos mesinha de cabeceira. A criatividade linguística brasileira é bem conhecida, mas se a convoco aqui o «criado-mudo», numa crónica que, à semelhança das anteriores, tem os livros como mote, é apenas por me parecer que há muito quem veja nos livros uma espécie de criado-quase-mudo. Quero eu dizer que há muito quem reduza os livros a uma estrita função serviçal, postos em boa ordem na estante, guardando dento de si respostas prontas, certezas, virtudes ou pecados, tudo pronto a usar na ocasião adequada. Há ainda quem escreva livros com a intenção deliberada de os pôr ao ser serviço, veículos de «verdades» convenientes, como se a opinião de cada um valesse mais por surgir em letra impressa, com eventual destaque nos escaparates. No entanto, muitas vezes os livros surpreendem-nos. Abrimo-los como coisas mortas e descobrimos que as palavras que os enchem se rebelam dando-lhes nova vida. De criados-quase-mudos passam a agentes ativos, às vezes provocadores outras vezes reveladores, mas sempre guiando-nos para inesperados continentes. Claro que este sortilégio das palavras escritas não é válido para todos os livros. Alguns nascem já mortos: cadáveres adiados e inúteis, que jamais nos surpreenderão, antes estão condenados a dizer cada vez menos, exigindo reciclagem rápida e radical.

Vem esta discussão acerca da utilidade ou inutilidade dos livros a propósito de dois títulos com que me cruzei recentemente. O primeiro começou a ser escrito há mais de setenta anos e durante bastante tempo pôde repousar tranquilo nas estantes privadas e públicas. O que nele se narrava parecia o reflexo de um tempo agitado, reflexões profundas e válidas, certamente que incontornáveis para profissionais e diletantes das ciências sociais, da história e também da filosofia. Apesar desta importância, tinha-se tornado num desses criados-quase-mudos: ajudava-nos aperceber o passado; levava-nos a refletir sobre essa coisa imprecisa a que chamamos «natureza humana»; inquietava-nos, pelo menos a alguns de nós, mas as suas capas pareciam portas que se abriam e fechavam sobre o passado. De repente, porém, as suas páginas ganharam nova vida. O livro saltou das prateleiras onde o tínhamos arrumado para nos dizer que o que proclamava era também uma janela para o tempo que vivemos. Falo de «As origens do totalitarismo», de Hannah Arendt, brilhante exercício analítico (e literário) sobre um período trágico da nossa história comum, cujos fantasmas que convoca parecem agora regressar para nos assombrar. Quantas vidas pode ter um livro? No caso de livros como este, precisos e situados no tempo, a resposta deve depender mais de nós, que estamos vivos e fazemos a história dia-a-dia, que da vontade e mesmo da arte de quem o escreveu. Preferia, e certamente preferíamos todos nós, não encontrar ligação entre a dispensabilidade dos judeus e a dispensabilidade contemporânea de incontáveis cidadãos como nós – os improdutivos, os velhos, os estrangeiros esquisitos, todos os que se arrastam molemente sem ânimo nem espírito para a competitividade empreendedorista que governa o totalitarismo em que vamos mergulhando sem disso nos apercebermos.

O outro livro é a oposta simetria do que Hannah Arendt nos legou. Dificilmente poderíamos desejar melhor exemplo de inutilidade e desejo de servilismo que o livro de Cavaco Silva recentemente publicado. De «Quinta-feira e outros dias» aproveita-se o título. Quanto ao resto, abundantemente mostrado na imprensa da lusa paróquia, nada mais parece emergir senão o desejo de pôr palavras impressas ao serviço de um desígnio: legar à posteridade a excelência de um homem providencial que salvou os portugueses de todas as catástrofes, evitando também que o que de mau fomos sofrendo tivesse sido muito pior. Expressão do delírio de um Narciso de província, que constantemente pergunta ao espelho se há alguém melhor com ele, confundido o silêncio do espelho com sinal de assentimento à pergunta, este livro nasce já morto. Venderá muito, é quase certo, e no entanto de pouco lhe servirá. Essa é a magia dos livros, dos que adormecem apenas para depois nos surpreenderem com o vigor com que despertam, e daqueles tão profundamente inúteis que nem para criados-mudos servem. A diferença está, afinal, entre um corpo vivo que se arrasta agora e sempre nos corredores do poder e o pensamento de uma autora falecida que à lei da morte não se rende. As pequenas diferenças são, às vezes, a diferença toda.

EXCESSO DE PESO NAS MOCHILAS E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS

LIANE SANTOS
Como sabem, foi entregue uma petição sobre as peso das mochilas escolares, a qual recolheu 48 mil assinaturas num mês, e que apela à adopção de “uma legislação, com carácter definitivo, que veicule que o peso das mochilas escolares não deve ultrapassar os 10% do peso corporal das crianças”. Devido ao número de assinaturas, esta petição terá obrigatoriamente de ser debatida pelo Parlamento (Jornal O Público, 17 de Fevereiro de 2017).

É consensual entre os especialistas de todo o mundo que as mochilas escolares não devem ultrapassar 10% do peso de quem as transporta. E porquê? Porque as crianças que transportam regularmente peso excessivo às costas são as que têm mais probabilidade de desenvolver deformações ao nível dos ossos e dos músculos. Quanto mais pesada for a mochila, maior probabilidade de problemas de saúde terá (Site Petição Pública, 2017).

No ano de 2009, uma tese de mestrado realizada no âmbito do curso de Engenharia Humana, da Universidade do Minho, revelou que quase dois terços dos alunos se queixavam de dores por causa do peso que carregam. A tese intitulada "Transporte de cargas em populações jovens: implicações posturais decorrentes da utilização de sacos escolares" demonstrou que a maioria dos alunos analisados apresentava alterações posturais relacionadas com a carga excessiva do material escolar. O estudo avaliou a incidência de desvios posturais em estudantes dos 6 aos 19 anos (54 rapazes e 46 raparigas), em escolas públicas e privadas, envolvendo uma amostra de 136 alunos de vários ciclos de ensino. 
De acordo com a investigação, a hiperlordose lombar afetava 69% dos estudantes que foram alvo do inquérito, a antepulsão dos ombros (ombros para a frente) 59% e a projeção anterior do pescoço 49%, motivando queixas de dor. (Site Petição Pública, 2017).

Os signatários desta Petição Pública solicitam a intervenção da Assembleia da República, legislando sobre esta matéria, com caráter de urgência, de modo a resolver este grave problema de saúde pública, tendo em conta as seguintes propostas: 

1 - Uma legislação, com carácter definitivo, que veicule que o peso das mochilas escolares não deve ultrapassar os 10% do peso corporal das crianças, tal como sugerido por associações europeias e americanas. 

2 - A obrigatoriedade de as escolas pesarem as mochilas das crianças semanalmente, de forma a avaliarem se os pais estão conscientes desta problemática e se fazem a sua parte no sentido de minimizar o peso que os filhos carregam. Para tal, cada sala de aula deverá contemplar uma balança digital, algo que já é comum em muitas escolas, devendo ser vistoriada anualmente. 
3 - Que as escolas públicas e privadas de todo o país disponibilizem cacifos para que todos os alunos consigam deixar alguns livros e cadernos, de modo que possam deslocar-se entre as suas casas e a escola com menos peso.

4 - Podendo existir a opção de os alunos utilizarem o suporte digital, segundo o critério de cada escola, exigir às editoras responsáveis pela produção de manuais escolares o seguinte: 

4.1 – Que criem livros/manuais escolares com papel mais fino, de gramagem menor, ou divididos em fascículos retiráveis segundo os três períodos do ano; 
4.2 - Que os conteúdos dos livros/manuais escolares sejam o mais concisos e sintéticos possível, de modo a diminuir o volume e o peso dos mesmos (Site petição pública, 2017).

Em relação à intervenção da fisioterapia é cada vez mais frequente o aparecimento de queixas na coluna vertebral e com alterações posturais. Realmente o peso das mochilas é um dos factores para esses problemas, no entanto, em casos que não há excesso de peso nas mesmas (não ultrapassar os 10%) ocorre muitas vezes, a má utilização das mochilas. Estas devem ser utilizadas com as duas alças, o mais próximo da cervical possível (não “descaídas” / “junto ao rabo”), com os livros mais pesados junto a coluna vertebral e ir progressivamente afastando com a diminuição do peso dos mesmos. E no caso das mochilas de rodas, caso o peso também seja excessivo, faz com que as crianças as transportem com rotação do tronco, levando a diferenças alterações posturais, o que deve ser tido também em atenção.

Pode obter toda a informação em http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT84219 .

E ainda, em entrevista a RTP3, a coordenadora do curso de Fisioterapia, no qual tirei a licenciatura, fala e explica sobre essa problemática devido a investigação feita para a sua tese de doutoramento.

Podem ver a entrevista em https://www.youtube.com/watch?v=b8OefMZv4dk&feature=youtu.be .

domingo, 19 de fevereiro de 2017

PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS NEGATIVOS

MARIA ANTONIETA RODRIGUES
"O síndrome do stress define - se como a combinação de três elementos : o ambiente, os pensamentos automáticos negativos e as respostas físicas ". Da interacção destes três elementos, resultam sentimentos de ansiedade, de cólera ou de depressão .

Frequentemente quem padece de dor emocional tende a procurar uma causa e de uma maneira geral a atribuição vai para o ambiente. 

Parecendo haver uma relação determinante entre acontecimentos positivos ou negativos e o clima emocional, na realidade os acontecimentos são somente o 1o passo para o síndrome do stress. São necessários também os pensamentos que classificam e interpretam aqueles acontecimentos e uma resposta física que se interpreta como uma emoção particular.

Os acontecimentos não têm um conteúdo emocional em si mesmos mas as pessoas têm uma enorme necessidade de ordenar o mundo, de inserir novos dados nas categorias apropriadas, de etiquetar.

A emoção de cada um é uma consequência dos seus pensamentos sendo que o mesmo acontecimento é interpretado, julgado e etiquetado de tal forma que é inevitável uma resposta emocional particular.

As etiquetas e juízos formam - se a partir de um diálogo interno de cada pessoa consigo própria. 

Aaron Beck (1976) denominou estes diálogos de Pensamentos Automáticos por exprimirem os pensamentos como se fossem um reflexo, sem reflexão ou racionalização prévia. E instalam - se como plausíveis e válidos. 

Os Pensamentos Automáticos negativos têm normalmente as seguintes características :

- Mensagens específicas, discretas ( alguém com com muito medo de morrer parece ouvir constantemente a palavra caixão, ou uma rapariga que se sente insegura em relação ao namorado, e diz para si mesma: ele vai - me deixar porque me acha tonta)

- Mensagens telegráficas : frases curtas e poderosas ( doença, cancro, não posso resistir...)

- Não importa a sua irracionalidade: são quase sempre credíveis, quase não se notam, por isso não se questionam ( se vimos alguém entrar num bom carro partimos do principio que tem uma boa vida...)

- Os pensamentos automáticos negativos vivem - se como espontâneos ( muitas vezes enganosos)

- frequentemente expressam - se com termos como " deveria....." , "teria de.....", " haveria de....." ( deveria ser mais responsável. Deveria ser melhor pai.....)

- Tendem a dramatizar: predizem catastrofes, vêem perigos em todas as coisas e pensam sempre nas piores hipóteses. ( são a maior fonte de ansiedade) (uma dor só pode ser um cancro. ....etc)

- São idiossincraticos: uma única forma de interpretar o estímulo, que não tem a ver com a realidade, mas com a nossa interpretação ou vivência 

- São difíceis de desviar: como são reflexivos e credíveis, penetram inadvertidamente através do fluido do diálogo interno. Parecem ir e vir com vontade própria 

- São aprendidos: somos influenciados/condicionados pela família, amigos, meios de informação etc, para interpretar os acontecimentos de certa forma.

Visão Túnel 

Centrar a atenção sobre um grupo particular de Pensamentos Automáticos negativos , leva à cólera crónica, à ansiedade ou à depressão. 

A pessoa que está ansiosa está preocupada pela antecipação dos perigos. Criam fantasmas e dores futuras.

Cada preocupação cria uma espécie de visão túnel que faz com que uma pessoa só tenha uma classe de Pensamentos e só se dê conta de um aspecto do seu ambiente.

Os pensamentos são os responsáveis pelos sentimentos!

OS SINAIS DAS 9H50

JOANA M. SOARES
O farol do dia acerta-me em cheio às 9h50 de cada manhã responsável por um novo dia. O sol raia todos os dias, e até a chuva parece sorrir. Sempre às 9h50. 

Aos trambolhões pelo relógio as palavras chegam dela: precisas, objetivas, diretas. Estou só e, no entanto, acompanhada. Sempre por ela. 

Ela que permite um abraço virtual e desassossegado, por vezes grita, outras amansa como lagartas ao sol. 

Esta semana comemorou-se o dia mundial da rádio. Excelente companhia para gente sozinha ou gente que quer estar só.

9h50. O calendário está casado com a crónica de Fernando Alves, os Sinais na TSF. 

E estes sinais parecem estar casados comigo. São um sinal para mim.

Já em 2012/2013 estes sinais acompanhavam-me de braço dado em 98 km que muitas manhãs percorri sem túnel do Marão, mas sempre a “mandar os que lá estão”. Subíamos juntos a serra num IP4 respeitoso a atravessar o reino maravilhoso de Torga.

Histórias da rádio, dos sinais, desvirginavam o meu conhecimento: terras portuguesas por aí fora, gente a quem fiquei a conhecer o nome e nunca a cara. Assim é a rádio que mostra sem tirar o véu. 

Dá um arrepio na espinha o primeiro acorde da música que principia os Sinais. 

A rádio que muitos pensavam que iria morrer pela televisão superstar, agita ainda hoje ventos ao ouvido. Não, a rádio é uma senhora, inteligente e com classe. Antiga como o mundo a girar. “Tudo o que passa, lá passa”. No momento, no agora, no de repente, como a vida deve ser. As 9h50 são majestosas. Com um peito enorme, a voz de Fernando Alves sai certa como o destino da minha rota. Cada dia, um novo tema, um novo saber. Assim, são os sinais de Fernando Alves.


INVERDADES

MOREIRA DA SILVA
Na língua portuguesa, como língua viva que é, aparecem de vez em quando algumas inovações linguísticas, como as palavras que surgiram, com a democratização das novas tecnologias, mas também com a dinâmica da política que originou a necessidade de uma nova palavra, para suavizar um conceito já existente (mentira). Foi assim que surgiu uma nova palavra (inverdade).

Os termos mentira e inverdade são sinónimos e fazem parte integrante dos dicionários da língua portuguesa. Enquanto a mentira significa o ato de mentir (um engano propositado), já a inverdade é uma característica do que não é verdade. Vem isto a propósito da mentira ou mentirinha, aliás da inverdade, que o primeiro-ministro utilizou para defender o «seu» ministro das finanças, Mário Centeno, no acordo que fizeram com António Domingues, para aceitar a nomeação como presidente da administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD), que ficaria isento de apresentar a declaração de rendimentos ao Tribunal Constitucional, assim como todos os membros nomeados para a administração do referido banco público.

Foi numa enorme trapalhada que os referidos políticos, primeiro-ministro e ministro das finanças, com um enorme défice de humildade, não assumiram e por isso recorreram à inverdade, quando foram convidados, na assembleia da república, a contarem a verdade do que se passou. A confirmar este imbróglio está uma carta, que o banqueiro António Domingues enviou ao ministro das finanças, Mário Centeno, a lembrar as condições negociadas para aceitar o lugar na CGD, que incluíam a desobrigação de entrega das declarações de rendimentos.

A não existência de um acordo, pelo menos nada se sabe sobre ele, fez com que se utilizasse a inverdade, para dizer que não era uma mentira, as afirmações que o ministro das finanças proferiu na comissão parlamentar de inquérito ao banco público. O que veio a público foi a referida carta e não o acordo e, por isso, o primeiro-ministro afirmou que o ministro das finanças não mentiu, porque não fez qualquer acordo. Esse é desconhecido. O ministro Mário Centeno afirmou que houve, por parte do banqueiro, “erros de perceção”, É obvio que o ministro mentiu ou utilizou a inverdade!

Atente-se também a esta afirmação do primeiro-ministro, quando saiu a terreiro a defender o «seu» ministro das finanças: “Eu não tiro conclusões sobre a posição do ministro com base em compromissos que terceiros alegam que ele tem”. Mas o secretário de estado adjunto e do Tesouro, Mourinho Félix, foi mais longe, quando declarou: “As afirmações sobre a existência de um acordo são falsas, não têm nenhum fundamento, não existe nenhum acordo, esse acordo não existe”. Estas inverdades, este jogo de cintura, este habilidoso jogo de palavras é uma característica dos políticos.

Depois desta trapalhada era mais que óbvio o pedido de demissão apresentado pelo banqueiro, que garantiu haver um acordo explícito, um acordo com o governo, que foi quebrado pela força do Parlamento. Para a governação, como não houve qualquer resposta aos emails enviados por António Domingues, não houve qualquer acordo. É o argumento da omissão que os responsáveis políticos utilizaram para dizer que o ministro das finanças não mentiu. É o «assobiar para o lado», quando faltou a humildade para assumirem um erro mais que evidente.

A descredibilização dos políticos é uma realidade, mas a culpa só tem um destinatário: a classe política. Infelizmente!

O CAMINHO NÃO É SENÃO O QUE FAZEMOS IMÓVEIS

MIGUEL GOMES
Nada atemoriza tanto, nem cativa de forma igual face a tudo o que encerra, que uma folha branca num caderno onde sonhei depositar sonhos. Não me parece existirem montes suficientes onde eu possa desfrutar, na mão cheia de dias de vida que me restem, de um pôr-do-Sol empoleirado numa rocha.

O colorido Sol que se aninha por trás de uma colina adivinha um tolde cinzento salpicado por cinzas pequenas, trazidas pelo vento, para que ao longe todos se apercebam da tragédia que são estas labaredas. Talvez seja um desesperado acto de consciencialização, as árvores, flores, vegetação e talvez até animais, que se deixam consumir em carvão e farrapos cinzentos, a cinza que se respira, que se aloja no nosso corpo e se transforma ou reforma dentro de nós, encostadas ao nosso âmago, aconchegando-se àquilo que nem nos lembramos de possuir, um coração, para que possam sobreviver mais um pouco.

Acredito que sejam estas cinzas que choram quando o meu corpo as leva, sem saber previamente, ao local onde elas próprias se cinzelaram. Não queimaram ali, mas a cinza (ao contrário do ser humano, sente e por isso sabe-o sem dar lugar a incertezas) vê no negrume do queimado as suas próprias mãos, ramos e sonhos. Uma árvore é-o aqui como é num outro monte, não há duas árvores, nem tão pouco uma floresta, uma árvore é a mesma árvore onde quer que esteja e não será, parece-me, por nós não o sabermos ou acreditarmos, que ela deixará de o ser e de sentir sua a perda de outras, assim o pensámos, árvores. Temos tanto a aprender com elas…

Vamos aprendendo o que outros sabem, sem grande margem para aprendermos o que nós próprios nos ensinamos, parece-me que corroborar algo escrito se torna o caminho mais fácil quando o escrito está já institucionalizado. Percorremos as estradas que outros, a seu tempo, traçaram e, convenhamos, bem o fizeram, mas não será este o tempo de nos cansarmos dos mesmos caminhos e dar azo a que novos trilhos surjam, aqui e ali, primeiro como indeléveis percursos de vegetação calcada, gravilha depositada, serpentados atalhos daqui até ali, para darem origem a alamedas que, depois de abertas, surgem tão óbvias que nos fazem indagar, como raio é que não vi isto antes? Até aqui a vegetação, as árvores, nos prestam o seu legado ao serem elas mesmas a dizer, vem por aqui, olha como me prostro, para que vejas este caminho. Serão elas, brevemente, a dizerem, perguntarem, não estás farto desse caminho? E a indicarem, a quem as quiser ler, que não sobram espaço nos livros para os mesmos caminhos, que há necessidade de mais, ou menos, e à medida que nos libertamos do peso daquilo que conhecemos vamos subindo, descendo, em espiral até ao momento em que este corpo será forro para o caminho que as árvores percorrerão e nós perderemos as dezenas de gramas que alguém pensou serem o peso da alma, mas a alma não tem peso ou massa. Estas dezenas de gramas são o correspondente às cinzas das árvores que nos fizeram caminho e estavam, há muito, alojadas no nosso coração.

Dia virá, como o vento, como as pessoas que passam neste trilho, em que saberemos o caminho para casa e as árvores não tenham a necessidade e quase obrigação, como espécie mais inteligente, de se sacrificarem e em cinza subirem connosco para que aprendamos: o caminho não é senão o que fazemos imóveis.