segunda-feira, 29 de maio de 2017

O MILAGRE DA VIDA EM ALTO MAR

JOANA BENZINHO
Nas ilhas do Arquipélago dos Bijagós, habitadas essencialmente pela etnia Bijagó, são as mulheres que mandam. É verdade. Vive-se aqui num registo matrilinear em que são elas que decidem as colheitas, que escolhem o namorado, o marido, que decidem do divórcio, ficam com a guarda das crianças em caso de separação, tomam as decisões mais importantes do quotidiano e, claro, gerem o orçamento do lar.

Verdadeiras mulheres multifacetadas, dedicam-se à agricultura, essencialmente arroz e amendoim (mancarra), andam na apanha do cumbé (bivalve muito apreciado na Guiné-Bissau), tomam conta das crianças, pilam o arroz, vendem no mercado, fazem a lida da casa e cozinham para as famílias, normalmente numerosas que caracterizam a sociedade guineense.

Nos Bijagós, a falta de cuidados básicos de saúde é ainda mais acentuada que no continente, numa Guiné-Bissau em que a taxa de mortalidade à nascença é ainda alta e em que a esperança média de vida não chega ao meio século.

Esta semana, presenciei essa realidade ao apanhar um dos barcos que agora faz a ligação entre Bissau, a capital, e a Ilha de Bubaque, uma das mais requisitadas por turistas e viajantes de negócios que se deslocam às ilhas.

Depois de meses sem ligações, em virtude da avaria do cacilheiro que partia de Bissau à sexta e regressava ao domingo, há agora dois barcos que ligam Bubaque e Bolama a Bissau numa base regular. Até há um mês, quem queria ir ou vir destas duas ilhas, tinha que recorrer a canoas, pouco ou nada seguras para chegar ao destino, o que sucedia entre uma ou outra historia de naufrágios com fins naturalmente muito pouco felizes,

Foi num destes barcos que viajei esta semana até Bubaque para uma estadia relâmpago de menos de 24 horas, entre mercadorias e os poucos passageiros. É sempre um passeio digno de registo, com o vislumbre das ilhas de Bolama e Galinhas do nosso lado esquerdo e mais tarde as bonitas ilhas de Rubane, Canhabaque e Soga a surgirem no horizonte, quando já nos aproximamos do destino final.

No regresso a Bissau, uma jovem chegou ao barco numa ambulância do hospital local acompanhada por uma menina e de um saco de soro que foi pendurado com um cordel numa viga que segurava a lona que nos dava sombra no porão. Entre peixe em caixotes, duas cabras, um porco que quase se afogava ao entrar no barco e várias galinhas como companhia de mão, atadas em cordéis qual trela, lá seguimos viagem ainda o dia mal despontava no horizonte. Destino, Bissau, onde eu esperava chegar depois de um cochilar embalado pelas ondas e de um pouco de leitura encostada às caixas que exalavam um forte odor a peixe e a mar.

Meio caminho ainda não estava feito quando a jovem mulher do saco de soro começa a queixar-se de fortes dores e se senta no chão numa tentativa de enganar o incómodo. E é aí que somos confrontados com a eminência de um parto em alto mar. No barco, sobrelotado de passageiros para os poucos bancos corridos existentes, abre-se de repente um espaço para que a mulher possa dar à luz. Quatro outras senhoras que viajavam no barco retiraram rapidamente panos da cabeça e outros que traziam enrolados ao corpo e cobriram o chão que lhe viria a servir de sala de parto bem como o seu próprio corpo. As luvas que trazia consigo no bolso são prontamente enfiadas por uma das mulheres (na Guiné, até muito recentemente, quem não se fazia acompanhar de um par de luvas quando chegava à maternidade por norma via-lhe vedado o acesso a um parto feito por um médico e/ou parteira no hospital) , outra agarra-a pelos braços e cada uma das outras segura uma das pernas. Ela contorce-se com as dores das contrações e tem ali vários braços a tentar mantê-la na melhor posição possível para que o bebé possa nascer. Os gritos da mãe são afogados pelo barulho dos motores e pelo bater das ondas no casco e este momento, que para ela parece não ter fim, prolonga-se por uns bons 10 minutos. A filha pequena que a acompanha assiste perturbada a tudo aquilo e chora, sem perceber o que está a acontecer. Puxo-a para mim e abraça-me com a força com que normalmente só nos agarramos a quem conhecemos. O medo é muito e soluça baixinho. Engano-lhe a angústia com um pouco de pão e queijo, um bem de luxo por aquelas paragens e que lhe faz nascer um brilho no olhar.

O bebé nasce, a mão geme com dores e de cansaço. É um rapaz. Ficamos em suspenso com o seu silêncio por alguns segundos. Ele não chora, apesar de uma das mulheres entrar numa espécie de transe e começar a bater palmas ao seu ouvido. É ai que ele é levantado, abanado e sujeito a umas breves palmadas nas costas que o fazem expulsar da sua pequena boca o que quase o matava por asfixia. E então chorou a plenos pulmões e nós respirámos de alívio. Uma lâmina nova ali serve para cortar o cordão umbilical e um pouco de fio dos panos tradicionais, passado por umas pingas de soro, serve para dar um nó junto do do umbigo do bebé.

Numa enorme azafama as mulheres ajudam a mãe a restabelecer-se, limpa-se a sala de partos improvisada com lixivia dada pelo capitão do barco, e a mãe volta a receber pelo cateter o soro saído do saco atado com um cordel na viga por cima dela. O bebé fica ali connosco e recebe no pulso uma pulseira que lhe é colocada pela mulher mais velha do barco, após uma pequena cerimónia em que ata a um fio preto um “segredo” que irá acompanhar o bebé no seu desenvolvimento e protegê-lo do mal. Bem sei que os bebés quando nascem não veem, mas garanto-vos que ele tinha os olhos arregalados e parecia absorver com a maior satisfação todo aquele improviso gerado em seu redor em alto mar.

A viagem ainda durou mais uma hora e, quando chegamos a Bissau com um passageiro extra, ninguém diria que aquela mulher tinha acabado de gerar uma vida em pleno porão. Mantinha-se muito direita no barco, provavelmente atordoada com tudo o que viveu, mas com uma dignidade e uma força que me deixaram siderada.

Não pudemos atracar no porto pois o cais estava ocupado, mas sim noutro barco, o que nos exigiu algum equilibrismo para sair de um, saltar para o outro vendo o mar como pano de fundo na folga entre os dois para só depois subir para um passadiço que nos permitiria chegar a terra firme. Eu precisei de ajuda, confesso, não conseguia sair dali sozinha. A jovem mulher, por si, acho que tinha superado todos aqueles obstáculos, não a tivessem amparado quase por imposição.

Finalmente sentei-me no carro e respirei fundo. Foi uma experiência única aquela que vivi. Tomei consciência quase de imediato que tinha acabado de assistir ao verdadeiro milagre da vida ali naquela travessia marítima em que a jovem mulher que entrou fragilizada no barco, me mostrou a resiliência, a coragem, a força, a dignidade e a verdadeira raça da mulher Bijagó.

domingo, 28 de maio de 2017

QUANDO O SONHO CHEGAR A VOAR E ME ESTENDER A MÃO

MIGUEL GOMES
No momento, neste, em que sinto o vazio de não escrever, ter palavras agarradas à alma, frases inteiras entrelaçadas num emaranhado novelo, é quando desejo a simplicidade de olhar o céu estrelado, ainda que me separe dele alguns pisos e uns quantos quilómetros.

Hoje, na ausência de filosofias, vou escolher retirar do forno da vida as noites mais frias, para que possa imaginar sentar-me na beira da cama, pendendo os pés para um vazio luminoso e adormecer nesta posição, para me levantar rapidamente quando o sonho chegar a voar e me estender a mão.

Poucas luzes brilham mais que uma noite sem lua. Enquanto o vento abana as lâmpadas no coreto, há uma musica tua, que se toca, corpo e sinfonia, para lá do frio que começa a cair desamparado, entre os ombros e o cigarro. 

Sou o lume que apago, pelos degraus da justiça, ascendo à boleia, literal, da compaixão metamorfoseada em casulo, hoje a vida nasceu ao contrário, não te preocupes, novo olhar poderá ter-te, novamente, nesse lugar de ninguém onde se encontram vidas passadas, há séculos, ontem.

De onde vens tu, amálgama de gente, pelo calor acima com todo este serrado às costas? 

Quererás deslocar o mundo, para que passem por ele, sobre ele, os ecos de uma morte enunciada, enumerada, designada? 

Vales pouco mais que uma rima de gado, por isso mesmo te querem submisso, parcamente alimentado, na esperança vã de um dia despires o suor e descansares sentado na beira da cova, reles buraco que tiveste que comprar, à espera de adormeceres, de tédio, solidão ou, simplesmente, até te empurrarem com um pontapé ou uma palmadinha nas costas. 

Vai que vais tarde. 

O teu tributo será o húmus que alimentará as pastagens ainda antes de serem sementes.

Se te soubesses eterno, perene, unicidade da multiplicidade, poderias virar costas e voar, sem medo e sem olhar para trás, o teu maior segredo é seres rei e fazerem de ti cravo, com que prendem a ferradura nesse teu cavalgar de equídeo bravo, selvagem.

Não... Não acredites em mim, estou cá de passagem, sem alforge, sem bordão, sem roupa, sem viagem.

Do calor faço imaginação, pelas curvas o destino, a paisagem sobe-me à mão, a palavra instrumento que desafino. 

Pudesse o Sol subir tão alto e prolongar a sombra do futuro na fachada da minha morada, mas a minha morada é pousio que habito sem dormir, as paredes do meu quarto são as luas reunidas quando por entre serenamente movimentadas plantas te vejo sorrir.

Sigo o traço da minha mão, chamam-lhe linha da vida, por ela um ribeiro secou quando Dezembro terminou sem nunca ter Primaverado. E, pelo entardecer tardio, não tarda vou dormir, sem nunca ter acordado.

CORBYN E O REENCONTRO COM O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO

TIAGO CORAIS
Estou a viver no Reino Unido há pouco mais de três anos e um dos acontecimentos que me marcaram quando estava aqui há pouco mais de três meses foi a campanha interna à liderança do Partido Trabalhista Britânico, em especial a inesperada candidatura e eleição de Corbyn a líder do Partido, que me FEZ REENCONTRAR COM O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO.

Quando cheguei a Oxford, desde o início tinha como objectivo envolver-me na política Britânica, mas como estava um pouco desiludido com o “pragmatismo extremo” do Socialismo Democrático Europeu, que segundo a minha perspectiva em muitas políticas tinha desistido da sua visão de sociedade, preferi aguardar um pouco para assimilar a cultura e os valores da sociedade Britânica. Quando o Jeremy Corbyn venceu as eleições, fui uma das 15.000 pessoas que se filiaram no Partido Trabalhista nas primeiras 24 horas. Foi impressionante o número de pessoas que se juntaram ao partido na primeira semana após a sua vitória. Hoje são 500.000 membros inscritos no Partido Trabalhista, antes destas eleições o partido tinha mais ou menos 200.000 militantes e o Partido Conservador ainda hoje tem só cerca de 150.000 inscritos. Aqui costuma-se dizer que o PARTIDO TRABALHISTA TEM AS PESSOAS E OS CONSERVADORES TÊM O DINHEIRO.

Uma das coisas que me fez desde a primeira hora apoiar o Corbyn, foi a sua autenticidade e a coerência na defesa das suas ideias. Corbyn defende as políticas keynesianas , as bandeiras tradicionais do partido trabalhista, é o deputado que menos despesas requere ao Parlamento e votou mais de 500 vezes no parlamento contra as proposta do seu partido, no qual se destaca a sua votação contra as guerras do Iraque. Chegou a ser preso por se opor ao regime do Apartheid e suportar Nelson Mandela e o ANC. É um apaixonado pelos valores Humanistas e um defensor da diplomacia em detrimento das guerras, ao qual muitas vezes é mal interpretado pelos mídias e por uma grande franja do eleitorado, como um líder fraco, ou mesmo um extremista. Se eu fosse conselheiro político de Corbyn, depois do que aconteceu em Manchester, eu aconselhava-o a ter muito cuidado quando aborda esta matéria, que usasse as palavras certas e sem ambiguidade, de forma a que nem a comunicação pudesse adulterar a sua mensagem , nem confundisse o eleitorado. AUTENTICIDADE SIM, INGENUIDADE E AMBIGUIDADE NUNCA.

MARCAÇÃO DE ELEIÇÕES PARA O PARLAMENTO BRITÂNICO

Daqui a duas semanas, 8 de junho, os Britânicos escolhem nestas “inesperadas” eleições ao Parlamento Britânico os seus deputados. Theresa May defendeu que os partidos estão contra o Brexit e que por isso precisa de clarificação. Os factos não demonstram isso, ela tem uma maioria absoluta no Parlamento Britânico, o seu documento para a saída da UE foi votado, não só pelos conservadores, mas por uma grande maioria dos deputados trabalhistas, mesmo tendo sido rejeitadas todas as sugestões da oposição. Sinceramente não houve nada de novo e a verdade é que ela quis aproveitar a popularidade das sondagens que lhe davam à frente com mais de 20 pontos percentuais, para que aumentassem a sua base de apoio no Parlamento e pudesse ditar as regras “sem escrutínio do Parlamento”. O que a levou a marcar eleições foi a sua perspectiva presidencialista que ela tem da função de Primeira-Ministra, como a sua interpretação de liderança forte que quer governar sem ter que prestar contas ao Parlamento. Concluindo o motivo é a sua POUCA CULTURA DEMOCRÁTICA, QUE RENEGA O SISTEMA PARLAMENTARISTA BRITÂNICO.

MANIFESTOS ELEITORAIS

O tema quente nestas eleições será o BREXIT, mais uma vez. Os Conservadores definitivamente defendem o radicalismo do “Hard Brexit”, propondo mais uma vez a imigração líquida de 10.000 pessoas, incluindo estudantes estrangeiros que estudam nas Universidades Britânicas. Já o Partido Trabalhista defendem que a prioridade no acordo com a UE será a Economia .

Mas haverá muitos outros temas que poderão influenciar na decisão do eleitorado. O Labour conseguiu elaborar um manifesto com ideias que são apoiadas pela maioria do cidadãos, como é o caso da renacionalização dos caminhos-de-ferro (suportado por 60% dos Britânicos). Outro aspecto importante é que o Partido Trabalhista no seu manifesto conseguiu na sua maioria suportar o financiamento das suas propostas ao contrário do Partido Conservador. Na entrevista dada por Theresa May na BBC1, foi tão apertada que quando o jornalista Andrew Neil lhe perguntava como financiava as suas proposta, ela assumiu que o que era apresentado no seu manifesto era uma série de princípios. Acho que quem assistiu a esta entrevista percebeu que LIDERANÇA FORTE NÃO SÃO CHAVÕES E QUE THERESA MAY É UMA POPULISTA.

SONDAGENS

Apesar de eu achar que temos que ter muito cuidado com as sondagens, pois elas são uma “fotografia” do momento em que são feitas e que para mim elas poderão influenciar o voto, acho que o que é relevante nesta matéria é verificar que antes da marcação destas eleições o Partido Trabalhista estava com 23 pontos de diferença em relação ao Partido Conservador e ontem numa sondagem da YouGov só dava uma diferença de 5% (43% para os Conservadores e 38% para o Partido Trabalhista).

Ainda faltam 2 semanas e não nos podemos esquecer que o sistema eleitoral Britânico não é um sistema proporcional de votos, ou seja, os deputados são escolhidos pelo seu círculo eleitoral o que em teoria pode acontecer que o Partido mais votado não tenha mais deputados. Por isso, a grande sondagem será dia 8 de Junho, mas já podemos tirar uma lição: EM DEMOCRACIA NÃO HÁ VENCEDORES ANTECIPADOS, A CAMPANHA PODE ALTERAR O VOTO.

CONCLUSÃO 
Continuo a achar a vitória do Partido Trabalhista nestas eleições difícil mas possível. Irei dentro da minha disponibilidade profissional e familiar fazer campanha pelo Partido Trabalhista já que não tenho direito de voto. Espero assistir em Junho ao fim de May (June the End of May) e desta forma que “ESTA MINHA VIAGEM” PELO REINO UNIDO FOSSE PREMIADA MAIS UMA VEZ COM UM ACONTECIMENTO IMPROVÁVEL E HISTÓRICO, QUE SERIA A ELEIÇÃO DE JEREMY CORBYN COMO PRIMEIRO-MINISTRO DO REINO UNIDO.

SALVADOR DA PÁTRIA

MOREIRA DA SILVA
O furacão Salvador, que se localizou no centro de Exposições de Kiev, na Ucrânia, e atingiu em cheio o Festival Eurovisão da Canção 2017 foi provocado pela canção portuguesa “Amar pelos dois”, que arrasou toda a concorrência, com uma votação histórica. Esta cantiga ternurenta que prima por uma enorme simplicidade originou um forte vendaval de emoções em Portugal, mas depressa se desenvolveu por toda a Europa e se alastrou a uma escala quase planetária.

A canção portuguesa foi uma agradabilíssima surpresa que provocou a rendição da Europa a Salvador e como recompensa ofereceu ao nosso país a vitória tão almejada e perseguida há mais de meio século. Desde 1964 que Portugal marcou quase sempre presença no certame, mas foram poucas as vezes que conseguiu colocar uma canção nos dez primeiros classificados, tendo obtido muitas classificações pouco honrosas.

A receita para conseguir trazer o troféu para Portugal foi a apresentação a concurso de uma canção lindíssima, nada “eurovisiva”, com uma bonita mistura de ritmos e influência do folk e da bossa nova, cantada em português por um cantor genuíno e simples, com uma voz doce que cruza as raízes do jazz, com as sonoridades da América Latina.

A canção “Amar pelos dois”, que obteve uma extraordinária vitória, também foi consagrada pelo público e pelo próprio júri da Eurovisão. A autora desta composição de grande qualidade é a irmã de Salvador, Luísa Sobral, que escreveu a música, que é um sentimento e não um fogo-de-artifício, como disse Salvador, e a letra inspiradora e ternurenta, que toca profundamente os nossos sentidos e os nossos corações.

Cantada em português, a canção “Amar pelos dois” magnetiza-nos de imediato, embala-nos com a sua sublime harmonia e entra em nós para massajar o nosso ego de português, que está sempre de portas abertas para receber este tipo de mimos. Também é com esta espécie de ofertas, que o nosso ego se vai fortalecendo. Sem qualquer exacerbamento nacionalista, mas com um saudável sentimento patriótico pode-se afirmar que existem muitos portugueses que são, na sua especialidade, do melhor que há no mundo, em diversas áreas do entretenimento, da cultura, do desporto, do conhecimento e outras.

É por tudo isto que temos que agradecer à Luísa e ao Salvador, pela mensagem sentida e pela verdadeira lição de amor à música, à poesia e à língua portuguesa, num festival dominado por canções em inglês. Um amor introduzido deliciosamente na canção, que os catapultou, a eles e a Portugal, para as bocas do mundo. Esta vitória portuguesa também abalou o poder quase hegemónico da língua inglesa para as canções. Que grande orgulho em ser português!

Em períodos de conjuntura desfavorável para a nação, os portugueses ficam esperançados numa aurora redentora. Portugal, ao longo da sua história, já teve muitos momentos inesquecíveis, mas também criou alguns mitos, alguns heróis, alguns Salvadores da Pátria. É óbvio que Salvador (Sobral) não chegou numa manhã de nevoeiro, não é um Salvador da Pátria, mas tão só um músico e cantor, um herói que é um anti-herói, uma vedeta que não quer ser vedeta.

Obrigado aos irmãos Sobral pela canção “Amar pelos dois”, que tem o condão de atravessar a nossa alma e alojar-se no nosso coração. A vossa vitória que também é nossa deu um forte contributo para alimentar o ego nacional.

sábado, 27 de maio de 2017

MODOS DE OLHAR

JORGE NUNO
Quando me preparava para iniciar esta crónica li a frase, citada in The Nag Hammadi Library: “Reconhece o que está à vista e aquilo que está escondido de ti tornar-se-á claro aos teus olhos”. Reconheço que o entendimento da frase não é fácil. É que a vida surpreende-nos, a cada dia, com factos inesperados, tanto pela positiva como pela negativa, sem que aparentemente possa haver qualquer controlo e previsibilidade da ocorrência para que, perante o que os nossos olhos veem, haja uma clara justificação dos factos ou do alcance dos mesmos.

Um desses factos passou-se com Nicky Hayden, americano, de 35 anos. Trata-se de uma lenda do desporto motorizado, piloto da Honda em Moto GP e campeão do mundo em 2006, nesta categoria. Foi anunciado que não resistiu aos ferimentos causados por um acidente em Rimini, em Itália. Não, não foi em corridas de moto… foi abalroado por uma viatura ligeira, quando seguia de bicicleta. Soube-se que a última dádiva do piloto terá sido a doação dos seus órgãos, desejo que terá sido cumprido pela família.

No exterior do Manchester Arena, em Inglaterra, logo após a conclusão do espetáculo da cantora americana, Ariana Grande, que contou com a presença de cerca de 21000 espetadores, um bombista suicida fez-se explodir. Com número de mortos a rondar vinte e dois e o número de feridos a ultrapassar os cem, dos quais vinte e três em estado muito grave e, como sempre nestas circunstâncias, o pânico instala-se e leva a que estes números reflitam também casos de espezinhamento, na tentativa de fuga. De imediato sobressai uma onda de solidariedade e gestos bonitos. Moradores a oferecerem camas às pessoas afetadas pelo atentado. Taxistas a oferecerem transporte gratuito a quem fugia daquele local. Uma senhora, de 48 anos, que estava próxima da estação de Victoria, a pedir aos jovens (que fugiam), para a seguir, tendo encaminhado cerca de cinquenta, que correram com ela para o Hotel Holiday Inn Express e onde deu conhecimento da notícia via Facebook, localização e número pessoal de telemóvel, para tentar sossegar os pais que não sabiam dos filhos. Dois sem-abrigo, um de 33 anos e outro de 35 anos, que se encontravam no local, em vez de fugir terão ajudado várias pessoas, incluindo crianças e viraram “heróis” improváveis; um deles, devido à visibilidade nos meios de comunicação social, terá agora oportunidade de reencontrar a sua mãe, com quem tinha perdido o contacto há anos; ao outro foi oferecido alojamento por 6 meses. Na manhã seguinte, estiveram juntos os líderes das várias comunidades locais, para mostrar união e solidariedade. José Mourinho – que já foi considerado o melhor treinador de futebol do mundo e que muitos têm vindo a dizer que já não tem a garra de outrora para estas lides, ao deixar o Manchester United em 6.º lugar na Premier League, nesta época, apesar de ter vencido a Supertaça e a Taça da Liga –, 48 horas depois do atentado em Manchester contribuiu para atenuar o sofrimento dos habitantes desta cidade ao conseguir com que o Manchester United ganhasse a final da Liga Europa, e tivesse entrada direta na Liga dos Campeões; tal, possibilitou que um simples jogo de futebol ajudasse a elevar o moral de quem se sente atacado. 

Mário Centeno, ministro das Finanças, foi por diversas alturas contestado e ainda se insiste com audição na AR – Assembleia da República, a propósito do caso dos “Offshore”. Foi igualmente contestado, de forma dissimulada, por algumas figuras de proa nas instâncias europeias, como é caso de Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão. Este último, em outubro de 2015, desagradado por não ficar a governar o partido vencedor das Legislativas, referiu que Portugal estava a ter sucesso até à chegada do novo Governo [liderado por António Costa]. O mesmo, em fevereiro de 2016, “encorajou fortemente” a equipa do ministério das Finanças de Portugal “a não fugir ao rumo bem-sucedido que vinha sendo seguido”, para em junho de 2016, deixar o cutelo no ar, como possibilidade de haver um segundo resgate, insistindo na necessidade de cumprimento das regras europeias. Agora, Centeno anuncia: a boa notícia (ainda sob a forma de previsão) de que a economia deverá crescer 3% no segundo trimestre de 2017; reforça a ideia do controlo das finanças públicas e estabilização da dívida pública; através da UTAO – Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento quer antecipar o pagamento de parte da dívida ao FMI – Fundo Monetário Internacional, entregando-lhes 7,2 mil milhões de euros em 2018 e 2019, permitindo poupanças ao Estado, em juros. Durante um ano, Centeno assume a presidência do Concelho de Governadores do BEI – Banco Europeu de Investimentos, instituição que em 2016 teve um volume de financiamento de 83,75 mil milhões de euros, dos quais 1,486 mil milhões foi direcionado para a linha de crédito da banca portuguesa, para apoiar as PME – Pequenas e Médias Empresas, para requalificação urbana e para a Indústria. Depois de Mário Centeno entregar o pedido e ver concedido a saída de Portugal do PDE – Procedimento por Défice Excessivo, não deixa de ser curioso saber que Wolfgang Schäuble ter-se-á referido a Centeno como o “Ronaldo do ECOFIN”. Paira ainda no ar a hipótese de vir a suceder ao presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, apesar de lhe ter sido pedido pelo presidente da República e primeiro-ministro para o não fazer.

Em fevereiro deste ano, no dia dos namorados, no Theatro Circo, em Braga, senti que a assistência estava rendida perante a atuação da Luísa Sobral. Eu era um deles. A meio do espetáculo apresentou uma surpresa: o Salvador. Chegado à boca de cena, com ar algo estranho, limitou-se a um tímido “olá”, provocando risos, e ainda mais quando a Luísa Sobral afirmou que tinham combinado que ele só diria aquilo. Cantou uma canção, sem letra, como quem está a trautear de improviso e saiu-se bem, embora continuando a soar a estranho para o público. Mais estranho pareceu quando venceu o Festival da Canção, que o obrigou a ir ao Festival Eurovisão da Canção e viria a ganhar com um resultado histórico – a maior pontuação alguma vez atribuída a uma canção – 758 pontos e ainda por cima cantada em português! Na noite do Festival da Eurovisão, estiveram cerca de 2,4 milhões de portugueses a ver a RTP1, tal como se fosse um dos decisivos jogos da seleção nacional de futebol. Disse que nunca tinha visto esse Festival e mostrou a sua imagem anti-vedeta. Quando foram ambos entrevistados na RTP1, a irmã disse que o “segredo foi levarmos uma coisa genuína e sem o intuito de ganhar”. Disse ainda que quando escreveu ”a canção não era para ganhar mas para a voz do meu irmão”. Por sua vez, ele afirmou que “a Luísa tem canções muito mais bonitas do que Amar pelos Dois”. Destaco, da entrevista, a frase da Luísa Sobral: “É bonito quando algo parece ser impossível para o país, e conseguimos provar o contrário!”

Na verdade… estamos sempre a ser surpreendidos. Já dizia Wayne Dyer (autor americano, com vários livros de auto-ajuda): “Mude o modo como você olha para as coisas, e as coisas que você olha mudarão”.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

REGIME DE ACESSO AO DIREITO E AOS TRIBUNAIS – PROTEÇÃO JURÍDICA DA SEGURANÇA SOCIAL

ANA LEITE
Artigo 20.º n.ºs 1 e 2 da CRP: “A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos.

Todos têm direito, nos termos da lei, à informação e consulta jurídicas, ao patrocínio judiciário e a fazer-se acompanhar por advogado perante qualquer autoridade.”

O direito de acesso aos tribunais e ao direito é como se vê, um direito fundamental, assim ninguém pode ser prejudicado no acesso à justiça e aos tribunais por razões económicas. A lei garante apoio ao cidadão no acesso à justiça quando demonstre insuficiência económica, e estabelece, como forma de acesso, a informação jurídica e a proteção jurídica, a qual abrange as modalidades de consulta jurídica e de apoio judiciário.

Em suma, a consulta jurídica é essencial para que todos os cidadãos possam conhecer os seus direitos e deveres, através da consulta com um advogado.

Já o apoio judiciário é atribuído consoante o grau de carência económica e o processo a que se destine, na forma de dispensa do pagamento das despesas do processo e dos honorários do advogado, na possibilidade de pagamento em prestações, ou na atribuição de agente de execução. 

Dito isto, tem direito a proteção jurídica os cidadãos nacionais e da União Europeia, bem como os estrangeiros ou os apátridas com um título de residência válido em Portugal ou num Estado membro da União Europeia. As pessoas coletivas sem fins lucrativos têm apenas direito à proteção jurídica na modalidade de apoio judiciário. As pessoas coletivas com fins lucrativos e os estabelecimentos individuais de responsabilidade limitada não têm direito a proteção jurídica. 

Todos têm de demonstrar que não têm capacidade económica para suportar as despesas associadas com a ação judicial. Nos termos da lei de acesso ao direito, encontra-se em insuficiência económica aquele que tendo em conta o rendimento, o património e a despesas permanente do seu agregado familiar, não tem condições objetivas para suportar pontualmente as custas de um processo. Qualquer pessoa pode verificar se tem direito à proteção judiciária através dos simuladores de proteção jurídica disponíveis na página online da Segurança Social.

Este apoio pode ser acumulado com outro ou outros apoios que eventualmente estejam a receber. O requerimento para solicitar apoio judiciário deve ser entregue pessoalmente ou enviado por correio para qualquer serviço de atendimento ao público da Segurança Social ou pode ainda ser enviado para o endereço eletrónico deste serviço.

Por último, convém referir que o advogado oficioso ou patrono é escolhido pela Ordem dos Advogados, sempre que os tribunais, os serviços do Ministério Público, os órgãos de polícia criminal ou os serviços da Segurança Social o solicitem, mediante um sistema eletrónico gerido pela Ordem.

O COMBUSTÍVEL DO SUCESSO ALEMÃO

JOÃO RAMOS
Num artigo de apoio, barry eichengreen criticava abertamente o elevado excedente da balança de pagamento da economia alemã, salientando que o seu governo deveria adotar um orçamento expansionista. Concluindo, defendia que existem vários sectores com necessidades de investimento, como o sistema de ensino, que não possuía uma única faculdade no top 50 das melhores do mundo. Este último dado confere informação relevante em relação ao crescimento económico e sobretudo à potência do seu motor produtivo. Assim sendo, apesar do sistema de ensino profissional constituir a principal mais-valia do sector industrial alemão, não me parece, que seja por si só suficiente para sustentar o principal motor económico europeu. Desta forma, muito do sucesso das indústrias alemãs de alta tecnologia foi alimentado pelos emigrantes altamente qualificados dos países do sul da Europa. Aproveitando-se da qualidade do sistema de ensino e da crise de economias como a Portuguesa, a Alemanha apropria-se de importante recursos humanos, sem contribuir com os custos para a sua formação.

Ao contrário do que muitas das vezes é passado para a opinião pública, o ensino universitário nacional situa-se na vanguarda em várias áreas tecnológicas, contribuindo para a formação de profissionais extremamente competentes, que por falta de oportunidades são obrigados a rumar a outras paragens.

Como é sabido, no seculo XXI, o conhecimento e o capital humano são condições sine qua non para garantir um futuro promissor para a nossa economia e próximas gerações. Desta forma, para além de investir num amplo programa de fixação de jovens formados, o governo deveria propor a criação de um mecanismo europeu de compensação, para os países exportadores líquidos de mão-de-obra qualificada, sobretudo procurando reaver parte dos custos associados à componente educativa.

EA: SENTIR-SE SEGURO

GABRIELA CARVALHO
Em várias crónicas tenho abordado o EA com algumas especificidades.
Na crónica de hoje a especificidade será sobre a importância do idoso se SENTIR SEGURO para um bom envelhecimento activo.

“Sentir-se seguro” é uma necessidade fundamental sendo um direito proclamado pela Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Nos dias actuais, esta sensação de segurança é facilmente amedrontada pelos acontecimentos, também exacerbados pelas notícias.

No entanto, o tema que se pretende nesta crónica não é propriamente a (in)segurança noticiada, mas a insegurança associada às alterações biopsicossociais inerentes ao processo de envelhecimento e que aumentam a vulnerabilidade do idoso aos acidentes, nomeadamente domésticos.

Se por uma lado, o sentimento de insegurança tem repercussões na qualidade de vida do idoso, também é verdade que é sempre possível alcançar maiores níveis de segurança, quer pela redução dos riscos associados aos determinantes pessoais (ver crónica do dia 06.01.2017 sobre o Envelhecimento Activo), como por exemplo, o risco de queda; quer pela redução dos riscos associados ao ambiente físico (por exemplo: barreiras arquitectónicas).

Importa portanto, existir a consciencialização de que a segurança apresenta reflexos directos na participação activa do idoso no seu domicílio, mas também na sua vivência social, isto é, «na vivência cívica e de cidadania activa» e também nos relacionamentos interpessoais e na procura de estilos de vida saudável.

Por exemplo, nos espaços exteriores, se o idoso não se sentir seguro, vai evitar as saídas do domicílio (apesar de que volto a alertar que o próprio domicílio apresenta riscos à segurança, por exemplo, pelo risco de quedas em tapetes/móveis; intoxicações por trocas de substâncias/medicamentos; pouca luminosidade; falta de barras de apoio; …). Por isso, deve existir a preocupação da pessoa idosa se sentir segura na rua, para que mantenha a vontade de se envolver na sua comunidade local.

Cabe à sociedade, criar oportunidades e eliminar barreiras, permitindo a igualdade de acesso, tal como preconiza a Organização Mundial de Saúde ao criar em 2005 o projecto “Cidades Amigas das Pessoais Idosas” (tema que será abordado na próxima crónica).

“Mais do que acrescentar anos à vida, a Terapia Ocupacional proporciona vida aos anos.”

Referências Bibliográficas:
- Organização Mundial de Saúde (2005). Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde.
- Ribeiro, O., C. Paúl (2011). Manual de Envelhecimento Activo. Lisboa, Lidel - edições técnicas, lda.
- Torres, M. & Marques, E. (2008). Envelhecimento activo: um olhar multidimensional sobre a promoção da saúde. Estudo de caso em Viana do Castelo. Lisboa: VI Congresso Português de Sociologia.
- Vasconcelos, K. R. B. d., Lima, N. A. d., & Costa, K. S. (2007). O envelhecimento ativo na visão de participantes de um grupo de terceira idade. Fragmentos de cultura, 17, 439-453.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A CULTURA COMO INVESTIMENTO

ARTUR COIMBRA
Ciclicamente, por uma razão ou outra mais ou menos plausível, essa ave rara chamada “cultura” vem ao de cima do discurso mediático, bem mais propenso às vicissitudes da política mais ou menos centrada nos governantes e nos partidos políticos.

Nos últimos dias, os media têm dado significativo destaque a questões ligadas ao universo da cultura, em especial da música, por virtude da fantástica conquista do Festival Eurovisão da Canção por esse cantor improvável e em quem poucos acreditavam chamado Salvador Sobral, ainda por cima cantando em português uma canção sem o habitual aparato festivaleiro. É o cantor que tem colocado o dedo na ferida, referindo que seria interessante que, à boleia daquela inesperada conquista da Europa das canções, “o orçamento para a cultura aumentasse”. Um recado para o Governo de António Costa, esperando-se que não caia em saco roto, como é tão normal neste país, em que as coisas habitualmente abrigadas no chapéu da cultura (artes plásticas, cinema, teatro, música, bailado, literatura, exposições, concertos e tantas outras) são tratadas como a última prioridade de qualquer programa político, o que se lamenta em absoluto, porquanto um povo culto é um povo mais activo, mais empreendedor, mais criativo, mais livre.

Basta ver a quantidade de vezes que os jornais televisivos abordam questões culturais. Quase se podem contar com os dedos de uma só mão e, quando acontecem, são relegadas para os minutos finais do telejornal e emitidos muito a contragosto…

É claro que falar-se de cultura é, já de si, um achado, tão menosprezada anda pelos órgãos de comunicação social e pela população em geral, anestesiada por doses cavalares de telenovelas e de futebóis, que não sabe há quanto tempo viu um filme no cinema, que já não se lembra da última peça de teatro a que assistiu, e que nunca mais acaba de ler aquele pequeno livro que começou há mais de um ano.

Mas as estatísticas e o pensamento dos últimos anos vão no sentido de se concluir que a cultura não é, nos nossos dias, algo que funcione apenas como adereço, como coisa supérflua, como desperdício irrecuperável. A cultura é considerada, justamente, um investimento, que movimenta já milhões de euros e que tem retorno, embora mais lento que outras actividades, como é natural. As indústrias culturais na Europa, por exemplo, representam já maior impacto no produto interno bruto que a têxtil ou a indústria automóvel, por mais incrível que possa parecer.

É reconfortante saber que o investimento cultural começa a ser reconhecido, pelas autoridades, pelos agentes culturais e pelos agentes económicos. A cultura tem de constituir uma aposta estratégica, do Estado e das autarquias, porque é aquilo que, a par da educação, pode contribuir para tornar os povos mais livres, mais conscientes, mais evoluídos, mais felizes e mais humanos.

Até porque, ao contrário do que supõem os imensos pretensos e incultos pragmáticos, para quem a cultura não passa de um vastíssimo regabofe despesista e sem pingo de importância, está demonstrado que a cultura tem um forte peso na economia europeia. Em Portugal, o sector contribui com 1,4% do produto interno bruto, sendo o terceiro principal contribuinte para o PIB, a seguir aos produtos alimentares e bebidas. Por isso, deve passar a ser vista como uma prioridade para os governos dos países, e também para os responsáveis municipais. A cultura é para ser apoiada, dinamizada, subsidiada, porque é ela que eleva espiritualmente a humanidade. É a cultura que distingue os homens da animalidade. Os discursos contra a cultura, venham de onde vierem, não passam desse estádio de atraso e desse apego à barbárie...

Em suma, está, então, na hora de os políticos e os fazedores de opinião se consciencializarem da importância fundamental e do peso específico deste importante sector para a economia e para a qualidade de vida dos cidadãos.



E já não é sem tempo.

JOÃO, O ROMEIRO DESCONFIADO

HÉLDER BARROS
Na aldeia, nos finais do mês de abril, pela década de setenta, começava um frenesim muito particular, nestas terras de entre douro e minho. O povo que costumava fazer a peregrinação anual a Fátima num ritual que, muita gente de então, iniciava fazendo preparação para a mesma. Primeiro, tratava-se de arranjar alguém que desse apoio de carro, ou, preferencialmente, de carrinha, aos diferentes grupos e/ou famílias. Uma ou duas carrinhas, quase sempre as típicas Bedford de caixa fechada, muito difundidas na época, eram uma preciosa ajuda para o transporte de carga e mantimentos suficientes para a viajem e um conforto para o descanso dos peregrinos, embora alguns ficassem ao relento, em locais cobertos, particulares ou públicos, tais como aquedutos, estações de camionagem, estações de serviço e por baixo de pontes, arrecadações e alpendres agrícolas com permissão dos respetivos donos, entre outros.

Entre estes, havia o João da Nora que, foi sempre um homem bastante preguiçoso, mas com proporcional quantidade de curiosidade. O avô dele tinha sido um dos peregrinos que, em outubro de 1917 na Cova da Iria, assistiu ao alegado milagre do sol. João passou a infância a ouvir relatos do avô sobre essa epifania. Considerou sempre aquela história pouco credível, mas viveu igualmente com aquele sentimento ambivalente de, simplesmente não acreditar, mas ao mesmo tempo, com a esperança remota de que qualquer coisa de sobrenatural pudesse acontecer. Andou de ano para ano, desde adolescente, com esta preguiça enturpecedora que se misturava com uma curiosidade quase doentia de saber se acontecia em Fátima algo de paranormal. Ademais, como era muito avarento, andava sempre a tentar saber qual era o grupo que levaria mais alimentos e que reuniria melhores condições para uma peregrinação o mais confortável possível e que fosse para ele mais proveitosa, monetariamente falando em termos de custos. Claro que, já todos na aldeia o conheciam e como se tornava chato por alturas da peregrinação à Cova da Iria, pelo que fugiam quanto podiam dele.

Por alturas dos quarenta anos, João andava desanimado com a vida. Nunca tinha casado, nem sequer namorado, graças à sua fama de avarento, de chato, de coscuvilheiro e de tudo o mais que corria na aldeia acerca dele. Então, depois de muito cismar uma noite, decidiu que iria empreender a grande aventura, nesse ano, em 1967. Sim, João Romeiro, ia acabar de vez com a sua curiosidade, ainda mais que Paulo VI viria a Fátima nesse ano, a sua curiosidade de experiências com o Sagrado estava ao rubro. Para João algo ia acontecer em Fátima, uma epifania, um crime, qualquer coisa de especial. Acreditava piamente no que lhe tinham contado numa feira de gado há uns anos: um dos segredos de Fátima que a Irmã Lúcia guardava, passaria pela morte de um Papa em Fátima e que Deus como castigo, iria despoletar o fim do mundo através do fogo. Dizia João que quando foi com Noé, o Mundo acabou pela água, agora Deus mudaria de sistema e queimaria tudo pelo fogo. Deus faria da terra um autentico inferno, para redimir os pecados dos homens, que foram de tal forma que, nem o seu representante na terra, o Papa, foi respeitado pela maldade dos homens, que derivaram para comportamentos desviantes e costumes mais conformes com as intenções do Demo que, com as Leis de Deus...

Chegou a data da partida, os peregrinos da aldeia iam caminhar durante cerca de oito dias, por etapas de distância máxima de 40 Km por dia. Ia ser uma semana dura, que apelava a todas as forças humanas, físicas e psicológicas, daquelas pessoas que iriam empreender tão nobre jornada. O João, no primeiro dia até Paredes, lá para os lados de Baltar, ainda se foi aguentando, mas na segunda etapa até Vila Nova de Gaia foi o bom e o bonito. Ele, preguiçoso como era, não realizou a preparação prévia, umas caminhadas que o grupo ia fazendo aos fins do dia e aos domingos, para preparar o corpo para tão grande esforço. O homem só chorava de dores de pernas e dos pés, com bolhas e a sangrar, de tal forma que, com pena dele a tia Arminda do Olival Velho, se ofereceu para lhe aquecer água e tratar das feridas dos pés. Como ele muito se lamentava, deu-lhe uma malga de caldo verde e fez-lhe um chã para ele dormir melhor. Mas, os dias seguintes foram penosos, o João não aguentava as dores e tinha que parar muitas vezes. O grupo foi sempre solidário com ele, os homens mais fortes até o chegaram a levar às costas, em alguns troços de estrada mais penosos, principalmente nas subidas. De resto, ia sempre amparado por uns dos homens mais pujantes do grupo.

Dia 11 de maio de 1967, uma quinta feira cinzenta e a ameaçar chuva que já os tinha encharcado várias vezes pelo caminho, obrigando-os a embrulharem-se em plásticos, chega o grupo à Cova da Iria, Santuário de Fátima, totalmente invadido por peregrinos que eram originários de todos os lados do País e estrangeiro. João deitou-se no chão a chorar, os colegas ajoelharam-se, todos sentiram a enorme emoção do dever cumprido, choravam como crianças. Armando das Cortes, o mais experiente e líder deste grupo, abraçou-se a João e disse-lhe, repetidamente: “Vês Homem de Deus o que vale a Fé!!! Alguma vez te tinhas sentido assim, tão rico e tão pobre, tão alegre e tão triste, tão grande e tão pequeno; é isto a Fé, eis o milagre que já sentiste e que sentimos todos, uns de uma forma, outros de outra, mas jamais esqueceremos esta experiência individual e coletiva…” 

Claro está que, foram umas cerimónias espetaculares, ainda para mais coincidindo com a visita a Portugal do Papa Paulo VI e nas cerimónias dos cinquenta anos das aparições, tudo encantou João. Parecia-lhe que, naqueles dias, tinha vivido pela vida toda. De certa forma, encontrou o segredo da vida, pelo menos para si. O João mudou, a prova de solidariedade que o grupo lhe prestou, em circunstâncias tão difíceis, foi decisiva para libertar um homem que só vivia de intriga, de avareza, sem Fé em si próprio e em qualquer religião. Tratava-se de um homem vazio, pior que isso, um homem que não acrescentava nada a ninguém nas relações humanas, o seu verdadeiro desígnio era a inveja, esse sentimento ignóbil que assola a humanidade em grande escala. Entretanto, na peregrinação tornou-se próximo da Rita do Vale, uma solteirona da aldeia, boa rapariga e plena de virtudes. Casaram e tiveram gémeos, dois herdeiros cheios de saúde e de encanto, o verdadeiro orgulho daquele casal, outro milagre que os abençoou.

Em suma, numa peregrinação, assim como na vida em geral, não importa se somos católicos, budistas, islamitas, agnósticos, ateus… o que conta é aquele momento da chegada a um qualquer destino traçado, com uma intenção do Bem... uma descoberta interior, o Amor que sentimos e que podemos partilhar. Só faz sentido acreditar em projetos de Amor, não patrocinemos, crenças baseadas no ódio e da morte… isto tudo a propósito da recente vinda do Papa Francisco I a Fátima e do abominável ataque terrorista em Manchester...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A INDISCIPLINA E A FAMÍLIA

MÁRCIA PINTO
A indisciplina escolar infantil é um dos grandes desafios no universo escolar, tanto para alunos quanto para professores e família. Além de dificultar o processo de aprendizagem, esse tipo de comportamento afeta a construção das relações e deste modo tornar-se um pesadelo.

Assim, as causas para a indisciplina são inúmeras. Porém, antes de qualquer julgamento, é preciso avaliar todo o contexto em que a criança vive. Qual a realidade que a escola apresenta para esse estudante? Como é o ambiente familiar? De que forma ele lida com suas emoções? Qual o seu contexto social? Todos esses aspetos influenciam direta e indiretamente o comportamento dos alunos.

Em alguns casos agir com autoritarismo pode criar um ambiente desconfortável e desfavorável para a criança e levá-la a quebrar ainda mais regras. Estabelecer uma relação de respeito, que promova um processo de aprendizagem coeso e produtivo, no qual a criança e o adulto criem um vínculo de confiança e admiração mútuos, ajuda a minimizar os conflitos e a manter a harmonia entre os intervenientes.

Desta forma, a família deve estar atenta ao comportamento dos seus filhos. É importante conversar sobre o dia a dia escolar deles e identificar qualquer questão que os possa estar a preocupar. O lar deve ser um espaço acolhedor, em que a criança se sinta à vontade para manifestar os seus sentimentos e opiniões.

Neste sentido, é importante lembrar que a família é o exemplo principal para as crianças. Elas aprendem em primeiro lugar pelo exemplo. Portanto, desenvolvermos uma comunicação e relação pautadas pelo amor e pelo carinho favorece um comportamento semelhante nas crianças.

A família é a base da nossa vida, com ela aprendemos o que é ser ético, a respeitar a diferença de cada ser, os limites que nós temos e assim sermos capazes de viver em sociedade. Ela enche-nos de carinho e amor é o nosso porto seguro e de conforto que nos dá confiança para enfrentar qualquer problema que possa surgir.

Contudo, atualmente as famílias, estão mais ausentes por não haver tempo, o mundo de hoje exige muito de cada indivíduo, assim os pais deixam muitas vezes as suas casas para procurarem um mercado de trabalho para que deste modo possam dar mais conforto e sustentabilidade aos seus filhos. Isso contribui para que as crianças fiquem cada vez mais na companhia de outras pessoas como, amas, vizinhos, avós e em instituições responsáveis por essas atividades (creches e escolas).

Uma família onde o pai, a mãe e os filhos convivem diariamente é uma realidade cada vez mais rara, o que gera grandes conflitos na personalidade das nossas crianças. Os pais de hoje têm deixado a responsabilidade da educação das suas crianças para os professores e em muitos casos nem sequer participam na vida escolar dos filhos.

O mundo conturbado de hoje traz grandes desafios para educar os nossos filhos, mas isso não pode ser justificação para que nos desresponsabilizemos do nosso papel de pais e educadores. A parceria escola/família é fundamental para que as crianças cresçam e se desenvolvam de forma equilibrada de feliz.

NA MINHA ESCOLA HÁ LANCHES SAUDÁVEIS!

ELISABETE RIBEIRO
Ao longo dos tempos tem-se notado que os lanches dos alunos têm regredido na sua qualidade. Integrar um lanche escolar saudável é quase uma missão impossível quando têm como concorrência pacotes de bolachas atrativos, os pães de leite embalados e os pacotinhos de sumos de fruta adulterados com doses pouco recomendadas de açucares e afins. Aliado a isto o frenesim dos efeitos tresloucados dos despertadores a tocar, o banho rápido a tomar, o pequeno almoço a preparar, o tempo a passar... e falta o lanche. Não há tempo para comprar pão e fazer uma sandes. Vai mesmo um pacote de qualquer coisa!

Muito práticos e apelativos são um grande entrave à aplicação do lanche saudável na alimentação infantil.
É difícil para a família unir o prático à qualidade e é difícil a criança aceitar o que se escolheu. Muitas vezes o prático não é o mais saudável, mas é o que a criança mais aprecia. Esses alimentos passam a
ser consumidos com mais frequência e, por consequência, a obesidade infantil é assustadora.

Há escolas que encontraram uma forma de minimizar esta problemática.
Em articulação com as autarquias e os Encarregados de Educação o serviço de “lanche saudável” (variado, diário e igual para todos), foi aceite em alguns estabelecimentos de ensino (incluindo a escola onde leciono). Deste modo, as crianças alimentam-se de forma equilibrada, com valores nutricionais adequados, que garante a energia necessária, desenvolve a sua capacidade de concentração e melhora o seu desenvolvimento integral.

Os lanches saudáveis deveriam vir de casa. Mas, face à epidemia praga do fast food, julgo que a escola é o local onde melhor se radica estes bons hábitos alimentares. Hábito este que deveria ser implementado em todas as escolas do país.

terça-feira, 23 de maio de 2017

CONSULTÓRIO DE FILOSOFIA

REGINA SARDOEIRA
Antes de ousar abrir o meu consultório de Filosofia, posso sempre treinar, usando esta via. Nem sequer preciso de sair do meu espaço para chegar aos outros, basta que eles venham e se apresentem: e assim, poderei estar por detrás de uma porta, aguardando os que desejam conhecer-se. A fechadura estará lá, decerto; mas não serei eu a espreitar por entre as teias de aranha e a caliça, uma vez que a porta é de cada um que arrisca sondar-se até ao âmago.

A porta carcomida e a fechadura são símbolos de existências em derrapagem e contudo abertas num remoto local que terá que ser descoberto, primeiro, admitido como abertura, depois e, por fim desvendado pelo olhar, tornado acutilante, capaz de ver e perceber as gradações vitais do outro lado. Eis a tarefa do Filósofo/a, eis a definição actuante da Filosofia, esta que é amor pela sabedoria, mas também amor pela vida : e eis a Filóbia, palavra que ainda não existe nos dicionários mas que inventei há anos para dar sentido ao meu ser filósofa.

Penso que o vulgo – e quando utilizo a palavra vulgo, não estou a ser pejorativa, mas a referir-me à esmagadora maioria das pessoas, incluindo os cultos, incluindo os sábios, incluindo os licenciados em Filosofia (…) – não compreende o significado da palavra sabedoria neste contexto que é o da σοφία (sophia) ou da φρόνησις (phronesis), a sabedoria prática, a sabedoria ética, a prudência, a virtude. Estes últimos termos – prudência, virtude – foram desfigurados pela religião católica que deles se apropriou no sentido de os referir às suas práticas. E no entanto, a prudência e a virtude são os ingredientes da phronesis aristotélica, são as qualidades que o indivíduo precisa de cultivar acima de tudo se quer viver bem, se quer actuar correctamente.

Um consultório de Filosofia ou talvez um laboratório – pois, neste contexto, «mestre» e «discípulo» interactuam, sendo, assim, esse lugar um palco fértil de interacções – não se substitui aos consultórios de Psicologia ou de Psiquiatria ou de práticas esotéricas, quaisquer que sejam. Vale por si, representa a primeira etapa para o auto-conhecimento, para a descoberta do fio condutor existencial daquele que se investiga a si mesmo com a ajuda sábia do filósofo. Sábia, esclareço, sempre no sentido grego, de procura, de sondagem, equiparada à arte da maiêutica levada a cabo pelo filósofo Sócrates, arte de fazer parir a verdade, essa que ilumina o fundo do ser e deve ser parturejada a fim de servir também de farol à superfície e logo ao mundo circundante. Essa primeira etapa de que falo pode bem ser a última, se a mente do auto-investigador aderir ao esvaziamento inicial e ao preenchimento ulterior; porém, caso as investidas do filósofo/a não encontrarem receptividade, caso a mente daquele que a si próprio sonda interrompa a caminhada, pode passar para outras instâncias – as da Psicologia, as da Psiquiatria – que, em sintonia com a primeira sondagem, orientarão as demais.

É deste modo que eu vejo a função do Filósofo/a e o papel dos consultórios ou laboratórios de Filosofia, em interacção dialogante com os demais sectores de investigação da mente, avesso a medicações químicas, ou a processos morosos de análise unilateral, mas suficientemente esclarecido para determinar quando termina o seu papel, ou quando deve passar para outros a tarefa.

Fala-se, a propósito, em «demissão interventiva dos licenciados em filosofia e dos filósofos» porque essa classe é observada, invariavelmente, confinada a uma sala de aula, onde os manuais ou as sebentas pontificam. Eu própria fui aviltada com aulas de filosofia em que me mandavam «papaguear» pensamentos de filósofos ou «despejar» matérias decoradas em provas, de onde o pensamento original, discursivo, dialéctico teria que ser cuidadosamente retirado. Se não me tornei "papagaio filosófico" foi na exacta medida em que resisti, não me deixei encharcar por teorias, não aderi à memorização abstracta e descontextualizada de pensamentos, tornei-os meus, inventei-os e reinventei-os, e tudo o que havia para aprender – pois tratava-se do pensamento de outros – aprendi-o, exclusivamente, à minha própria custa. Hesitei muito antes de tornar-me licenciada em filosofia, pois percebi que essa licenciatura nada significava, filosoficamente falando, representando apenas um papel meramente académico e logo burocrático; por fim, cedi à pressão familiar, obtive o diploma mas – desta vez sem hesitações – optei por não o utilizar nas funções tidas como óbvias para o licenciado em Filosofia, recusei o ensino e fi-lo enquanto me não senti ainda mais desfigurada noutras profissões que, tarde ou cedo, vim a adoptar.

O ensino veio depois e ficou pois entendi, gradualmente, que as salas de aula podem ser excelentes laboratórios de Filosofia, desde que o professor consiga distanciar-se do manual, puxar pela mente do jovem até aos limites, envolver-se com ele numa luta mente a mente, arrancando-o ao comodismo do senso-comum e dos preconceitos. Venço parcialmente essa luta na medida em que o combate é desigual: estou eu, de um lado e 30, do outro – 30 predadores da verdade, 30 amordaçados ao conforto das opiniões colhidas nos media e na sociedade em geral, 30 mentes desatentas a si próprias e cada vez mais aturdidas pela parafernália tecnológica que lhes substitui o ser. Mas esse ganho parcial, essas vitórias que vou conseguindo quando, de entre a turba flutuante, um, dois, três apreendem o sentido do que deles espero, enquanto aprendizes do filosofar, ensina-me quotidianamente o caminho, faz-me, cada vez, mais réproba relativamente às fórmulas decoradas, que se esvaem logo que não temos necessidade de pô-las em prática e, em simultâneo, cada vez mais aberta ao culto da Filóbia.

Deste modo, respondo parcialmente à questão entre todas difícil de responder com acerto: O que é um filósofo/a?

Ignoro se chegarei algum dia a abrir um consultório/laboratório de Filosofia. De certo modo aboli essa hipótese quando a ficcionei em O Pulo do Lobo (Editora Pé de Página, 2006), para, quase de imediato, a destruir, não porque fosse absurda, mas porque o Filósofo da minha história sofreu a desilusão, por força dos que não lhe entenderam os desígnios. Ou talvez eu esteja à espera do companheiro/a capaz de se abalançar comigo a empreender semelhante tarefa! E certamente acontecer-me-á o mesmo que em tempos abalou Friedrich Nietzsche até ao cerne, esta busca de espaços para filosofar e de companheiros de eleição capazes de reinventarem o espírito da douta-sabedoria de Sócrates.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

VIAGEM DA FELICIDADE (PARTE I)

RITA TEIXEIRA
Hoje peguei na natureza e apanhei o comboio com destino à felicidade. Num apeadeiro, entrou a simplicidade e sentou-se a meu lado. Assim que abriu a bolsa, que trazia a tiracolo, e soltaram-se beijinhos que perfumaram o ar da carruagem. Seguimos a viagem. Num outro apeadeiro, entrou a alegria e começou a algazarra. Tudo era uma diversão. Ao chegar à primeira estação, refreamos a nossa brincadeira, para não afastar nenhum passageiro. Entraram a ignorância e o egoísmo e sentaram se à minha frente. Voltamos à brincadeira. Só que estes dois passageiros não se sentiram à vontade e mudaram para outra carruagem. Não paramos nos dois apeadeiros seguintes e, quando paramos no outro apeadeiro, a coragem e a fé entraram e prosseguimos a viagem a sentir que a felicidade estava próxima. Na segunda estação, entraram a amizade, a paz e o amor que se contagiaram com a nossa euforia! Na penúltima estação, a inveja, a exibição e a futilidade estavam na fila para subirem para a nossa carruagem, mas viram a grandeza do coração e retiraram-se logo. Assim, chegamos ao nosso destino, a felicidade! Quando unimos os valores da boa educação que recebemos da família, não há nada que lhe pegue!!

FALEMOS DA DEPRESSÃO

Nunca despreze as pessoas deprimidas.
A depressão é o último estágio da dor humana.
Augusto Cury


ELISABETE CERQUEIRA
A depressão é, atualmente, a principal causa de doença e incapacidade a nível global. O alerta foi emitido recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que, para assinalar o Dia Mundial da Saúde, decidiu centrar todas as atenções na depressão. Segundo a mesma fonte, até 2020, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo.

Descrita pela primeira vez no início do século 20, a depressão ainda hoje é confundida com tristeza, desmotivação,…sentimentos comuns a todas as pessoas em algum momento da vida. A tristeza é uma reação normal às situações de vida, tais como lutas, zangas, perdas, derrotas e decepções, são motivos para deixar alguém triste, cabisbaixo, mas isso não significa que a pessoa esteja com depressão, certamente que vai ultrapassar a situação e vai sentir-se melhor…

Ela chega de mansinho, assim como quem não quer nada. Num dia, acorda triste, desanimado… no outro, uma vontade incontrolável de chorar, sem qualquer motivo aparente, mas quando o vazio e o desespero tomam conta do seu dia-a-dia, tornando-se permanente, afetando-lhe a motivação e o sentido da vida, pode ser depressão. Mais do que apenas o humor diminuído, os pontos baixos da depressão podem afetar-lhe a sua funcionalidade e deixar de ter prazer na vida. Deixa de se interessar pelos amigos, família, lazer, hoobies, trabalho, saúde, você sente-se esgotado o tempo todo…só aguentar o passar do dia pode ser avassalador. A depressão é assim, um mal silencioso e ainda mal compreendido.

Considerada um transtorno mental ou uma doença psiquiátrica, a depressão é caracterizada pela tristeza constante e outros sintomas negativos que anulam e incapacitam o dia-a-dia do indivíduo, interferindo com a sua capacidade de trabalhar, estudar, comer, dormir e divertir-se. Falar em depressão é muito mais do que falar em melancolia, é falar em tristeza aliada a apatia, é falar num estado com consequências que podem ser fatais…estima-se que a cada 40 segundos se comete um suicídio no mundo.

Os sentimentos de desamparo, desesperança, inutilidade são intensos e implacáveis, com pouco ou nenhuma alívio. A depressão tornou-se tão presente nas últimos décadas, porque as situações de incerteza também são maiores do que eram no passado, quanto maior é a situação de insegurança, de incerteza, de stress, em que vivemos, maior são os estados emocionais em que nos encontramos. Não há dúvidas de que há pessoas mais vulneráveis do que outras e que há motivos genéticos que levam as pessoas a ficarem deprimidas com mais facilidade. Há uma interação entre aquilo que as pessoas são do ponto de vista genético e biológico e a pressão ambiental, mas o que mudou nos últimos anos não foram os genes…o que mudou nos últimos anos foi a nossa qualidade de vida…aumentou o stress, a incerteza, o medo...

Existem sinais e sintomas que nos podem indicar que estamos perante uma depressão, são eles:
• Humor depressivo ou irritabilidade, ansiedade e angústia
• Desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas
• Diminuição ou incapacidade de sentir alegria e prazer em atividades anteriormente consideradas agradáveis
• Desinteresse, falta de motivação e apatia
• Falta de vontade e indecisão
• Sentimentos de medo, insegurança, desesperança, desespero, desamparo e vazio
• Pessimismo, ideias frequentes e desproporcionais de culpa, baixa autoestima, sensação de falta de sentido na vida, inutilidade, ruína, fracasso, doença ou morte.
• A pessoa pode desejar morrer, planeia uma forma de morrer ou tentar suicídio
• Interpretação distorcida e negativa da realidade: tudo é visto sob a ótica depressiva, um tom "cinzento" para si, os outros e o seu mundo
• Dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e esquecimento
• Diminuição do desempenho sexual (pode até manter atividade sexual, mas sem a conotação prazerosa habitual) e da libido
• Perda ou aumento do apetite e do peso
• Insónia (dificuldade de conciliar o sono, múltiplos despertares ou sensação de sono muito superficial), despertar matinal precoce ou, menos frequentemente, aumento do sono (dorme demais e mesmo assim fica com sono a maior parte do tempo)
• Dores e outros sintomas físicos não justificados por problemas médicos, como dores de barriga, má digestão, azia, diarreia, constipação, flatulência, tensão na nuca e nos ombros, dor de cabeça ou no corpo, sensação de corpo pesado ou de pressão no peito, entre outros.
Existem também causas e fatores de risco para desencadear uma depressão, são eles:
• Solidão
• Falta de apoio social
• Recentes experiências de vida stressantes
• História familiar de depressão
• Problemas de relacionamento ou conjugal
• Tensão financeira
• Trauma ou abuso de infância
• Uso de álcool ou drogas
• Situação de desemprego ou o subemprego
• Problemas de saúde ou de dor crónica
Compreender a causa subjacente à depressão pode ajudá-lo a superar o problema. Qualquer um pode experimentar algum tipo de depressão, por algum motivo. É uma condição e situação que afeta pessoas de todos os tipos, de todas as raças, sexos e situação socioeconómica.
Mudanças de estilo de vida saudável nem sempre são fáceis de fazer, mas eles podem ter um grande impacto sobre a depressão. Algumas mudanças que podem ser muito eficazes incluem:
• Cultivar relacionamentos de apoio
• Fazer exercícios regulares
• Regular o sono
• Alimentar-se saudavelmente para impulsionar naturalmente o humor:
• Gerir o stress
• Praticar técnicas de relaxamento
• Desafiar padrões de pensamentos negativos
• Promover a saúde

Somos uma sociedade de pessoas com notória infelicidade, solidão, ansiedade, depressão, destruição, dependência.
Pessoas que ficam felizes quando matam o tempo que foi tão difícil conquistar.
Erich Fromm

COMO ESCOLHER OS PRODUTOS DE HIGIENE ORAL MAIS ADEQUADOS PARA MIM? (PARTE III – FIO/FITA DENTÁRIA E ESCOVILHÃO INTERDENTÁRIO)

INÊS MAGALHÃES
Como já referido em textos anteriores, a higiene oral é a ação básica para uma boa saúde oral. Dela fazem parte a escova, a pasta dentífrica e como complemento o fio/fita dentária /escovilhão interdentário e, eventualmente um elixir/colutório.

No que diz respeito ao fio/fita dentária, tal como o próprio nome o indica, são diferentes.

Ambos servem para remover os restos de comida e placa bacteriana que se alojam entre os dentes, ou seja, no ponto de contacto (local em que dois dentes adjacentes se juntam) e que a escova não consegue higienizar.

Contudo, o fio pode ser de Nylon (ou multifilamentar) ou de PTFE (monofilamentar). O fio de Nylon está disponível com cera ou sem cera e em vários sabores. Porque este tipo de fio é composto por várias fiadas de Nylon, por vezes, pode partir, especialmente entre os dentes com pontos de contacto muito estreitos. Apesar de serem mais caros, os fios monofilamentados (PTFE) deslizam facilmente entre os dentes, até mesmo, entre pontos de contacto muito estreitos e são bastante resistentes. Quando usados corretamente, ambos os tipos de fio são excelentes para remover a placa bacteriana e restos alimentares.

Em relação à Fita Dentária, ela é constituída por uma fibra suave e macia, revestida com um tratamento à base de cera, o que facilita um deslizar suave entre os dentes, sem esforço, mesmo nos locais mais estreitos.

Como usar? Deve retirar da embalagem cerca de 40/50cm de fio/fita e enrolar no dedo médio de uma mão a maior parte dele, o restante no dedo médio da outra mão; com a ajuda dos polegares deve retirar os restos de alimentos dos dentes de cima e com a ajuda dos indicadores retirar dos dentes inferiores. Deve ter sempre o cuidado de não ferir as gengivas.

Para pessoas com mais dificuldade no seu uso (ex. crianças), existem ainda os passadores de fio dentário, que facilitam imenso a passagem do fio pelos espaços interdentários.

No que diz respeito ao escovilhão interdentário, este é mais prático para quem tem espaços maiores entre os dentes mas não consegue higienizar o ponto de contacto entre eles apenas com a escova. Quem é portador de aparelho ortodôntico, quem tem implantes ou pontes também deve usar o escovilhão. Estes também têm diferentes formas e tamanhos para se adequarem corretamente ao espaço a higienizar.

Com tanta variedade, como escolho o mais adequado para mim?

Pode sempre fazê-lo experimentado os diferentes produtos e ver com qual se adapta melhor, ou procurar ajuda de um profissional de saúde oral para o auxiliar na escolha.

Não esqueça! A higienização diária dos espaços interdentários onde a escova não chega é fundamental para a remoção dos resíduos dentários que, por ação das bactérias patogénicas, podem facilitar o aparecimento de cárie dentária e doença gengival.

domingo, 21 de maio de 2017

DE QUE VALE O SILÊNCIO SE NINGUÉM O ESCUTA?

MIGUEL GOMES
Seria, provavelmente, capaz de partir a pé por esses caminhos fora. Não é à toa que vagabundo rima com mundo. 

Acabo por cobiçar o sorriso desligado da alegria que vejo nalgumas faces, cobertas por barba, em corpos que não se inibem em deitar num banco de uma estação de comboios. 

Indiferentes ou talvez não, ao lixo acumulado na linha, nas metades de tonéis que nunca o ambicionaram, mas são agora recipientes onde descansam em paz acalorada várias garrafas de plástico de líquidos que são caras formas de se beber má água.

O átrio da estação está vazio. 

O calor convida a uma estada prolongada num velho banco de madeira. 

A poltrona amarelada olha de soslaio. 

Coitada, não percebe que aquele tecido empoeirado não convida a que alguém, mais ou menos incauto, se sente ali. As horas passam devagar quando olhamos para o relógio, antigo, a olhar com cadência do alto da coluna de madeira. Basta desviarmos o olhar para ele desatar a correr de ponteiro em ponteiro, este tempo atribulado. A vida há muito saiu dali. 

Os azulejos que ornamentam o edifício escorrem saudade. 

Acaricio a face de alguns dos trabalhadores e trabalhadoras retratados. 

Algumas aves fizeram o favor de ornamentar os azulejos, mas isso não me inibe de afagar o dorso de um touro, calculo que esteja cansado, mas afinal parece ser apenas solidão. É normal. 

Outrora vibrante, a estação resume-se a um só funcionário, escondido numa redoma, rodeado de um ecrã, teclas, papeis, códigos QR. 

Longe vai o tempo de o senhor com o balde e a pinça de metal na mão, a apanhar o pouco lixo que existia. Agora tudo parece ter lixo, restolhos mal cheirosos. 

Até as pessoas mudaram, outrora pessoas bem cheirosas, em corpos mal cheirosos, agora pessoas mal cheirosas, em corpos bem cheirosos.

Tudo muda. 

Até o silêncio, que parece ter descido sobre vários apeadeiros, despindo-os de telhados, partido vidraças, apodrecido vigas de madeira em profunda raiva pelo que de mal nós lhe fizemos. 

De que vale o silêncio se ninguém o escuta? 

Vou percorrendo o caminho com o olhar no trilho, claqueio mentalmente o som das rodas sobre os carris. Dói, não sei bem o quê e por isso tão difícil se torna diagnosticar, mas dói sempre e cada vez mais ao observar o abandono de tudo o que foi. 

Acredito que as memórias perduram e resistem abandonadas apenas para que possamos sentir que, de facto, quando ao futuro chegarmos vermos que o que deixamos abandonado encerra a parte de nós que não deveríamos ter esquecido, o reflexo da nossa face na superfície da vida.

SOMOS UM PAÍS DE CONTRASTES…

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
E mais uma vez se verificou que, na nossa pequenez geográfica e populacional, somos um país de contrastes.

Vejamos: há cerca de cinquenta anos que Portugal participa no Festival da Eurovisão, sendo que nos últimos anos devido aos critérios de seleção, ficamos excluídos algumas vezes. Este ano Portugal,com uma canção de uma singeleza e doçura emocionantes chegou, encantou e venceu!

Admito, os meus tempos de esperar ansiosamente pelo Festival da Canção, já ficou bem lá atrás, de forma que nos últimos anos tem-me passado completamente ao lado. Por norma não aprecio o tipo de música nem todo o aparato que se gera à sua volta, muito menos verificar que nem sempre a melhor canção tem sido a vencedora, mostrando que por “de trás do pano” existe um jogo de interesses.

Este ano os irmãos Sobral fizeram a diferença… em tudo! Música com sentimento dentro, postura de uma simplicidade tocante, nenhum efeito especial a não ser a música, pura e simples. Salvador Sobral apenas com a sua voz, um jovem interprete que sempre se apresentou com um sorriso humilde, que a mim tocou profundamente.

Mas aqui chegamos ao contraste! Se não se consegue criticar a música, até porque desde a primeira eliminatória chamou a atenção da Europa, critica-se o seu intérprete! Foram as roupas, o cabelo, os tiques, a própria voz, enfim… Oh gente de Portugal definam-se, mas principalmente humanizem-se!

Mais importante que a “embalagem” é o interior das pessoas, e essa esteve bem patente na humildade que Salvador sempre apresentou. No sorriso genuíno, no olhar direto, na simpatia e simplicidade das palavras, presente em todas as vezes que se dirigiu ao público.

Isso sim é importante! O resto? O resto, muitas das vezes não passam de meros pormenores…E o caso de Salvador Sobral não é exceção. A imagem nem sempre é importante, principalmente quando por detrás da mesma, estão pessoas e causas para se apresentarem de uma determinada maneira!

Por trás de uma imagem, existe uma pessoa, é esse o pormenor importante. E neste caso concreto, esta pessoa levou Portugal a, pela primeira vez em cerca de cinquenta anos, sermos vencedores. Parabéns Salvador! Parabéns irmãos Sobral!