quarta-feira, 24 de maio de 2017

A INDISCIPLINA E A FAMÍLIA

MÁRCIA PINTO
A indisciplina escolar infantil é um dos grandes desafios no universo escolar, tanto para alunos quanto para professores e família. Além de dificultar o processo de aprendizagem, esse tipo de comportamento afeta a construção das relações e deste modo tornar-se um pesadelo.

Assim, as causas para a indisciplina são inúmeras. Porém, antes de qualquer julgamento, é preciso avaliar todo o contexto em que a criança vive. Qual a realidade que a escola apresenta para esse estudante? Como é o ambiente familiar? De que forma ele lida com suas emoções? Qual o seu contexto social? Todos esses aspetos influenciam direta e indiretamente o comportamento dos alunos.

Em alguns casos agir com autoritarismo pode criar um ambiente desconfortável e desfavorável para a criança e levá-la a quebrar ainda mais regras. Estabelecer uma relação de respeito, que promova um processo de aprendizagem coeso e produtivo, no qual a criança e o adulto criem um vínculo de confiança e admiração mútuos, ajuda a minimizar os conflitos e a manter a harmonia entre os intervenientes.

Desta forma, a família deve estar atenta ao comportamento dos seus filhos. É importante conversar sobre o dia a dia escolar deles e identificar qualquer questão que os possa estar a preocupar. O lar deve ser um espaço acolhedor, em que a criança se sinta à vontade para manifestar os seus sentimentos e opiniões.

Neste sentido, é importante lembrar que a família é o exemplo principal para as crianças. Elas aprendem em primeiro lugar pelo exemplo. Portanto, desenvolvermos uma comunicação e relação pautadas pelo amor e pelo carinho favorece um comportamento semelhante nas crianças.

A família é a base da nossa vida, com ela aprendemos o que é ser ético, a respeitar a diferença de cada ser, os limites que nós temos e assim sermos capazes de viver em sociedade. Ela enche-nos de carinho e amor é o nosso porto seguro e de conforto que nos dá confiança para enfrentar qualquer problema que possa surgir.

Contudo, atualmente as famílias, estão mais ausentes por não haver tempo, o mundo de hoje exige muito de cada indivíduo, assim os pais deixam muitas vezes as suas casas para procurarem um mercado de trabalho para que deste modo possam dar mais conforto e sustentabilidade aos seus filhos. Isso contribui para que as crianças fiquem cada vez mais na companhia de outras pessoas como, amas, vizinhos, avós e em instituições responsáveis por essas atividades (creches e escolas).

Uma família onde o pai, a mãe e os filhos convivem diariamente é uma realidade cada vez mais rara, o que gera grandes conflitos na personalidade das nossas crianças. Os pais de hoje têm deixado a responsabilidade da educação das suas crianças para os professores e em muitos casos nem sequer participam na vida escolar dos filhos.

O mundo conturbado de hoje traz grandes desafios para educar os nossos filhos, mas isso não pode ser justificação para que nos desresponsabilizemos do nosso papel de pais e educadores. A parceria escola/família é fundamental para que as crianças cresçam e se desenvolvam de forma equilibrada de feliz.

NA MINHA ESCOLA HÁ LANCHES SAUDÁVEIS!

ELISABETE RIBEIRO
Ao longo dos tempos tem-se notado que os lanches dos alunos têm regredido na sua qualidade. Integrar um lanche escolar saudável é quase uma missão impossível quando têm como concorrência pacotes de bolachas atrativos, os pães de leite embalados e os pacotinhos de sumos de fruta adulterados com doses pouco recomendadas de açucares e afins. Aliado a isto o frenesim dos efeitos tresloucados dos despertadores a tocar, o banho rápido a tomar, o pequeno almoço a preparar, o tempo a passar... e falta o lanche. Não há tempo para comprar pão e fazer uma sandes. Vai mesmo um pacote de qualquer coisa!

Muito práticos e apelativos são um grande entrave à aplicação do lanche saudável na alimentação infantil.
É difícil para a família unir o prático à qualidade e é difícil a criança aceitar o que se escolheu. Muitas vezes o prático não é o mais saudável, mas é o que a criança mais aprecia. Esses alimentos passam a
ser consumidos com mais frequência e, por consequência, a obesidade infantil é assustadora.

Há escolas que encontraram uma forma de minimizar esta problemática.
Em articulação com as autarquias e os Encarregados de Educação o serviço de “lanche saudável” (variado, diário e igual para todos), foi aceite em alguns estabelecimentos de ensino (incluindo a escola onde leciono). Deste modo, as crianças alimentam-se de forma equilibrada, com valores nutricionais adequados, que garante a energia necessária, desenvolve a sua capacidade de concentração e melhora o seu desenvolvimento integral.

Os lanches saudáveis deveriam vir de casa. Mas, face à epidemia praga do fast food, julgo que a escola é o local onde melhor se radica estes bons hábitos alimentares. Hábito este que deveria ser implementado em todas as escolas do país.

terça-feira, 23 de maio de 2017

CONSULTÓRIO DE FILOSOFIA

REGINA SARDOEIRA
Antes de ousar abrir o meu consultório de Filosofia, posso sempre treinar, usando esta via. Nem sequer preciso de sair do meu espaço para chegar aos outros, basta que eles venham e se apresentem: e assim, poderei estar por detrás de uma porta, aguardando os que desejam conhecer-se. A fechadura estará lá, decerto; mas não serei eu a espreitar por entre as teias de aranha e a caliça, uma vez que a porta é de cada um que arrisca sondar-se até ao âmago.

A porta carcomida e a fechadura são símbolos de existências em derrapagem e contudo abertas num remoto local que terá que ser descoberto, primeiro, admitido como abertura, depois e, por fim desvendado pelo olhar, tornado acutilante, capaz de ver e perceber as gradações vitais do outro lado. Eis a tarefa do Filósofo/a, eis a definição actuante da Filosofia, esta que é amor pela sabedoria, mas também amor pela vida : e eis a Filóbia, palavra que ainda não existe nos dicionários mas que inventei há anos para dar sentido ao meu ser filósofa.

Penso que o vulgo – e quando utilizo a palavra vulgo, não estou a ser pejorativa, mas a referir-me à esmagadora maioria das pessoas, incluindo os cultos, incluindo os sábios, incluindo os licenciados em Filosofia (…) – não compreende o significado da palavra sabedoria neste contexto que é o da σοφία (sophia) ou da φρόνησις (phronesis), a sabedoria prática, a sabedoria ética, a prudência, a virtude. Estes últimos termos – prudência, virtude – foram desfigurados pela religião católica que deles se apropriou no sentido de os referir às suas práticas. E no entanto, a prudência e a virtude são os ingredientes da phronesis aristotélica, são as qualidades que o indivíduo precisa de cultivar acima de tudo se quer viver bem, se quer actuar correctamente.

Um consultório de Filosofia ou talvez um laboratório – pois, neste contexto, «mestre» e «discípulo» interactuam, sendo, assim, esse lugar um palco fértil de interacções – não se substitui aos consultórios de Psicologia ou de Psiquiatria ou de práticas esotéricas, quaisquer que sejam. Vale por si, representa a primeira etapa para o auto-conhecimento, para a descoberta do fio condutor existencial daquele que se investiga a si mesmo com a ajuda sábia do filósofo. Sábia, esclareço, sempre no sentido grego, de procura, de sondagem, equiparada à arte da maiêutica levada a cabo pelo filósofo Sócrates, arte de fazer parir a verdade, essa que ilumina o fundo do ser e deve ser parturejada a fim de servir também de farol à superfície e logo ao mundo circundante. Essa primeira etapa de que falo pode bem ser a última, se a mente do auto-investigador aderir ao esvaziamento inicial e ao preenchimento ulterior; porém, caso as investidas do filósofo/a não encontrarem receptividade, caso a mente daquele que a si próprio sonda interrompa a caminhada, pode passar para outras instâncias – as da Psicologia, as da Psiquiatria – que, em sintonia com a primeira sondagem, orientarão as demais.

É deste modo que eu vejo a função do Filósofo/a e o papel dos consultórios ou laboratórios de Filosofia, em interacção dialogante com os demais sectores de investigação da mente, avesso a medicações químicas, ou a processos morosos de análise unilateral, mas suficientemente esclarecido para determinar quando termina o seu papel, ou quando deve passar para outros a tarefa.

Fala-se, a propósito, em «demissão interventiva dos licenciados em filosofia e dos filósofos» porque essa classe é observada, invariavelmente, confinada a uma sala de aula, onde os manuais ou as sebentas pontificam. Eu própria fui aviltada com aulas de filosofia em que me mandavam «papaguear» pensamentos de filósofos ou «despejar» matérias decoradas em provas, de onde o pensamento original, discursivo, dialéctico teria que ser cuidadosamente retirado. Se não me tornei "papagaio filosófico" foi na exacta medida em que resisti, não me deixei encharcar por teorias, não aderi à memorização abstracta e descontextualizada de pensamentos, tornei-os meus, inventei-os e reinventei-os, e tudo o que havia para aprender – pois tratava-se do pensamento de outros – aprendi-o, exclusivamente, à minha própria custa. Hesitei muito antes de tornar-me licenciada em filosofia, pois percebi que essa licenciatura nada significava, filosoficamente falando, representando apenas um papel meramente académico e logo burocrático; por fim, cedi à pressão familiar, obtive o diploma mas – desta vez sem hesitações – optei por não o utilizar nas funções tidas como óbvias para o licenciado em Filosofia, recusei o ensino e fi-lo enquanto me não senti ainda mais desfigurada noutras profissões que, tarde ou cedo, vim a adoptar.

O ensino veio depois e ficou pois entendi, gradualmente, que as salas de aula podem ser excelentes laboratórios de Filosofia, desde que o professor consiga distanciar-se do manual, puxar pela mente do jovem até aos limites, envolver-se com ele numa luta mente a mente, arrancando-o ao comodismo do senso-comum e dos preconceitos. Venço parcialmente essa luta na medida em que o combate é desigual: estou eu, de um lado e 30, do outro – 30 predadores da verdade, 30 amordaçados ao conforto das opiniões colhidas nos media e na sociedade em geral, 30 mentes desatentas a si próprias e cada vez mais aturdidas pela parafernália tecnológica que lhes substitui o ser. Mas esse ganho parcial, essas vitórias que vou conseguindo quando, de entre a turba flutuante, um, dois, três apreendem o sentido do que deles espero, enquanto aprendizes do filosofar, ensina-me quotidianamente o caminho, faz-me, cada vez, mais réproba relativamente às fórmulas decoradas, que se esvaem logo que não temos necessidade de pô-las em prática e, em simultâneo, cada vez mais aberta ao culto da Filóbia.

Deste modo, respondo parcialmente à questão entre todas difícil de responder com acerto: O que é um filósofo/a?

Ignoro se chegarei algum dia a abrir um consultório/laboratório de Filosofia. De certo modo aboli essa hipótese quando a ficcionei em O Pulo do Lobo (Editora Pé de Página, 2006), para, quase de imediato, a destruir, não porque fosse absurda, mas porque o Filósofo da minha história sofreu a desilusão, por força dos que não lhe entenderam os desígnios. Ou talvez eu esteja à espera do companheiro/a capaz de se abalançar comigo a empreender semelhante tarefa! E certamente acontecer-me-á o mesmo que em tempos abalou Friedrich Nietzsche até ao cerne, esta busca de espaços para filosofar e de companheiros de eleição capazes de reinventarem o espírito da douta-sabedoria de Sócrates.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

VIAGEM DA FELICIDADE (PARTE I)

RITA TEIXEIRA
Hoje peguei na natureza e apanhei o comboio com destino à felicidade. Num apeadeiro, entrou a simplicidade e sentou-se a meu lado. Assim que abriu a bolsa, que trazia a tiracolo, e soltaram-se beijinhos que perfumaram o ar da carruagem. Seguimos a viagem. Num outro apeadeiro, entrou a alegria e começou a algazarra. Tudo era uma diversão. Ao chegar à primeira estação, refreamos a nossa brincadeira, para não afastar nenhum passageiro. Entraram a ignorância e o egoísmo e sentaram se à minha frente. Voltamos à brincadeira. Só que estes dois passageiros não se sentiram à vontade e mudaram para outra carruagem. Não paramos nos dois apeadeiros seguintes e, quando paramos no outro apeadeiro, a coragem e a fé entraram e prosseguimos a viagem a sentir que a felicidade estava próxima. Na segunda estação, entraram a amizade, a paz e o amor que se contagiaram com a nossa euforia! Na penúltima estação, a inveja, a exibição e a futilidade estavam na fila para subirem para a nossa carruagem, mas viram a grandeza do coração e retiraram-se logo. Assim, chegamos ao nosso destino, a felicidade! Quando unimos os valores da boa educação que recebemos da família, não há nada que lhe pegue!!

FALEMOS DA DEPRESSÃO

Nunca despreze as pessoas deprimidas.
A depressão é o último estágio da dor humana.
Augusto Cury


ELISABETE CERQUEIRA
A depressão é, atualmente, a principal causa de doença e incapacidade a nível global. O alerta foi emitido recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que, para assinalar o Dia Mundial da Saúde, decidiu centrar todas as atenções na depressão. Segundo a mesma fonte, até 2020, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo.

Descrita pela primeira vez no início do século 20, a depressão ainda hoje é confundida com tristeza, desmotivação,…sentimentos comuns a todas as pessoas em algum momento da vida. A tristeza é uma reação normal às situações de vida, tais como lutas, zangas, perdas, derrotas e decepções, são motivos para deixar alguém triste, cabisbaixo, mas isso não significa que a pessoa esteja com depressão, certamente que vai ultrapassar a situação e vai sentir-se melhor…

Ela chega de mansinho, assim como quem não quer nada. Num dia, acorda triste, desanimado… no outro, uma vontade incontrolável de chorar, sem qualquer motivo aparente, mas quando o vazio e o desespero tomam conta do seu dia-a-dia, tornando-se permanente, afetando-lhe a motivação e o sentido da vida, pode ser depressão. Mais do que apenas o humor diminuído, os pontos baixos da depressão podem afetar-lhe a sua funcionalidade e deixar de ter prazer na vida. Deixa de se interessar pelos amigos, família, lazer, hoobies, trabalho, saúde, você sente-se esgotado o tempo todo…só aguentar o passar do dia pode ser avassalador. A depressão é assim, um mal silencioso e ainda mal compreendido.

Considerada um transtorno mental ou uma doença psiquiátrica, a depressão é caracterizada pela tristeza constante e outros sintomas negativos que anulam e incapacitam o dia-a-dia do indivíduo, interferindo com a sua capacidade de trabalhar, estudar, comer, dormir e divertir-se. Falar em depressão é muito mais do que falar em melancolia, é falar em tristeza aliada a apatia, é falar num estado com consequências que podem ser fatais…estima-se que a cada 40 segundos se comete um suicídio no mundo.

Os sentimentos de desamparo, desesperança, inutilidade são intensos e implacáveis, com pouco ou nenhuma alívio. A depressão tornou-se tão presente nas últimos décadas, porque as situações de incerteza também são maiores do que eram no passado, quanto maior é a situação de insegurança, de incerteza, de stress, em que vivemos, maior são os estados emocionais em que nos encontramos. Não há dúvidas de que há pessoas mais vulneráveis do que outras e que há motivos genéticos que levam as pessoas a ficarem deprimidas com mais facilidade. Há uma interação entre aquilo que as pessoas são do ponto de vista genético e biológico e a pressão ambiental, mas o que mudou nos últimos anos não foram os genes…o que mudou nos últimos anos foi a nossa qualidade de vida…aumentou o stress, a incerteza, o medo...

Existem sinais e sintomas que nos podem indicar que estamos perante uma depressão, são eles:
• Humor depressivo ou irritabilidade, ansiedade e angústia
• Desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas
• Diminuição ou incapacidade de sentir alegria e prazer em atividades anteriormente consideradas agradáveis
• Desinteresse, falta de motivação e apatia
• Falta de vontade e indecisão
• Sentimentos de medo, insegurança, desesperança, desespero, desamparo e vazio
• Pessimismo, ideias frequentes e desproporcionais de culpa, baixa autoestima, sensação de falta de sentido na vida, inutilidade, ruína, fracasso, doença ou morte.
• A pessoa pode desejar morrer, planeia uma forma de morrer ou tentar suicídio
• Interpretação distorcida e negativa da realidade: tudo é visto sob a ótica depressiva, um tom "cinzento" para si, os outros e o seu mundo
• Dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e esquecimento
• Diminuição do desempenho sexual (pode até manter atividade sexual, mas sem a conotação prazerosa habitual) e da libido
• Perda ou aumento do apetite e do peso
• Insónia (dificuldade de conciliar o sono, múltiplos despertares ou sensação de sono muito superficial), despertar matinal precoce ou, menos frequentemente, aumento do sono (dorme demais e mesmo assim fica com sono a maior parte do tempo)
• Dores e outros sintomas físicos não justificados por problemas médicos, como dores de barriga, má digestão, azia, diarreia, constipação, flatulência, tensão na nuca e nos ombros, dor de cabeça ou no corpo, sensação de corpo pesado ou de pressão no peito, entre outros.
Existem também causas e fatores de risco para desencadear uma depressão, são eles:
• Solidão
• Falta de apoio social
• Recentes experiências de vida stressantes
• História familiar de depressão
• Problemas de relacionamento ou conjugal
• Tensão financeira
• Trauma ou abuso de infância
• Uso de álcool ou drogas
• Situação de desemprego ou o subemprego
• Problemas de saúde ou de dor crónica
Compreender a causa subjacente à depressão pode ajudá-lo a superar o problema. Qualquer um pode experimentar algum tipo de depressão, por algum motivo. É uma condição e situação que afeta pessoas de todos os tipos, de todas as raças, sexos e situação socioeconómica.
Mudanças de estilo de vida saudável nem sempre são fáceis de fazer, mas eles podem ter um grande impacto sobre a depressão. Algumas mudanças que podem ser muito eficazes incluem:
• Cultivar relacionamentos de apoio
• Fazer exercícios regulares
• Regular o sono
• Alimentar-se saudavelmente para impulsionar naturalmente o humor:
• Gerir o stress
• Praticar técnicas de relaxamento
• Desafiar padrões de pensamentos negativos
• Promover a saúde

Somos uma sociedade de pessoas com notória infelicidade, solidão, ansiedade, depressão, destruição, dependência.
Pessoas que ficam felizes quando matam o tempo que foi tão difícil conquistar.
Erich Fromm

COMO ESCOLHER OS PRODUTOS DE HIGIENE ORAL MAIS ADEQUADOS PARA MIM? (PARTE III – FIO/FITA DENTÁRIA E ESCOVILHÃO INTERDENTÁRIO)

INÊS MAGALHÃES
Como já referido em textos anteriores, a higiene oral é a ação básica para uma boa saúde oral. Dela fazem parte a escova, a pasta dentífrica e como complemento o fio/fita dentária /escovilhão interdentário e, eventualmente um elixir/colutório.

No que diz respeito ao fio/fita dentária, tal como o próprio nome o indica, são diferentes.

Ambos servem para remover os restos de comida e placa bacteriana que se alojam entre os dentes, ou seja, no ponto de contacto (local em que dois dentes adjacentes se juntam) e que a escova não consegue higienizar.

Contudo, o fio pode ser de Nylon (ou multifilamentar) ou de PTFE (monofilamentar). O fio de Nylon está disponível com cera ou sem cera e em vários sabores. Porque este tipo de fio é composto por várias fiadas de Nylon, por vezes, pode partir, especialmente entre os dentes com pontos de contacto muito estreitos. Apesar de serem mais caros, os fios monofilamentados (PTFE) deslizam facilmente entre os dentes, até mesmo, entre pontos de contacto muito estreitos e são bastante resistentes. Quando usados corretamente, ambos os tipos de fio são excelentes para remover a placa bacteriana e restos alimentares.

Em relação à Fita Dentária, ela é constituída por uma fibra suave e macia, revestida com um tratamento à base de cera, o que facilita um deslizar suave entre os dentes, sem esforço, mesmo nos locais mais estreitos.

Como usar? Deve retirar da embalagem cerca de 40/50cm de fio/fita e enrolar no dedo médio de uma mão a maior parte dele, o restante no dedo médio da outra mão; com a ajuda dos polegares deve retirar os restos de alimentos dos dentes de cima e com a ajuda dos indicadores retirar dos dentes inferiores. Deve ter sempre o cuidado de não ferir as gengivas.

Para pessoas com mais dificuldade no seu uso (ex. crianças), existem ainda os passadores de fio dentário, que facilitam imenso a passagem do fio pelos espaços interdentários.

No que diz respeito ao escovilhão interdentário, este é mais prático para quem tem espaços maiores entre os dentes mas não consegue higienizar o ponto de contacto entre eles apenas com a escova. Quem é portador de aparelho ortodôntico, quem tem implantes ou pontes também deve usar o escovilhão. Estes também têm diferentes formas e tamanhos para se adequarem corretamente ao espaço a higienizar.

Com tanta variedade, como escolho o mais adequado para mim?

Pode sempre fazê-lo experimentado os diferentes produtos e ver com qual se adapta melhor, ou procurar ajuda de um profissional de saúde oral para o auxiliar na escolha.

Não esqueça! A higienização diária dos espaços interdentários onde a escova não chega é fundamental para a remoção dos resíduos dentários que, por ação das bactérias patogénicas, podem facilitar o aparecimento de cárie dentária e doença gengival.

domingo, 21 de maio de 2017

DE QUE VALE O SILÊNCIO SE NINGUÉM O ESCUTA?

MIGUEL GOMES
Seria, provavelmente, capaz de partir a pé por esses caminhos fora. Não é à toa que vagabundo rima com mundo. 

Acabo por cobiçar o sorriso desligado da alegria que vejo nalgumas faces, cobertas por barba, em corpos que não se inibem em deitar num banco de uma estação de comboios. 

Indiferentes ou talvez não, ao lixo acumulado na linha, nas metades de tonéis que nunca o ambicionaram, mas são agora recipientes onde descansam em paz acalorada várias garrafas de plástico de líquidos que são caras formas de se beber má água.

O átrio da estação está vazio. 

O calor convida a uma estada prolongada num velho banco de madeira. 

A poltrona amarelada olha de soslaio. 

Coitada, não percebe que aquele tecido empoeirado não convida a que alguém, mais ou menos incauto, se sente ali. As horas passam devagar quando olhamos para o relógio, antigo, a olhar com cadência do alto da coluna de madeira. Basta desviarmos o olhar para ele desatar a correr de ponteiro em ponteiro, este tempo atribulado. A vida há muito saiu dali. 

Os azulejos que ornamentam o edifício escorrem saudade. 

Acaricio a face de alguns dos trabalhadores e trabalhadoras retratados. 

Algumas aves fizeram o favor de ornamentar os azulejos, mas isso não me inibe de afagar o dorso de um touro, calculo que esteja cansado, mas afinal parece ser apenas solidão. É normal. 

Outrora vibrante, a estação resume-se a um só funcionário, escondido numa redoma, rodeado de um ecrã, teclas, papeis, códigos QR. 

Longe vai o tempo de o senhor com o balde e a pinça de metal na mão, a apanhar o pouco lixo que existia. Agora tudo parece ter lixo, restolhos mal cheirosos. 

Até as pessoas mudaram, outrora pessoas bem cheirosas, em corpos mal cheirosos, agora pessoas mal cheirosas, em corpos bem cheirosos.

Tudo muda. 

Até o silêncio, que parece ter descido sobre vários apeadeiros, despindo-os de telhados, partido vidraças, apodrecido vigas de madeira em profunda raiva pelo que de mal nós lhe fizemos. 

De que vale o silêncio se ninguém o escuta? 

Vou percorrendo o caminho com o olhar no trilho, claqueio mentalmente o som das rodas sobre os carris. Dói, não sei bem o quê e por isso tão difícil se torna diagnosticar, mas dói sempre e cada vez mais ao observar o abandono de tudo o que foi. 

Acredito que as memórias perduram e resistem abandonadas apenas para que possamos sentir que, de facto, quando ao futuro chegarmos vermos que o que deixamos abandonado encerra a parte de nós que não deveríamos ter esquecido, o reflexo da nossa face na superfície da vida.

SOMOS UM PAÍS DE CONTRASTES…

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
E mais uma vez se verificou que, na nossa pequenez geográfica e populacional, somos um país de contrastes.

Vejamos: há cerca de cinquenta anos que Portugal participa no Festival da Eurovisão, sendo que nos últimos anos devido aos critérios de seleção, ficamos excluídos algumas vezes. Este ano Portugal,com uma canção de uma singeleza e doçura emocionantes chegou, encantou e venceu!

Admito, os meus tempos de esperar ansiosamente pelo Festival da Canção, já ficou bem lá atrás, de forma que nos últimos anos tem-me passado completamente ao lado. Por norma não aprecio o tipo de música nem todo o aparato que se gera à sua volta, muito menos verificar que nem sempre a melhor canção tem sido a vencedora, mostrando que por “de trás do pano” existe um jogo de interesses.

Este ano os irmãos Sobral fizeram a diferença… em tudo! Música com sentimento dentro, postura de uma simplicidade tocante, nenhum efeito especial a não ser a música, pura e simples. Salvador Sobral apenas com a sua voz, um jovem interprete que sempre se apresentou com um sorriso humilde, que a mim tocou profundamente.

Mas aqui chegamos ao contraste! Se não se consegue criticar a música, até porque desde a primeira eliminatória chamou a atenção da Europa, critica-se o seu intérprete! Foram as roupas, o cabelo, os tiques, a própria voz, enfim… Oh gente de Portugal definam-se, mas principalmente humanizem-se!

Mais importante que a “embalagem” é o interior das pessoas, e essa esteve bem patente na humildade que Salvador sempre apresentou. No sorriso genuíno, no olhar direto, na simpatia e simplicidade das palavras, presente em todas as vezes que se dirigiu ao público.

Isso sim é importante! O resto? O resto, muitas das vezes não passam de meros pormenores…E o caso de Salvador Sobral não é exceção. A imagem nem sempre é importante, principalmente quando por detrás da mesma, estão pessoas e causas para se apresentarem de uma determinada maneira!

Por trás de uma imagem, existe uma pessoa, é esse o pormenor importante. E neste caso concreto, esta pessoa levou Portugal a, pela primeira vez em cerca de cinquenta anos, sermos vencedores. Parabéns Salvador! Parabéns irmãos Sobral!