sábado, 23 de setembro de 2017

UM PAÍS DE VANGUARDA

(Primeira parte)

JORGE NUNO
Senti um genuíno interesse na leitura de “Conquistadores – Como Portugal Criou o Primeiro Império Global”, de Roger Crowley. Este autor, que escreveu diversas obras de história, também nesta procurou avidamente o rigor, sendo inevitável que teve, para tal, de efetuar uma vasta investigação, baseada numa imensidão de documentos da época e traduções existentes. Inicialmente, não dá mostras de pretender enaltecer as qualidades dos portugueses, enquanto povo de vocação marítima, pois retrata muitas das suas fraquezas, ocultadas nos livros convencionais da história de Portugal. No entanto, acaba por relatar “como uma das nações mais pequenas e pobres da Europa pôs em movimento as forças da globalização que hoje dão forma ao mundo” e viveu a sua época de ouro no século XVI, temida (pelo poder dos canhões da artilharia marítima), respeitada (pela ousadia e também pela oportunidade de comércio) e odiada (tanto pelos muçulmanos, face à obstinada cruzada para “o extermínio do islão e propagação da cristandade sob um monarca universal[1]”, e por todos aqueles que perdiam direitos e influência, à medida que as naus portuguesas iam avançando rumo à expansão territorial e comercial). As iniciativas do rei D. Manuel I – que viria a assumir o título de “rei de Portugal e dos Algarves, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia” – tiveram a bênção papal, com direito à “posse perpétua das terras conquistadas aos infiéis, onde outros reis cristãos não tivessem reivindicações”.

É certo que naquela época houve um enorme esforço na construção de naus, canhões de bronze e outro armamento, angariação de tripulação e preparação das viagens, mesmo fazendo uso do ouro da Guiné e dos bens de judeus expulsos. Essas viagens realizavam-se em condições difíceis: elevado risco; desconhecido; hostilidades encontradas; insuficiente provisão de água doce e falta de lugares para abastecer; falta de géneros alimentares frescos e, principalmente, de citrinos, que tanto dizimaram tripulações. Mas com as boas notícias trazidas da Índia, no regresso de Vasco da Gama (mesmo que a viagem ficasse ensombrada pela perda de dois terços da tripulação), também houve um excelente trabalho na ocultação de segredos – obtidos com muito sangue, suor e lágrimas – e na divulgação dos êxitos, que chegaram aos pontos estratégicos da Europa e, em particular, Veneza, Génova e Florença, que detinham o monopólio do comércio de especiarias (vindas por terra, até ao Egito).

No final daquele reinado, ao nível de imagem exterior, Portugal estaria no auge, muito favorecido pelo comércio florescente, que seria fruto de um “projeto, simultaneamente, imperial, religioso e económico”. Tal, foi sustentado pela influência dos padres, monges e cavaleiros da Ordem de Cristo e dos astrólogos reais, mas acima de tudo pela obstinação de um monarca que, tendo herdado a coroa do primo – D. João II – acreditava “num destino messiânico” e predestinado a estes feitos. Arrogando-se “ter herdado o manto do seu tio-avô – o Infante D. Henrique, ‘O Navegador’ –, invocou obediência à sua missão divina” para prosseguir, perante a oposição da nobreza. Agora, seria um país ainda mais forte do que o de D. João II, anterior monarca que teve o arrojo de discutir e fazer aprovar o tratado de Tordesilhas, com os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel I, “regateando a posse do mundo”, que dividido em dois seria pertença de Portugal e de Espanha, mais uma vez com a bula papal.

Entre imensos factos surpreendentes, realça-se a iniciativa e o secretismo de D. Manuel I no envio de emissários “a Henrique VII, em Inglaterra, ao rei Fernando de Aragão, em Espanha, a Júlio II [papa], a Luís XII, em França, a Maximiliano I, sacro imperador romano, convidando-os a participar numa cruzada naval pelo Mediterrâneo até à Terra Santa”, mas em que houve falta da resposta esperada. No entanto, D. Manuel I manteve firme a ideia de “destruição do bloco islâmico”, rotulado de “infiéis”. Em julho de 1505, “o papa concedeu a D. Manuel I um imposto de cruzada que poderia ser cobrado durante dois anos e remissão de todos os pecados para quem nele participasse”. Convenhamos, seria reconfortante e uma atenuante para quem participasse nestes ferozes combates, saber que todo o mal causado a outrem ficaria livre da condenação divina.

(Continua...)
--------------------------------------------------------------------------------------------
[1] Uma xilogravura de 1514 mostra-nos o rei D. Manuel I no trono, tendo à sua direita e esquerda, respetivamente, as armas do reino e a esfera armilar e, ligado ao ceptro real, uma fita com “DEO IN CELO TIBI AVTEN IN MVNDO” (A Deus no Céu e a Ti na Terra), o que faria a “ligação entre o terreno e o divino, perspetivando-o como um soberano universal a “aspirar ao título de imperador de um reino messiânico cristão”.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A PERDA DOS NOSSOS ÍDOLOS

RUI DE LEÓN
Como músico, e como fã incondicional da música, posso com orgulho afirmar que os anos 90, foram para mim, a época de ouro, uma vez que ouvi, cresci com as tendências rock/grunge que fervilhavam na altura. Bandas de Seatle como os Nirvana, Soundgarden, Pearl Jam , numa "onda" mais funk, rock-alternativo e punk os Red Hot Chili Peppers entre outros grandes artistas marcavam a história da música.

Porém , por influência familiar, sempre tive um "background" musical mais amplo que percorre Leonard Cohen, Frank Sinatra, Rolling Stones, The Beatles, Louis Armstrong , Led Zeppelin entre tantos outros. No panorama nacional na altura, gritavam os Ornatos Violeta, os Silence 4 e os Moonspell. 

Apesar deste "cocktail musical" sempre me identifiquei mais com o rock/grunge , que posteriormente, teve um papel fulcral enquanto músico. 


Toda esta descrição que apresentei serve para abrir a porta ao tema que realmente quero abordar. A perda dos nossos ídolos, e como isso afecta o panorama da música actual.

De 2015 a 2017, foram anos desoladores quanto à partida, entre muitos, precoce de diversos ícones de vários géneros musicais. Aqueles que para muitos marcaram a sua geração, partiram e deixaram um vazio não só a nível musical mas também na forma como influenciaram as suas vidas com histórias controversas, estilos de vida e muitos pela ação social e de intervenção que exerceram.


Hoje em dia, embora com maior facilidade para gravar um álbum e distribui-lo digitalmente, tendo cada vez mais artistas, é por outro lado mais difícil se destacar por entre tamanha massa de novos talentos. E no meio de outras conjunturas, aquilo que me apercebo, e acaba por ser mais uma opinião pessoal do que um facto, os maiores meios de difusão de música parecem ter um espectro mais estreito, um género musical comum, que roçam o kizomba e os ritmos latinos. Parece assim haver menos margem de manobra para a continuação do legado daqueles que já partiram. 


Como exemplos temos o legado de Scott Weiland, vocalista e compositor Norte-Americano ex-vocalista dos Velvet Revolver, ficou mundialmente conhecido com os Stone Temple Pilots. A forma controversa como Weiland lidava com o mundo do espetáculo e a forma singular como se apresentava em palco marcaram uma geração e deixaram o seu nome gravado no mundo rock/grunge com a explosão do som de Seatle. Foi encontrado sem vida no autocarro da tour que realizava nos EUA em Dezembro de 2015.


Outra grande referencia de rock/grunge que perdeu a vida em Maio de 2017 foi Chris Cornell ,um dos grandes impulsionadores do movimento grunge de Seatle nos anos 90. 


Fez parte dos Soundgarden, Temple of a Dog (juntamente com Eddie Vedder) e Audioslave. Para mim, sempre foi um ídolo, talvez uma das maiores referências vocais e sem dúvida uma das maiores influências no meu trabalho. Foi com choque que o mundo da música recebeu a notícia da sua partida prematura. 

Segue-se Chester Bennington, vocalista dos famosos Linkin Park (rock alternativo, rap rock, rock eletrónico). Perdeu a vida a em Julho de 2017. Bennington ainda deu voz aos Stone Temple Pilots, continuando o legado deixado por Weiland. 


Dentro de outros géneros musicais presenciamos a partida de Leonard Cohen, autor de Im your Man e Hallelujah, aos 82 anos. Deixa-nos uma invejável carreira tanto como cantor como compositor. 


Outro gigante da música, George Michael faleceu em Dezembro de 2016. Para muitos a cara dos Wham com a música Last Christmas, marcou uma geração com os seus êxitos musicais e com uma vida controversa. Deixou uma legião maciça de fãs destroçados .


Não poderia deixar de falar do grande "camaleão dos palcos" , o grande David Bowie. Um artista sem precedentes, com uma discografia tão diversa e rica que marcou gerações de forma tão intensa e impregnada. Deixou o mundo perplexo e em choque em Janeiro de 2016 quando foi confirmada a sua morte , dias após o lançamento do seu último trabalho "Blackstar" 


Todos estes artistas, com estilos distintos, personalidades fortes e detentores de um enorme talento, deixaram a sua marca de inúmeras formas, tocando as mentes e corações de gerações. 


Gerações estas que, embora em crescimento exponencial na música, não parecem continuar uma história começada por estas Estrelas. 

O mundo da música está mais pobre e, claro , a lei da vida é certa, e muitos dos nossos ídolos partirão. Cabe a nós mantermos a chama bem acesa e não deitar por terra o que anos atrás começaram. 

O rock , rock/grunge marcou toda uma geração e transportou-nos tantas vezes para lugares que nuca visitamos, ajudou-nos a atravessar períodos conturbados e marcou para sempre a história da música. 


Assim termino esta crónica, "puxando a brasa à minha sardinha" e apenas dizer "long live the grunge".

O ESTATUTO JURÍDICO DOS ANIMAIS – O QUE FAZER PERANTE O ABANDONO?

ANA LEITE
Perante o hipótese de encontrar animais abandonados, surge sempre a questão de como agir, o que fazer e qual o nosso dever em ajudar aquele animal.

De facto, com a aprovação da Lei 8/2017 – Estatuto Jurídico dos Animais -, os animais deixam de ser coisas, passando agora a ser reconhecidos “como seres vivos dotados de sensibilidade e objeto de proteção jurídica”. Como tal, a nova lei refere que “o proprietário de um animal deve assegurar o seu bem estar e respeitar as características de cada espécie e observar, no exercício dos seus direitos, as disposições especiais relativas à criação, reprodução, detenção e proteção dos animais e à salvaguarda de espécies em risco, sempre que exigíveis .” No caso de o “proprietário” do animal não conseguir assegurar estas questões, a lei considera que o mesmo está a incorrer numa infração.

Assim, na possibilidade de “apanhar” alguém a cometer um crime de abandono de animais, devemos angariar o máximo de provas para poder denunciar o referido crime. Apesar de se tratar de um crime público, para abrir o respetivo procedimento criminal, é necessário haver conhecimento da existência do crime. Facto que muitas vezes impede de se fazer a devida investigação, e assim poder aplicar a consequência jurídica ao agente do crime. O atual código penal não deixa dúvidas, quando estabelece no seu artigo 388.º que : “Quem, tendo o dever de guardar, vigiar ou assistir animal de companhia, o abandonar, pondo desse modo em perigo a sua alimentação e a prestação de cuidados que lhe são devidos, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias.” Desta forma, deverá procurar reunir o máximo de provas – testemunhal ou documental, como fotografias do acontecimento. O denunciante não paga nenhuma taxa ou sobre ele não recaí nenhuma represália, podendo vir a participar no processo apenas como testemunha do crime que presenciou.

Porém, na possibilidade de encontrar algum animal, e depois de tentar perceber se o animal estará perdido ou abandonado, chegar à conclusão que o mesmo está abandonado, existem diversos procedimentos que poderá adotar, como por exemplo, contactar uma associação de animais ou um canil municipal, ou poderá sempre tentar encontrar alguém que faça uma adoção responsável.

Devemos todos lembrar-nos que o abandono de animais é crime. E se é crime temos todos que denunciar, para haver a devida investigação e a consequente acusação e punição.

AMBIVALÊNCIA SENTIMENTAL

GABRIELA CARVALHO
A difícil tarefa de ver os filhos crescer... Oh sentimento complicado este!!!

Quando são pequenos e choram, pedimos para que cresçam e se expressem de forma a que entendamos o que nos querem dizer... mas quando efectivamente crescem... como é tão bom, tão bonito e, simultaneamente tão difícil vê-los crescer!

A pequena com os seus 3 anos lá entrou para o jardim de infância. MUITO ORGULHOSOS seguimos com ela até à escolinha, mas sempre com o coração apertado de medos, de incertezas, de dúvidas...

Entramos e logo percebemos que, a pequena estava «mais feliz do que nós»! Bolas, apesar de sabermos a importância da entrada para o jardim de infância, apesar de confiarmos naquele jardim de infância, apesar de termos a lição bem estudada de que "está na idade"; é o nosso ser minúsculo que segue ali, de mochila às costas! E como cresceu...!!! Nesse momento o estômago contrai, os olhos enchem-se de lágrimas que com muita dificuldade controlamos e percebemos que a mudança está presente

Pedimos-lhe que siga os seus sonhos, mas se possível que estejamos por perto os acompanhar; pedimos-lhe que cresça, na medida em que os nossos braços continuem a poder abraçá-la e que o nosso colo continue a ser o «único» com a medida certa; pedimos-lhe que seja feliz, garantindo que tudo faremos para que assim seja...

Mas, é de facto difícil, ver os filhos crescer...

Com o brilho da felicidade e de todos os medos possíveis e mais alguns, disse-lhe que já íamos embora. Ela ficou e olhou-nos com aquela vontade de abraçar o mundo e de viver cada segundo intensamente, que tanto a caracteriza. E nesse olhar fugaz a professora pergunta se não quer ir dar um beijinho à mãe. E eis que responde prontamente: «NÃO É PRECISO. ADEUS MÃE. VAI TRABALHAR, VAI TRABALHAR...» ... e eu vim!

VOA ALTO, CHEGA LONGE E NUNCA DEIXES DE SONHAR!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

UM PARADOXO CHAMADO ISALTINO

RAUL TOMÉ
Nas últimas semanas tem-se assistido, nomeadamente, nas redes sociais a um enorme burburinho em torno da candidatura de Isaltino Morais à câmara municipal de Oeiras. Ora, cumpre desde já alertar os leitores que não existe aqui qualquer intuito de índole eleitoralista nem de defesa da personalidade em questão.

O que aqui se pretende é fazer uma reflexão acerca da sociedade em que vivemos e sobre o que entendemos como Estado de Direito no que concerne à reposição dos direitos de cidadania de todos (e sem excepção) os cidadãos 
Será moralmente questionável a recandidatura de Isaltino Morais? Eventualmente será! Mas aqui já entramos no campo da individualidade de cada um, pelo que tecermos juízos de valor acerca das atitudes de terceiros, por norma, nunca abona a nosso favor.

No caso de Portugal, por exemplo, contrariamente a outros países, a pena de morte foi abolida em 1867. Portanto, concorde-se ou não, a privação da liberdade foi uma das formas encontradas para punir os cidadãos pelas suas falhas. 

Todavia, se um cidadão é julgado, condenado e cumpre a pena que lhe foi atribuída, ser perpetuamente julgado em praça pública vem, apenas e só, provar uma eventual falência do sistema judicial e a total hipocrisia da sociedade em que vivemos.
Por um lado, os cidadãos acusam a justiça por nunca condenar individuos detentores de elevados cargos políticos sempre que surgem indícios de corrupção. Por outro, não acreditam que a justiça tenha sido suficientemente dura e eficaz quando pune tais comportamentos.

É por isso que urge a necessidade de, enquanto cidadãos ponderarmos, de facto, que sociedade queremos.
Onde está aquilo que apelidamos de (re)inserção social?
Não acreditamos nós que a privação de liberdade possa ser requalificante para os indivíduos? Então porque a aplicamos se não a vemos per si como justa? Porque não pensamos noutras formas de punição quando esta não nos satisfaz?
Teremos nós cidadãos o direito de condenar perpetuamente os indivíduos quando Portugal aboliu a prisão perpétua em 1884? Será justo que os indivíduos sejam condenados a uma dupla pena, a judicial e a social?

No exemplo que aqui trazemos importa recordar que Isaltino Morais foi condenado a dois anos de prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais, não lhe tendo sido atribuída nenhuma pena assessória, nomeadamente, a inibição de ocupação de cargos públicos.
Nesse âmbito, tendo pago à sociedade pelos delitos cometidos, os cidadãos têm de adquirir plenos direitos, não só por parte das instituições mas também por nós enquanto sociedade que se quer inclusiva.

No caso em apreço e fazendo jus ao adágio popular, "quem está dentro do convento é que sabe o que lá vai dentro", cabe aos cidadãos de Oeiras decidir, não com base nos preconceitos mas sim na razão e na igualdade de direitos de cidadania, se Isaltino deverá ou não ser reeleito.

AS REDES SOCIAIS

ARTUR COIMBRA
As redes sociais são, hoje em dia, uma realidade incontornável para quem procura a informação mas, sobretudo, o comentário e a opinião sobre os acontecimentos, sejam numa dada localidade, no país ou no mundo.

Substituindo um pouco o secular diário pessoal das nossas infâncias, em cujas páginas o leitor ia apondo os seus textos, os seus poemas, os seus desenhos, as suas análises ao que se passava à sua volta, as redes sociais constituem, na actualidade, a forma como os cidadãos vão reagindo ao momento, em cima das ocorrências. Alvitrando, julgando, avaliando, aplaudindo ou censurando. Acabam por se transformar na voz dos que não têm voz no dia-a-dia dos jornais ou, genericamente, da comunicação social, cada vez mais reduzida ao papel de porta-voz dos grandes interesses políticos, económicos, culturais ou desportivos deste país.

Assim, as redes sociais assumem um imprescritível espaço de promoção da cidadania e da própria democracia, enquanto mensageiras da representação do pensamento de cada português, que, de outro modo, jamais conseguiria obter a amplificação que aquele meio proporciona.

E quem diz democracia, diz liberdade. É inquestionável que as redes sociais representam a legitimação da liberdade de cada cidadão colocar na net tudo o que lhe vai na alma. E é exactamente no exercício desse sagrado benefício que, paradoxalmente, reside o perigo do sistema, que é enorme. 

Ninguém questiona o direito de qualquer cidadão a exprimir, sem peias, as suas opiniões, as suas críticas, os seus desejos, os seus fantasmas, desde que assuma, lealmente, a autoria do que escreve e publica. Já se contesta esse direito desde que praticado a coberto do anonimato, ou de falsas identidades, ou de perfis falsos, como é comum no mundo virtual, sobretudo em épocas eleitorais.

As pessoas sem escrúpulos transferem para as redes sociais as suas taras, as suas perversões, a sua podre maledicência, a sua desonestidade intelectual, no fundo, a sua cobardia. Que outra designação não pode ter quem, anonimamente, em textos ou comentários, denigre e achincalha respeitáveis pessoas, permite-se julgar quem não conhece, humilha e ofende quem não está de acordo com as suas ideias, vilipendia e insulta quem lhe dá na real gana, porque, no fundo, escreva o que escrever, ninguém é penalizado pela estrumeira que lança na Internet. 

Ao contrário do que acontece nos media, que têm directores e coordenadores que filtram devidamente o espaço opinativo, nas redes sociais reinam, quantas vezes, o caos e a anarquia, releva a linguagem de estrebaria, impõe-se a voz do ataque, da injúria, da difamação, dos sentimentos mais primários, na perspectiva de que ninguém descobrirá a respectiva autoria. E ninguém paga pelos delitos que, com a mesma linguagem, seriam penalizados na imprensa. 

Nas redes sociais campeia gente sem princípios, sem valores, sem disciplina. Falta aí certamente uma autoridade que vele por comportamentos adequados a uma vida em sociedade, pautada por paradigmas de respeito, de ética, de rectidão, de probidade.

Faz falta uma entidade reguladora para as redes sociais, mas que exerça, de facto, essa importante missão disciplinadora, e não a farsa que são os reguladores da comunicação social, ou da electricidade, ou dos combustíveis, ou do que quer que seja, e de que ninguém lobriga a utilidade para os cidadãos. 

As redes sociais são, em suma, um espaço de democracia e de liberdade, mas também de cobardias, de ataques pessoais, de libertinagem, muitas vezes a coberto de perfis falsos que pervertem o que a Internet tem de imensamente positivo!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DIZ-ME O QUE TENS E DIR-TE-EI QUEM ÉS!

MÁRCIA PINTO
Apesar da revolução de mentalidades que tem ocorrido ao longo dos anos é ainda notória uma estratificação da sociedade!

Contudo, é importante perceber que todos os aspetos de uma sociedade, economia, política, área social, cultural, etc. – estão interligados. Deste modo, os vários tipos de estratificação não podem ser considerados de forma independente. Por exemplo, as pessoas que têm uma posição económica favorável, normalmente, desempenham posições profissionais valorizadas socialmente.

Assim, existem sociedades em que, mesmo usando toda a sua capacidade e todos os seus esforços, o indivíduo não consegue alcançar uma posição social mais elevada. Nesses casos, é como que se fossem rotulados logo à nascença, independentemente da sua vontade e sem hipótese de mudança. Assim, carrega consigo, para toda a vida, a posição social herdada.

Felizmente, na nossa sociedade, há indivíduos que nascem numa camada social mais baixa e conseguem alcançar, com o decorrer do tempo, uma posição social mais elevada.

No entanto, continuamos a ser mais valorizados pelo que temos do que pelo que somos. As pessoas hoje em dia só se preocupam com o dinheiro e bens materiais, passando para segundo plano os sentimentos do outro. Valorizam mais o físico e a aparência desvalorizando o caráter!

O mundo de hoje infelizmente é um mundo vazio onde falta afeto, respeito, educação, amor…Coisas tão simples que se foram perdendo ao longo do tempo. O individualismo e o egoísmo são a marca dominante do comportamento coletivo. Prevalece o culto do prazer e da satisfação imediata dos desejos. Ser honesto deixou de ser valorizado pois vivemos num tempo em que só os espertos conseguem chegar mais longe!
É importante, não deixar de usar nas nossas vidas a simplicidade e a humildade, que ao contrário do que o que a maioria pensa, não significa ser pobre, mas reconhecer o valor do outro, subir com dignidade e pelo nosso esforço.Precisamos estabelecer critérios pelos quais deveremos pautar os nossos comportamentos.

Neste sentido, os pais e educadores têm papel fundamental, na medida em que devem ser exemplo para os filhos e educandos. Ensinar que vale a pena ser honesto, É inadiável ensinar com palavras e, sobretudo, com exemplos que é importante construir um mundo melhor, mais comunitário e solidário.

DEPOIS DO FIM DO MUNDO TUDO FICA BEM

RAQUEL EVANGELINA
Este texto é para ti. Sejas tu quem fores. Podes ser aquele(a) que se sentou na cadeira do consultório e a quem o médico informou com um ar pesaroso que a situação é mais grave que o que se pensava. Podes ser aquele(a) que batalhou tanto por um determinado lugar e por muitos esforços que faça parece que nunca te é dada a oportunidade. Podes ser aquele(a) que está de luto porque acabou de perder alguém que lhe era muito. Podes até ser aquele(a) que por muito bom que seja vê a pessoa com quem está escapar-lhe pelos dedos e não percebes o porquê. Acho que toda a gente passa ao longo da vida por estas situações, se não passar por todas, passa em duas de três pelo menos. 

Um dia descobres que estás doente. Pensas porque é que te aconteceu a ti, porque é que tens que ser tu a passar por essa provação. Pensas na morte, mesmo que não queiras lá no fundinho a ideia de que pode ser o fim do jogo para ti aparece. Deprimes e isolas-te. Não porque culpes as pessoas que te rodeiam mas porque não queres que elas vejam que não és tão forte quanto queres mostrar. Que choras e que tens medo. E de qualquer forma elas não te vão dar a cura então para quê incomodá-las com batalhas que não são delas? As pessoas que realmente se importam contigo passam a vida a fazer perguntas. E tu não estás com disposição de nada, muito menos de interrogatórios. 

No trabalho esforças-te por ser o melhor que podes. Pões a vida profissional acima da pessoal, dás a cara pela instituição que representas e és uma pessoa ambiciosa. Mas mesmo assim nada acontece. Vês outros ficar com as tuas vitórias, tirar proveito dos teus esforços e começas a desmotivar. E é nesse teu momento de fraqueza que começas a ser criticado(a). Como é que alguém sempre tão prestável, tão disponível, de repente deixa de o ser e baixa o seu rendimento laboral? E se ninguém reparou até agora na tua prestação acredita que reparam logo assim que ela baixa. E continuas sem motivação e completamente infeliz porque foste ultrapassado(a) por alguém com mais ambição e sem medo de “passar por cima” dos colegas. Ir para o trabalho passa a ser uma obrigação e não algo que te seja prazeroso. Ficas frustrado(a) e se não podes gritar ou reclamar com os teus superiores por teres o emprego em jogo farás com os que estão em casa e não têm culpa nenhuma.

O teu pai morreu. Quem diz o teu pai, diz a tua mãe, o teu filho, o teu avô, quem quer que seja que te é próximo e muito importante. Choras porque há perdas que não há volta a dar e a morte é decididamente uma delas. Fazes o teu luto mas por vezes é difícil deixar ir. A última vez que falaste com essa pessoa discutiram. Gostavas de lhe dizer que a discussão foi uma estupidez e ela morreu sem que lhe dissesses o que realmente querias, que gostavas muito dela. Isolas-te, achas que nunca vais ultrapassar essa pessoa não estar mais lá. Recordas os momentos com mágoa. Não porque foram maus mas porque foram bons e não voltam.

E falando em perdas o que te aconteceu enquanto elemento de um casal? Porque é que a tua relação te dá mais motivos para chorar do que razões para te orgulhares de ter essa pessoa ao teu lado? Um dia chega e berra contigo todas as frustrações externas a ti mas tu perdoas porque está numa fase má e não quer dizer que não te ame. Um dia começa a criticar que estás mais isto ou aquilo e pensas que realmente a culpa é tua, que te desleixaste e que és indigno(a) da pessoa que tens e inferior a ela. Bate-te uma vez. E sim isto também acontece com vítimas homens, apesar de em menor número. Ficas magoado(a) mas perdoas, conheces quem tens, apenas perdeu a cabeça e não torna a fazer o mesmo. Se calhar até fizeste por merecer. E vais tentando manter através de cacos o relacionamento, vais sustentando-o com base no teu amor unilateral porque Deus te livre de viver sem aquela pessoa. Porque no fundo ela te ama e tudo o que viveram já foi tão bonito. E se algo está mau a culpa decididamente é tua, nunca do outro(a).

A questão é que por vezes achamos que é o fim do mundo. Não vamos sair da doença, não conseguimos arranjar outro emprego, nunca conseguiremos ter novamente as pessoas que já foram e não conseguimos viver sem o nosso grande amor. Todos nós passamos por esses fins de mundo. Eu já passei e a minha visão é mesmo a de que sim por vezes é o fim do mundo mas passado um tempo está tudo bem. Não é o fim do mundo como o conhecemos, é apenas o fim de alguns mundos nossos mas depois fica tudo bem. Portanto não te deixes abalar pela doença. Há tantos que a vencem. Tu és mais forte. Não tenhas medo de juntar quem te rodeia e dizer que tens alturas que choras. Todos o fazemos e por vezes por coisas mínimas. Eu sei que vou soar um pouco lunática agora tendo em conta a economia do país mas se não estás bem no emprego sai. Haverão outras oportunidades profissionais e se és dedicado(a) elas aparecerão. Relativamente a quem perdeste honra-lhes a memória. Pensa que onde quer que estejam não estarão de certeza interessados na discussão e sim em tudo o que viveram de bom contigo. E quanto ao amor acredita que há vida depois daquela pessoa. Se não consegues aguentar mais vai embora. Não porque já não a ames mas porque te amas, se não o fazes deves fazer, mais a ti. 

Esta minha crónica não te vai trazer saúde. Não te vai dar um emprego novo. Não te traz nem quem já partiu nem o teu amor de volta. Mas espero que te traga esperança. E a ideia de que depois do fim do mundo tudo fica bem. A ti. A mim. A todos.