sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O PREÇO DA OPINIÃO

HELENA COUTINHO 
De acordo com as últimas sondagens, e evidências, opinar tornou-se um verbo em vias de extinção, no planeta Terra, por falta de utilizadores. Ter opinião passou a ser considerado um acto de rebeldia e frequentemente um risco com cheiro a morte. Assim, por medo ou pura ignorância, opinar é uma ousadia cada vez mais rara. Longe vão os tempos em que muitos dos mais notáveis humanos lutaram pelo direito à opinião individual e comum. Numa era que, hoje, nos parece quase tão distante como a era dos dinossauros, defendia-se o espírito crítico, a criatividade e a liberdade de expressão mas as prioridades e os interesses mudaram mais do que o próprio tempo e o que outrora era considerado normal foi redefinido como proibido. Creio que, em breve, a opinião poderá ser considerada uma doença contagiosa, e os seres pensantes serão julgados e rotulados como os leprosos do século XXI e, por fim, abandonados à sombra de uma sorte semelhante.

Na geringonça da realidade actual, restam três tipos de pessoas com opinião: os ricos, os loucos e os iluminados. Relativamente aos ricos e aos loucos, não restam dúvidas, já no que respeita aos iluminados, tal como as opiniões, são uma raridade. Ter opinião sai cada vez mais caro, pois pensar implica um trabalho individual árduo, e um investimento contínuo, frequentemente sem retorno ou reconhecimento. E, mais cedo ou mais tarde, quem ainda arrisca opinar acaba por sofrer consequências equivalentes à guilhotina. Consequentemente, a maioria da minoria dos que aspiram ser iluminados desiste a meio do trilho, optando pela forma mais fácil de se ser, que é imitando ou vivendo à mercê da opinião dos outros. Sobrevivemos num tempo estranho, em que ser normal significa ser alguém oco, desprovido de rumo e de quase tudo o que nos diferencia como uma espécie racional. O massacre do intelecto inicia-se cada vez mais cedo, nas escolas, onde o único programa que realmente importa cumprir é o que molda pensamentos obsoletos, através da arte da “desinformação”. Pela vida fora, incluindo Domingos e feriados, somos sulfatados com múltiplos interesses, em segredo e a preço de ouro, no entanto, o melhor da humanidade apodrece, dia após dia.

O estado da arte resume-se em desvitalizar sentimentos e vacinar emoções, desde a nascença, condenando a história comum ao mesmo destino do incrível Titanic. A fim de evitar tal apocalipse, é fundamental continuar a acreditar que algum louco ou iluminado inventará um antídoto capaz de nos salvar dos efeitos deste veneno silencioso e de um fim anónimo e inglório.

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