sábado, 23 de setembro de 2017

UM PAÍS DE VANGUARDA

(Primeira parte)

JORGE NUNO
Senti um genuíno interesse na leitura de “Conquistadores – Como Portugal Criou o Primeiro Império Global”, de Roger Crowley. Este autor, que escreveu diversas obras de história, também nesta procurou avidamente o rigor, sendo inevitável que teve, para tal, de efetuar uma vasta investigação, baseada numa imensidão de documentos da época e traduções existentes. Inicialmente, não dá mostras de pretender enaltecer as qualidades dos portugueses, enquanto povo de vocação marítima, pois retrata muitas das suas fraquezas, ocultadas nos livros convencionais da história de Portugal. No entanto, acaba por relatar “como uma das nações mais pequenas e pobres da Europa pôs em movimento as forças da globalização que hoje dão forma ao mundo” e viveu a sua época de ouro no século XVI, temida (pelo poder dos canhões da artilharia marítima), respeitada (pela ousadia e também pela oportunidade de comércio) e odiada (tanto pelos muçulmanos, face à obstinada cruzada para “o extermínio do islão e propagação da cristandade sob um monarca universal[1]”, e por todos aqueles que perdiam direitos e influência, à medida que as naus portuguesas iam avançando rumo à expansão territorial e comercial). As iniciativas do rei D. Manuel I – que viria a assumir o título de “rei de Portugal e dos Algarves, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia” – tiveram a bênção papal, com direito à “posse perpétua das terras conquistadas aos infiéis, onde outros reis cristãos não tivessem reivindicações”.

É certo que naquela época houve um enorme esforço na construção de naus, canhões de bronze e outro armamento, angariação de tripulação e preparação das viagens, mesmo fazendo uso do ouro da Guiné e dos bens de judeus expulsos. Essas viagens realizavam-se em condições difíceis: elevado risco; desconhecido; hostilidades encontradas; insuficiente provisão de água doce e falta de lugares para abastecer; falta de géneros alimentares frescos e, principalmente, de citrinos, que tanto dizimaram tripulações. Mas com as boas notícias trazidas da Índia, no regresso de Vasco da Gama (mesmo que a viagem ficasse ensombrada pela perda de dois terços da tripulação), também houve um excelente trabalho na ocultação de segredos – obtidos com muito sangue, suor e lágrimas – e na divulgação dos êxitos, que chegaram aos pontos estratégicos da Europa e, em particular, Veneza, Génova e Florença, que detinham o monopólio do comércio de especiarias (vindas por terra, até ao Egito).

No final daquele reinado, ao nível de imagem exterior, Portugal estaria no auge, muito favorecido pelo comércio florescente, que seria fruto de um “projeto, simultaneamente, imperial, religioso e económico”. Tal, foi sustentado pela influência dos padres, monges e cavaleiros da Ordem de Cristo e dos astrólogos reais, mas acima de tudo pela obstinação de um monarca que, tendo herdado a coroa do primo – D. João II – acreditava “num destino messiânico” e predestinado a estes feitos. Arrogando-se “ter herdado o manto do seu tio-avô – o Infante D. Henrique, ‘O Navegador’ –, invocou obediência à sua missão divina” para prosseguir, perante a oposição da nobreza. Agora, seria um país ainda mais forte do que o de D. João II, anterior monarca que teve o arrojo de discutir e fazer aprovar o tratado de Tordesilhas, com os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel I, “regateando a posse do mundo”, que dividido em dois seria pertença de Portugal e de Espanha, mais uma vez com a bula papal.

Entre imensos factos surpreendentes, realça-se a iniciativa e o secretismo de D. Manuel I no envio de emissários “a Henrique VII, em Inglaterra, ao rei Fernando de Aragão, em Espanha, a Júlio II [papa], a Luís XII, em França, a Maximiliano I, sacro imperador romano, convidando-os a participar numa cruzada naval pelo Mediterrâneo até à Terra Santa”, mas em que houve falta da resposta esperada. No entanto, D. Manuel I manteve firme a ideia de “destruição do bloco islâmico”, rotulado de “infiéis”. Em julho de 1505, “o papa concedeu a D. Manuel I um imposto de cruzada que poderia ser cobrado durante dois anos e remissão de todos os pecados para quem nele participasse”. Convenhamos, seria reconfortante e uma atenuante para quem participasse nestes ferozes combates, saber que todo o mal causado a outrem ficaria livre da condenação divina.

(Continua...)
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[1] Uma xilogravura de 1514 mostra-nos o rei D. Manuel I no trono, tendo à sua direita e esquerda, respetivamente, as armas do reino e a esfera armilar e, ligado ao ceptro real, uma fita com “DEO IN CELO TIBI AVTEN IN MVNDO” (A Deus no Céu e a Ti na Terra), o que faria a “ligação entre o terreno e o divino, perspetivando-o como um soberano universal a “aspirar ao título de imperador de um reino messiânico cristão”.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A PERDA DOS NOSSOS ÍDOLOS

RUI DE LEÓN
Como músico, e como fã incondicional da música, posso com orgulho afirmar que os anos 90, foram para mim, a época de ouro, uma vez que ouvi, cresci com as tendências rock/grunge que fervilhavam na altura. Bandas de Seatle como os Nirvana, Soundgarden, Pearl Jam , numa "onda" mais funk, rock-alternativo e punk os Red Hot Chili Peppers entre outros grandes artistas marcavam a história da música.

Porém , por influência familiar, sempre tive um "background" musical mais amplo que percorre Leonard Cohen, Frank Sinatra, Rolling Stones, The Beatles, Louis Armstrong , Led Zeppelin entre tantos outros. No panorama nacional na altura, gritavam os Ornatos Violeta, os Silence 4 e os Moonspell. 

Apesar deste "cocktail musical" sempre me identifiquei mais com o rock/grunge , que posteriormente, teve um papel fulcral enquanto músico. 


Toda esta descrição que apresentei serve para abrir a porta ao tema que realmente quero abordar. A perda dos nossos ídolos, e como isso afecta o panorama da música actual.

De 2015 a 2017, foram anos desoladores quanto à partida, entre muitos, precoce de diversos ícones de vários géneros musicais. Aqueles que para muitos marcaram a sua geração, partiram e deixaram um vazio não só a nível musical mas também na forma como influenciaram as suas vidas com histórias controversas, estilos de vida e muitos pela ação social e de intervenção que exerceram.


Hoje em dia, embora com maior facilidade para gravar um álbum e distribui-lo digitalmente, tendo cada vez mais artistas, é por outro lado mais difícil se destacar por entre tamanha massa de novos talentos. E no meio de outras conjunturas, aquilo que me apercebo, e acaba por ser mais uma opinião pessoal do que um facto, os maiores meios de difusão de música parecem ter um espectro mais estreito, um género musical comum, que roçam o kizomba e os ritmos latinos. Parece assim haver menos margem de manobra para a continuação do legado daqueles que já partiram. 


Como exemplos temos o legado de Scott Weiland, vocalista e compositor Norte-Americano ex-vocalista dos Velvet Revolver, ficou mundialmente conhecido com os Stone Temple Pilots. A forma controversa como Weiland lidava com o mundo do espetáculo e a forma singular como se apresentava em palco marcaram uma geração e deixaram o seu nome gravado no mundo rock/grunge com a explosão do som de Seatle. Foi encontrado sem vida no autocarro da tour que realizava nos EUA em Dezembro de 2015.


Outra grande referencia de rock/grunge que perdeu a vida em Maio de 2017 foi Chris Cornell ,um dos grandes impulsionadores do movimento grunge de Seatle nos anos 90. 


Fez parte dos Soundgarden, Temple of a Dog (juntamente com Eddie Vedder) e Audioslave. Para mim, sempre foi um ídolo, talvez uma das maiores referências vocais e sem dúvida uma das maiores influências no meu trabalho. Foi com choque que o mundo da música recebeu a notícia da sua partida prematura. 

Segue-se Chester Bennington, vocalista dos famosos Linkin Park (rock alternativo, rap rock, rock eletrónico). Perdeu a vida a em Julho de 2017. Bennington ainda deu voz aos Stone Temple Pilots, continuando o legado deixado por Weiland. 


Dentro de outros géneros musicais presenciamos a partida de Leonard Cohen, autor de Im your Man e Hallelujah, aos 82 anos. Deixa-nos uma invejável carreira tanto como cantor como compositor. 


Outro gigante da música, George Michael faleceu em Dezembro de 2016. Para muitos a cara dos Wham com a música Last Christmas, marcou uma geração com os seus êxitos musicais e com uma vida controversa. Deixou uma legião maciça de fãs destroçados .


Não poderia deixar de falar do grande "camaleão dos palcos" , o grande David Bowie. Um artista sem precedentes, com uma discografia tão diversa e rica que marcou gerações de forma tão intensa e impregnada. Deixou o mundo perplexo e em choque em Janeiro de 2016 quando foi confirmada a sua morte , dias após o lançamento do seu último trabalho "Blackstar" 


Todos estes artistas, com estilos distintos, personalidades fortes e detentores de um enorme talento, deixaram a sua marca de inúmeras formas, tocando as mentes e corações de gerações. 


Gerações estas que, embora em crescimento exponencial na música, não parecem continuar uma história começada por estas Estrelas. 

O mundo da música está mais pobre e, claro , a lei da vida é certa, e muitos dos nossos ídolos partirão. Cabe a nós mantermos a chama bem acesa e não deitar por terra o que anos atrás começaram. 

O rock , rock/grunge marcou toda uma geração e transportou-nos tantas vezes para lugares que nuca visitamos, ajudou-nos a atravessar períodos conturbados e marcou para sempre a história da música. 


Assim termino esta crónica, "puxando a brasa à minha sardinha" e apenas dizer "long live the grunge".

O ESTATUTO JURÍDICO DOS ANIMAIS – O QUE FAZER PERANTE O ABANDONO?

ANA LEITE
Perante o hipótese de encontrar animais abandonados, surge sempre a questão de como agir, o que fazer e qual o nosso dever em ajudar aquele animal.

De facto, com a aprovação da Lei 8/2017 – Estatuto Jurídico dos Animais -, os animais deixam de ser coisas, passando agora a ser reconhecidos “como seres vivos dotados de sensibilidade e objeto de proteção jurídica”. Como tal, a nova lei refere que “o proprietário de um animal deve assegurar o seu bem estar e respeitar as características de cada espécie e observar, no exercício dos seus direitos, as disposições especiais relativas à criação, reprodução, detenção e proteção dos animais e à salvaguarda de espécies em risco, sempre que exigíveis .” No caso de o “proprietário” do animal não conseguir assegurar estas questões, a lei considera que o mesmo está a incorrer numa infração.

Assim, na possibilidade de “apanhar” alguém a cometer um crime de abandono de animais, devemos angariar o máximo de provas para poder denunciar o referido crime. Apesar de se tratar de um crime público, para abrir o respetivo procedimento criminal, é necessário haver conhecimento da existência do crime. Facto que muitas vezes impede de se fazer a devida investigação, e assim poder aplicar a consequência jurídica ao agente do crime. O atual código penal não deixa dúvidas, quando estabelece no seu artigo 388.º que : “Quem, tendo o dever de guardar, vigiar ou assistir animal de companhia, o abandonar, pondo desse modo em perigo a sua alimentação e a prestação de cuidados que lhe são devidos, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias.” Desta forma, deverá procurar reunir o máximo de provas – testemunhal ou documental, como fotografias do acontecimento. O denunciante não paga nenhuma taxa ou sobre ele não recaí nenhuma represália, podendo vir a participar no processo apenas como testemunha do crime que presenciou.

Porém, na possibilidade de encontrar algum animal, e depois de tentar perceber se o animal estará perdido ou abandonado, chegar à conclusão que o mesmo está abandonado, existem diversos procedimentos que poderá adotar, como por exemplo, contactar uma associação de animais ou um canil municipal, ou poderá sempre tentar encontrar alguém que faça uma adoção responsável.

Devemos todos lembrar-nos que o abandono de animais é crime. E se é crime temos todos que denunciar, para haver a devida investigação e a consequente acusação e punição.

AMBIVALÊNCIA SENTIMENTAL

GABRIELA CARVALHO
A difícil tarefa de ver os filhos crescer... Oh sentimento complicado este!!!

Quando são pequenos e choram, pedimos para que cresçam e se expressem de forma a que entendamos o que nos querem dizer... mas quando efectivamente crescem... como é tão bom, tão bonito e, simultaneamente tão difícil vê-los crescer!

A pequena com os seus 3 anos lá entrou para o jardim de infância. MUITO ORGULHOSOS seguimos com ela até à escolinha, mas sempre com o coração apertado de medos, de incertezas, de dúvidas...

Entramos e logo percebemos que, a pequena estava «mais feliz do que nós»! Bolas, apesar de sabermos a importância da entrada para o jardim de infância, apesar de confiarmos naquele jardim de infância, apesar de termos a lição bem estudada de que "está na idade"; é o nosso ser minúsculo que segue ali, de mochila às costas! E como cresceu...!!! Nesse momento o estômago contrai, os olhos enchem-se de lágrimas que com muita dificuldade controlamos e percebemos que a mudança está presente

Pedimos-lhe que siga os seus sonhos, mas se possível que estejamos por perto os acompanhar; pedimos-lhe que cresça, na medida em que os nossos braços continuem a poder abraçá-la e que o nosso colo continue a ser o «único» com a medida certa; pedimos-lhe que seja feliz, garantindo que tudo faremos para que assim seja...

Mas, é de facto difícil, ver os filhos crescer...

Com o brilho da felicidade e de todos os medos possíveis e mais alguns, disse-lhe que já íamos embora. Ela ficou e olhou-nos com aquela vontade de abraçar o mundo e de viver cada segundo intensamente, que tanto a caracteriza. E nesse olhar fugaz a professora pergunta se não quer ir dar um beijinho à mãe. E eis que responde prontamente: «NÃO É PRECISO. ADEUS MÃE. VAI TRABALHAR, VAI TRABALHAR...» ... e eu vim!

VOA ALTO, CHEGA LONGE E NUNCA DEIXES DE SONHAR!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

UM PARADOXO CHAMADO ISALTINO

RAUL TOMÉ
Nas últimas semanas tem-se assistido, nomeadamente, nas redes sociais a um enorme burburinho em torno da candidatura de Isaltino Morais à câmara municipal de Oeiras. Ora, cumpre desde já alertar os leitores que não existe aqui qualquer intuito de índole eleitoralista nem de defesa da personalidade em questão.

O que aqui se pretende é fazer uma reflexão acerca da sociedade em que vivemos e sobre o que entendemos como Estado de Direito no que concerne à reposição dos direitos de cidadania de todos (e sem excepção) os cidadãos 
Será moralmente questionável a recandidatura de Isaltino Morais? Eventualmente será! Mas aqui já entramos no campo da individualidade de cada um, pelo que tecermos juízos de valor acerca das atitudes de terceiros, por norma, nunca abona a nosso favor.

No caso de Portugal, por exemplo, contrariamente a outros países, a pena de morte foi abolida em 1867. Portanto, concorde-se ou não, a privação da liberdade foi uma das formas encontradas para punir os cidadãos pelas suas falhas. 

Todavia, se um cidadão é julgado, condenado e cumpre a pena que lhe foi atribuída, ser perpetuamente julgado em praça pública vem, apenas e só, provar uma eventual falência do sistema judicial e a total hipocrisia da sociedade em que vivemos.
Por um lado, os cidadãos acusam a justiça por nunca condenar individuos detentores de elevados cargos políticos sempre que surgem indícios de corrupção. Por outro, não acreditam que a justiça tenha sido suficientemente dura e eficaz quando pune tais comportamentos.

É por isso que urge a necessidade de, enquanto cidadãos ponderarmos, de facto, que sociedade queremos.
Onde está aquilo que apelidamos de (re)inserção social?
Não acreditamos nós que a privação de liberdade possa ser requalificante para os indivíduos? Então porque a aplicamos se não a vemos per si como justa? Porque não pensamos noutras formas de punição quando esta não nos satisfaz?
Teremos nós cidadãos o direito de condenar perpetuamente os indivíduos quando Portugal aboliu a prisão perpétua em 1884? Será justo que os indivíduos sejam condenados a uma dupla pena, a judicial e a social?

No exemplo que aqui trazemos importa recordar que Isaltino Morais foi condenado a dois anos de prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais, não lhe tendo sido atribuída nenhuma pena assessória, nomeadamente, a inibição de ocupação de cargos públicos.
Nesse âmbito, tendo pago à sociedade pelos delitos cometidos, os cidadãos têm de adquirir plenos direitos, não só por parte das instituições mas também por nós enquanto sociedade que se quer inclusiva.

No caso em apreço e fazendo jus ao adágio popular, "quem está dentro do convento é que sabe o que lá vai dentro", cabe aos cidadãos de Oeiras decidir, não com base nos preconceitos mas sim na razão e na igualdade de direitos de cidadania, se Isaltino deverá ou não ser reeleito.

AS REDES SOCIAIS

ARTUR COIMBRA
As redes sociais são, hoje em dia, uma realidade incontornável para quem procura a informação mas, sobretudo, o comentário e a opinião sobre os acontecimentos, sejam numa dada localidade, no país ou no mundo.

Substituindo um pouco o secular diário pessoal das nossas infâncias, em cujas páginas o leitor ia apondo os seus textos, os seus poemas, os seus desenhos, as suas análises ao que se passava à sua volta, as redes sociais constituem, na actualidade, a forma como os cidadãos vão reagindo ao momento, em cima das ocorrências. Alvitrando, julgando, avaliando, aplaudindo ou censurando. Acabam por se transformar na voz dos que não têm voz no dia-a-dia dos jornais ou, genericamente, da comunicação social, cada vez mais reduzida ao papel de porta-voz dos grandes interesses políticos, económicos, culturais ou desportivos deste país.

Assim, as redes sociais assumem um imprescritível espaço de promoção da cidadania e da própria democracia, enquanto mensageiras da representação do pensamento de cada português, que, de outro modo, jamais conseguiria obter a amplificação que aquele meio proporciona.

E quem diz democracia, diz liberdade. É inquestionável que as redes sociais representam a legitimação da liberdade de cada cidadão colocar na net tudo o que lhe vai na alma. E é exactamente no exercício desse sagrado benefício que, paradoxalmente, reside o perigo do sistema, que é enorme. 

Ninguém questiona o direito de qualquer cidadão a exprimir, sem peias, as suas opiniões, as suas críticas, os seus desejos, os seus fantasmas, desde que assuma, lealmente, a autoria do que escreve e publica. Já se contesta esse direito desde que praticado a coberto do anonimato, ou de falsas identidades, ou de perfis falsos, como é comum no mundo virtual, sobretudo em épocas eleitorais.

As pessoas sem escrúpulos transferem para as redes sociais as suas taras, as suas perversões, a sua podre maledicência, a sua desonestidade intelectual, no fundo, a sua cobardia. Que outra designação não pode ter quem, anonimamente, em textos ou comentários, denigre e achincalha respeitáveis pessoas, permite-se julgar quem não conhece, humilha e ofende quem não está de acordo com as suas ideias, vilipendia e insulta quem lhe dá na real gana, porque, no fundo, escreva o que escrever, ninguém é penalizado pela estrumeira que lança na Internet. 

Ao contrário do que acontece nos media, que têm directores e coordenadores que filtram devidamente o espaço opinativo, nas redes sociais reinam, quantas vezes, o caos e a anarquia, releva a linguagem de estrebaria, impõe-se a voz do ataque, da injúria, da difamação, dos sentimentos mais primários, na perspectiva de que ninguém descobrirá a respectiva autoria. E ninguém paga pelos delitos que, com a mesma linguagem, seriam penalizados na imprensa. 

Nas redes sociais campeia gente sem princípios, sem valores, sem disciplina. Falta aí certamente uma autoridade que vele por comportamentos adequados a uma vida em sociedade, pautada por paradigmas de respeito, de ética, de rectidão, de probidade.

Faz falta uma entidade reguladora para as redes sociais, mas que exerça, de facto, essa importante missão disciplinadora, e não a farsa que são os reguladores da comunicação social, ou da electricidade, ou dos combustíveis, ou do que quer que seja, e de que ninguém lobriga a utilidade para os cidadãos. 

As redes sociais são, em suma, um espaço de democracia e de liberdade, mas também de cobardias, de ataques pessoais, de libertinagem, muitas vezes a coberto de perfis falsos que pervertem o que a Internet tem de imensamente positivo!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DIZ-ME O QUE TENS E DIR-TE-EI QUEM ÉS!

MÁRCIA PINTO
Apesar da revolução de mentalidades que tem ocorrido ao longo dos anos é ainda notória uma estratificação da sociedade!

Contudo, é importante perceber que todos os aspetos de uma sociedade, economia, política, área social, cultural, etc. – estão interligados. Deste modo, os vários tipos de estratificação não podem ser considerados de forma independente. Por exemplo, as pessoas que têm uma posição económica favorável, normalmente, desempenham posições profissionais valorizadas socialmente.

Assim, existem sociedades em que, mesmo usando toda a sua capacidade e todos os seus esforços, o indivíduo não consegue alcançar uma posição social mais elevada. Nesses casos, é como que se fossem rotulados logo à nascença, independentemente da sua vontade e sem hipótese de mudança. Assim, carrega consigo, para toda a vida, a posição social herdada.

Felizmente, na nossa sociedade, há indivíduos que nascem numa camada social mais baixa e conseguem alcançar, com o decorrer do tempo, uma posição social mais elevada.

No entanto, continuamos a ser mais valorizados pelo que temos do que pelo que somos. As pessoas hoje em dia só se preocupam com o dinheiro e bens materiais, passando para segundo plano os sentimentos do outro. Valorizam mais o físico e a aparência desvalorizando o caráter!

O mundo de hoje infelizmente é um mundo vazio onde falta afeto, respeito, educação, amor…Coisas tão simples que se foram perdendo ao longo do tempo. O individualismo e o egoísmo são a marca dominante do comportamento coletivo. Prevalece o culto do prazer e da satisfação imediata dos desejos. Ser honesto deixou de ser valorizado pois vivemos num tempo em que só os espertos conseguem chegar mais longe!
É importante, não deixar de usar nas nossas vidas a simplicidade e a humildade, que ao contrário do que o que a maioria pensa, não significa ser pobre, mas reconhecer o valor do outro, subir com dignidade e pelo nosso esforço.Precisamos estabelecer critérios pelos quais deveremos pautar os nossos comportamentos.

Neste sentido, os pais e educadores têm papel fundamental, na medida em que devem ser exemplo para os filhos e educandos. Ensinar que vale a pena ser honesto, É inadiável ensinar com palavras e, sobretudo, com exemplos que é importante construir um mundo melhor, mais comunitário e solidário.

DEPOIS DO FIM DO MUNDO TUDO FICA BEM

RAQUEL EVANGELINA
Este texto é para ti. Sejas tu quem fores. Podes ser aquele(a) que se sentou na cadeira do consultório e a quem o médico informou com um ar pesaroso que a situação é mais grave que o que se pensava. Podes ser aquele(a) que batalhou tanto por um determinado lugar e por muitos esforços que faça parece que nunca te é dada a oportunidade. Podes ser aquele(a) que está de luto porque acabou de perder alguém que lhe era muito. Podes até ser aquele(a) que por muito bom que seja vê a pessoa com quem está escapar-lhe pelos dedos e não percebes o porquê. Acho que toda a gente passa ao longo da vida por estas situações, se não passar por todas, passa em duas de três pelo menos. 

Um dia descobres que estás doente. Pensas porque é que te aconteceu a ti, porque é que tens que ser tu a passar por essa provação. Pensas na morte, mesmo que não queiras lá no fundinho a ideia de que pode ser o fim do jogo para ti aparece. Deprimes e isolas-te. Não porque culpes as pessoas que te rodeiam mas porque não queres que elas vejam que não és tão forte quanto queres mostrar. Que choras e que tens medo. E de qualquer forma elas não te vão dar a cura então para quê incomodá-las com batalhas que não são delas? As pessoas que realmente se importam contigo passam a vida a fazer perguntas. E tu não estás com disposição de nada, muito menos de interrogatórios. 

No trabalho esforças-te por ser o melhor que podes. Pões a vida profissional acima da pessoal, dás a cara pela instituição que representas e és uma pessoa ambiciosa. Mas mesmo assim nada acontece. Vês outros ficar com as tuas vitórias, tirar proveito dos teus esforços e começas a desmotivar. E é nesse teu momento de fraqueza que começas a ser criticado(a). Como é que alguém sempre tão prestável, tão disponível, de repente deixa de o ser e baixa o seu rendimento laboral? E se ninguém reparou até agora na tua prestação acredita que reparam logo assim que ela baixa. E continuas sem motivação e completamente infeliz porque foste ultrapassado(a) por alguém com mais ambição e sem medo de “passar por cima” dos colegas. Ir para o trabalho passa a ser uma obrigação e não algo que te seja prazeroso. Ficas frustrado(a) e se não podes gritar ou reclamar com os teus superiores por teres o emprego em jogo farás com os que estão em casa e não têm culpa nenhuma.

O teu pai morreu. Quem diz o teu pai, diz a tua mãe, o teu filho, o teu avô, quem quer que seja que te é próximo e muito importante. Choras porque há perdas que não há volta a dar e a morte é decididamente uma delas. Fazes o teu luto mas por vezes é difícil deixar ir. A última vez que falaste com essa pessoa discutiram. Gostavas de lhe dizer que a discussão foi uma estupidez e ela morreu sem que lhe dissesses o que realmente querias, que gostavas muito dela. Isolas-te, achas que nunca vais ultrapassar essa pessoa não estar mais lá. Recordas os momentos com mágoa. Não porque foram maus mas porque foram bons e não voltam.

E falando em perdas o que te aconteceu enquanto elemento de um casal? Porque é que a tua relação te dá mais motivos para chorar do que razões para te orgulhares de ter essa pessoa ao teu lado? Um dia chega e berra contigo todas as frustrações externas a ti mas tu perdoas porque está numa fase má e não quer dizer que não te ame. Um dia começa a criticar que estás mais isto ou aquilo e pensas que realmente a culpa é tua, que te desleixaste e que és indigno(a) da pessoa que tens e inferior a ela. Bate-te uma vez. E sim isto também acontece com vítimas homens, apesar de em menor número. Ficas magoado(a) mas perdoas, conheces quem tens, apenas perdeu a cabeça e não torna a fazer o mesmo. Se calhar até fizeste por merecer. E vais tentando manter através de cacos o relacionamento, vais sustentando-o com base no teu amor unilateral porque Deus te livre de viver sem aquela pessoa. Porque no fundo ela te ama e tudo o que viveram já foi tão bonito. E se algo está mau a culpa decididamente é tua, nunca do outro(a).

A questão é que por vezes achamos que é o fim do mundo. Não vamos sair da doença, não conseguimos arranjar outro emprego, nunca conseguiremos ter novamente as pessoas que já foram e não conseguimos viver sem o nosso grande amor. Todos nós passamos por esses fins de mundo. Eu já passei e a minha visão é mesmo a de que sim por vezes é o fim do mundo mas passado um tempo está tudo bem. Não é o fim do mundo como o conhecemos, é apenas o fim de alguns mundos nossos mas depois fica tudo bem. Portanto não te deixes abalar pela doença. Há tantos que a vencem. Tu és mais forte. Não tenhas medo de juntar quem te rodeia e dizer que tens alturas que choras. Todos o fazemos e por vezes por coisas mínimas. Eu sei que vou soar um pouco lunática agora tendo em conta a economia do país mas se não estás bem no emprego sai. Haverão outras oportunidades profissionais e se és dedicado(a) elas aparecerão. Relativamente a quem perdeste honra-lhes a memória. Pensa que onde quer que estejam não estarão de certeza interessados na discussão e sim em tudo o que viveram de bom contigo. E quanto ao amor acredita que há vida depois daquela pessoa. Se não consegues aguentar mais vai embora. Não porque já não a ames mas porque te amas, se não o fazes deves fazer, mais a ti. 

Esta minha crónica não te vai trazer saúde. Não te vai dar um emprego novo. Não te traz nem quem já partiu nem o teu amor de volta. Mas espero que te traga esperança. E a ideia de que depois do fim do mundo tudo fica bem. A ti. A mim. A todos. 

NA IDADE DOS PROJETOS...?

ELISABETE RIBEIRO
Estamos no início do ano letivo. Para muitos uma nova escola, para outros uma continuidade. 

Este início é recheado de adaptações quer ao funcionamento do estabelecimento de ensino quer ao agrupamento. Entre reuniões e sub reuniões, ordinárias e extraordinárias vou tomando conhecimento do número de Projetos existentes para desenvolver, com os alunos, ao longo do ano.

A característica básica de um projeto é a de ter um objetivo partilhado por todos os envolvidos, que se expressa num produto final e que terá, necessariamente, análise, reflexão, monitorização e divulgação dos resultados dentro do circuito escolar. Contudo, quando nos deparámos com turmas mistas, um ensino quase personalizado, ausência de apoios educativos que respondam às necessidades efetivas das dificuldades reais, metas curriculares a atingir, programas extensos, que tempo nos sobra para fazer registos, grelhas, análise de resultados, relatórios finais e afins deste mar de exigências dos projetos? É que não é um nem dois... é mesmo a roçar a mão cheia!

Agora questiono: será tão importante assim o desenvolvimento destes projetos, que dizem " visam a promoção e sucesso escolar dos alunos", quando nos debatemos com a falta de tempo para lecionar o programa curricular? 

O ensino não terá virado um poço burocrático onde, o que importa mesmo é o papel que diz que se fez, dando um acumulado de papeladas, tornando os docentes, secretários? 
Opinem!

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O IMPERATIVO KANTIANO E A VIDA REAL

REGINA SARDOEIRA
Há uma certa formulação do imperativo ético kantiano que, numa espécie de obsessão humanista, tentei levar à prática crendo ser possível alcançar, por ele, uma forma de perfeição ética e levar a vida na tranquilidade de quem encontrou o porto. Escrevê-lo-ei aqui para que me entendam melhor, possam tirar as vossas próprias conclusões e, eventualmente, ajudar-me a ver claro.

«Age de tal maneira que uses a Humanidade, quer na tua pessoa quer na pessoa de outrem, sempre e exclusivamente como um fim e nunca como um meio." (Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes)

Uses a Humanidade, diz Kant, porque efectivamente nós vivemos em turbas medianamente organizadas e não temos outro remédio senão usarmo-nos uns aos outros no trato efectivo da sociabilidade; mas usamo-nos também a nós (quer na tua pessoa) sempre que nos embrenhamos em opções que não nos identificam e com elas nos amarramos ao quotidiano, crentes de que esse é o nosso fim, de que esse é o nosso papel. Mas, diz o imperativo kantiano usa-te, a ti e aos outros, sempre e simultaneamente como um fim e nunca como um meio… Faz o que tens a fazer, mas nunca saltes por cima de ti enquanto fim, não te uses como escada, trepando sobre a tua cabeça, para atingires fins que te afastam de ti, como fim, e onde não passarás de um meio para os teus enganadores interesses; usa os outros, mas vê neles um fim em si mesmos, ou seja, seres com autonomia e vontade que não podem ser os degraus por onde treparás até à tua própria realização pessoal!

Eis aqui a explicação possível deste imperativo ético de uma moral, dita formal, pois não assenta em pressupostos materiais sendo, por isso, também ela, enquanto moral, um fim em si mesma.
Expliquemo-nos melhor: há um certo número de regulamentos éticos, visto que a ética é uma ciência normativa, que visam obter certas e determinadas finalidades com a sua prática e, nessa linha de orientação, faz-se isto ou aquilo com o intuito de obter esta ou aquela compensação material, no sentido, não apenas estritamente físico ou palpável, mas também de cariz sentimental ou psicológico.
Nesta linha inserem-se, por exemplo, as morais epicuristas cujas máximas visam a obtenção da felicidade e, por isso, são regras de moderação e fuga ao sofrimento que não têm valor em si mesmas, mas apenas pelo efeito que produzem. "Sofre e abstém-te" é uma máxima da moral estóica, aparentemente colocada na linha oposta da epicurismo mas, apesar de tudo, com ela convergente, visto que, consideram os estóicos, o sofrimento e a morte são inevitáveis pelo que, aceitá-los como componente intrínseca da vida é uma máxima, senão de obtenção de prazer, ao menos da predisposição para a ataraxia. Por outro lado, ao abstermo-nos dos excessos, inúteis e provocadores de maior sofrimento ainda, podemos atingir uma espécie de serenidade beatífica capaz de propiciar a tranquilidade ao ser humano.
Estes são dois exemplos das morais consideradas materiais, pois, em ambas, o fim a atingir determina o meio a utilizar, ou seja, a conduta a seguir e logo o conjunto normativo que a tal poderá conduzir.
Por oposição a elas, a moral kantiana e o seu imperativo categórico representam um fim em si mesmos, quer dizer: o dever, base de todo e qualquer código moral, é, por ele próprio, um fim, impõe-se à consciência de todo e qualquer humano, inscrito numa certa e determinada estrutura social, que ele é compelido a aceitar, visto nela nascer e nela se ir tornando cidadão consciente e responsável. E a própria liberdade decorre do cumprimento da lei visto que ela é engendrada pelo ser humano dotado de autonomia -que significa,literalmente, ser capaz de estabelecer as próprias leis pelas quais se rege – sendo um paradoxo erigir leis e depois evitar cumpri-las ou violá-las decisivamente. E, mesmo o argumento segundo o qual não nos coube a nós, sujeitos individuais, a regulamentação do mundo a que pertencemos, o simples facto de admitirmos viver numa certa e determinada comunidade obriga-nos, em consciência, ao cumprimento das suas leis específicas.
A regra de oiro da moral kantiana é, com efeito, a universalidade, mas uma universalidade estribada também nas linhas do imperativo categórico, pois enuncia-se do seguinte modo:

«Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal». (Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes.)

AS CRIANÇAS CÁ DE CASA

ELISABETE SALRETA
Quando se tem uma casa cheia, além do trabalho inerente ao bem-estar de todos, existem as brigas, os ciúmes e afins. Quando um dos filhos é um bebé especial, a coisa complica à séria.

Cá em casa, os desentendimentos passam-se a qualquer hora e em qualquer lugar. Até em cima da mãe, com a mãe a dormir.

Numa casa com crianças, a privacidade deixa de ser um dado adquirido. Portas fechadas são um insulto. A hora da refeição, uma festa.

Aqui, as crianças são gatos. Mas funciona da mesma forma. Para mim, são crianças com 3 anos ou menos, pois o seu comportamento assim se assemelha.

Acordamos, e existe o retardatário, aquele que não se quer levantar apesar da zorra que já existe no hall. A gritaria é constante, e até aqui se vê até onde vai o ciúme e o facto de se ser o irmão mais velho o que lhe dá um certo poder. Como se trata de duas meninas, as discussões, os insultos, e os ataques, são frequentes. O mano, do meio, assiste impassível, a ver se não lhe calha uma chapada perdida numa discussão fervorosa. Elas, são as únicas que gritam, ele, só de dor. Elas, despeitadas, descarregam no pobre as frustrações das lutas perdidas. Saliente-se que ele pesa mais que elas duas juntas, mesmo assim, ele apanha. Um verdadeiro gentleman.

A bebé quer impor-se e tenta enfrentar a mana mais velha. Esta, sabida, e sabendo que a pequena não vê, dá-lhe um berro que a faz mudar de direção. Não sai do sítio. Apenas espera que a pequena por la passe e diverte-se com o atabalhoar da pobre.

Mas há dias em que a pequena está terrifica e morde-lhes. Parece que se quer vingar dos sustos e chamadas de atenção. Nessa altura os gatos velhos fogem para o sítio mais alto que conseguem e juntos, ficam a ver a pequena desesperada à procura deles, chamando para brincar. Ou para a próxima luta.

Na hora da refeição, existem dois pratos. O rapaz come com qualquer uma, elas juntas, nunca. Mulheres!

Quando a mãe ou a mana humana comem, e se não lhes é oferecido um miniprato, elas cheiram a nossa boca para terem a certeza de que comem o mesmo. A pequena come o que comemos e adora ovo mexido ou gema do ovo estrelado.

Depois chega a hora da cama. Cada um tem o seu lugar, com a mãe no meio. A gata mais velha não pode ver a mais nova pois rosna e bufa sem parar. A pequena esconde-se, encostada às costas da mãe, onde adormece quentinha e com uns beijinhos extras quando a mãe se vira.

A mana velha precisa de mimos extra e continuados durante a noite. Simula mamar no pescoço da mãe como se de um gatinho se tratasse. Mas por uma questão de estatuto ou pura vergonha, os outros não podem ver. Tem de ser com a luz apagada e com os outros a dormir. Ele fala toda a noite. Que se passará pela sua cabecinha? A pequena ronrona, feliz. Depois de tudo pelo que passou, merece.

São uns chatos, mas eu não saberia viver sem eles!

MORRER E PAGAR IMPOSTOS

RUI CANOSSA
Segundo Samuel Johnson e também Benjamin Franklin “só há duas certezas na vida: morrer e pagar impostos!”.

De facto, na nossa vida, a inevitabilidade da morte só se compara à inevitabilidade de pagar impostos. Os impostos diretos, como o IRS, que incide sobre o rendimento das famílias, o IRC, que incide sobre o rendimento das empresas e o IMI, que incide sobre o património. Depois existem os impostos indiretos pois só pagamos se consumirmos. Assim, temos o maior deles todos que representa sozinho um terço dos impostos em Portugal, o IVA, Imposto sobre o Valor Acrescentado, cuja taxa maior é de 23%, o IUC, Imposto Único de Circulação, Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos, etc. Estes são alguns dos mais visíveis aos olhos dos contribuintes, mas há tantos! Sabia que quando está a usar uma simples pen drive está a pagar uma compensação devida pela reprodução ou reprodução de obras? Ou que quando vai à farmácia está a pagar, ou a ajudar a pagar uma taxa de comercialização e regulação do INFARMED e a contribuição sobre a indústria farmacêutica? Nos aeroportos está a pagar uma taxa de aeroporto, e os turistas pagam impostos e até na publicidade? Nas SCUT e nas autoestradas pagamos portagens… A lista é mesmo grande e eu ainda não cheguei onde queria. 

E o rendimento disponível das famílias? Este é calculado pela soma dos rendimentos, ou seja, salários, rendas, juros e lucros, aos quais vamos deduzir os impostos indiretos, o IRS, IRC ainda as contribuições obrigatórias para a Segurança Social. Depois desta operação de aritmética é que temos o rendimento disponível para consumir e se sobrar algum poupar. E os impostos sobre o consumo têm vindo a subir. 

Se estivermos a ouvir com atenção as notícias anunciam com todo o entusiasmo algum decréscimo da carga fiscal nos escalões inferiores do IRS, alegando um aumento do rendimento das famílias, uma devolução do rendimento às famílias! Mas, se é só para alguns escalões o resto fica na mesma. Mais, se os impostos indiretos, alguns invisíveis, vão aumentar, os preços vão aumentar e o meu rendimento real, o meu poder de compra, a quantidade de bens e serviços que posso adquirir com o meu rendimento vai diminuir!

E entretanto vem aí o Orçamento de Estado para 2018 e o que se fala é que se vai reduzir o défice orçamental até 1% do PIB, numa operação aritmeticamente impossível, dada a pressão para diminuírem a receita e aumentarem a despesa. Quem é que vai pagar a conta? Já estou a ver somos nós nos impostos sobre o consumo. Lembro a frase de Margaret Thatcher: “ Jamais se esqueçam que não existe dinheiro público. Todo o dinheiro arrecadado pelo Governo é tirado ao orçamento doméstico, da mesa das famílias”



Tenham uma vida longa e próspera, ah, e a pagar impostos.

PERMITAM-ME

Tom a proteger o mano Jerry!
(Crónica de Ana Silva)
Permitam-me falar outra vez de amor.. Falar do que vemos e experienciamos todos os na AAAAMT implica falar de amor.. Seja quando vemos uma cadela a quem, uma a uma retiramos as suas crias para entregar para adoção, desesperadamente à procura das que vão faltando! Ou quando passa com um pedaço de comida na boca, que leva para os seus bebés, sem sequer pensar em si e na fome que também lhe assiste! Há como não sentir, nem digo amor, mas compaixão por um ser que faz isso pelas suas crias? Qual é a diferença deste instinto de carinho e proteção, para o que nós temos para com os que amamos? Aceito que não gostem de animais, aceito que tenham medo, aceito até que sejam completamente indiferentes à sua presença como se de um objeto inanimado se tratasse (eu também já fui assim até me caoquistarem!).. Só não aceito que lhes batam, que os tentem envenenar, que os escorracem, que os levem para casa para acorrentar, que abusem da sua confiança e do amor incondicional ao dono! Permitam que eles SEJAM, única e simplesmente! Estão a incomodar? Então liguem-nos ou às entidades competentes! Vamos usar todos os recursos, até os que não temos, para tentar ajudar! Quem bate num animal, num ser capaz de sentir, de cuidar dos seus, de proteger o seu dono, a meu ver, de amar, esse sim não sente!

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

PERDA DOS DENTES NATURAIS PARTE V – PRÓTESES DENTÁRIAS FIXAS

INÊS MAGALHÃES
A prótese fixa é a restauração parcial ou total da coroa de um dente. Ela pode ainda substituir um ou mais dentes perdidos.
As próteses fixas podem ser facetas, coroas, ou pontes e têm como objetivo mimetizar ao máximo a dentição natural do indivíduo. Esta torna-se a opção ideal nos casos em que faltam poucos dentes, não só pelo conforto como pela estética.

Quando falamos em facetas dentárias, referimo-nos a uma pequena película a ser colocada na superfície do dente, que vai reparar danos pequenos. Esta assemelha-se a uma lente de contacto, necessitando para isso de um preparo dentário pouco invasivo, contudo não pode ser usada em casos em que a reabilitação oral seja extensa ou mesmo quando a superfície da coroa está tão destruída que já não permite a sua colocação. Estas são muito usadas, por exemplo, em casos de alterações de cor nos dentes ou para fechar diastemas (espaços entre os dentes).

Por sua vez, as coroas dentárias são mais utilizadas do que as facetas. Isto porque, elas permitem reabilitar praticamente qualquer coroa dentária, independentemente de esta se encontrar muito ou pouco destruída, ou mesmo no caso da sua inexistência. Contudo, tem de existir sempre uma raiz dentária saudável. O preparo dentário pode ser mais ou menos extenso, dependendo da perda existente e pode ser necessário a desvitalização da raiz. Neste último caso, a coroa será colocada no dente com o auxílio de um espigão, que, por sua vez, é inserido nessa raiz desvitalizada.

Em situações em que as perdas dentárias levaram à extração completa do dente é ainda possível reabilitar essas ausências através de pontes dentárias. Estas são iguais às coroas acima mencionadas, porém, como o próprio nome o diz, elas não assentam em nenhuma superfície dentária, ficando suspensas como “pontes” entre dois dentes já reabilitados, substituindo, deste modo, os dentes ausentes.

Os materiais com que são confecionadas, estas próteses, são variados e dependem da superfície que vão reabilitar.

Este tipo de prótese só é possível realizar-se no caso de a pessoa ainda possuir, pelo menos, a raiz dentária intacta. Isto, porque, ela irá ser colocada sob a superfície desse dente, previamente preparado. Uma vez colocada, a prótese não pode ser retirada pelo paciente.

FAMÍLIA E AMIZADE

RITA TEIXEIRA
Medito no pensamento filosófico de Platão “não espere por uma crise para descobrir o que é importante na sua vida”. E adapto-o à minha vivência neste mundo individualista. A vida deu-me grandes lições, desde tenra idade, das quais retirei os valores da família e da amizade na caminhada da nossa existência. Eu e os meus irmãos crescemos em função de um pai com a doença de parkinson. 

Sempre senti um fascínio por crianças e sempre tive crianças no meu lar. E ainda hoje, há sempre uma criança a manifestar afeição por mim, independentemente das minhas incapacidades de as abraçar, de dar-lhes o meu colinho. Convivi sempre em ambiente sadio, pacífico, quer em família, quer nos locais de trabalho, quer no rancho folclórico ou quer nos convívios 

Em momentos de crise, nunca fugi com o rabo à seringa, pelo contrário, acedi às chamadas de ajuda. Acolhi, em meu lar, minha irmã, quando tentou suicidar-se e posteriormente acolhi seus filhos. Larguei meus filhos em casa, quando a sobrinha Conceição telefonou-me, por duas vezes, para acudir sua mãe, porque notara, pela voz que ela não estava bem. Por consequência, acabei por parar nos hospitais. Quando uma amiga me ligou e pediu-me para a ir ver, não hesitei, pus o jantar na mesa para a minha família e fui imediatamente para a sua casa. Ao verificar seu sofrimento à hora do jantar, decidi que essa era a hora que mais precisava da minha presença. E foi assim que fiz, enquanto necessitou de alguém para a acompanhar num momento tão doloroso. Quando uma prima abriu uma loja, promovi seus artigos junto das minhas amigas, vendendo muitos deles. 

Como podem constatar, não descurei os valores, fruto da educação que recebi e sempre disse aos meus filhos: “Olhem para o que eu faço e não para o que eu digo”. 

Infelizmente estes valores, tão primordiais, na sociedade atual estão a cair em desuso. 

Para mim, o mais importante, continua a ser a família do coração.

(Familiares e amigos), pela qual tudo farei, enquanto estiver ao meu alcance!!!

ILHA

MIGUEL GOMES
Sem qualquer surpresa, o dia escorrega da noite para a iluminada parte da terra, percorrendo sem grandes veleidades léguas de chão parando poucas vezes para escutar o que de nada sai quando a mediocridade e inocência teimam em falar. 

Fascina-me a inconstância meteorológica e os frutos que a terra vai parindo, seja fecundada profissionalmente ou somente com amor.

Fascina-me o acre do suor e o movimento de fuga da insectivorada esgravatando terra adentro como desejando voltar para os braços da mãe.

Fascinam-me anos passados numa memória que dura um segundo. 

Quem não gosta? 

Há um se e uma realidade, qual de ambos é real? 

As costas voltadas à montanha ou a obsessividade pela vida que se sabe não existir? 

Fascinam-me as cores sob as nuvens antes do Sol se pôr ao encontro dos momentos finais do dia, ainda que, como hoje, as cores vivam apenas na imaginação das palavras que me escrevem.

Que seriam de meus dias futuros, sem a incógnita dos passados?

Por tudo isto, quando o dia soluça e parece acordar, já eu venho a percorrer, em passo aflito, o caminho recortado na paisagem, sorvendo o orvalho matinal que ainda persiste porque não sabe que existe e levo já nos olhos o sono perdido e as lágrimas de júbilo por saber ali, dormentes, a espuma das ondas da maré que irei pastar.

Vão-se batendo de encontro à costa, inquietas. 

Enquanto não chego entretêm-se a bolear à perfeição as pedras vulcânicas que a terra, inocentemente, pariu. 

Restolham o som, desdobram-se em vagas de uma fervura de ouvidos quando a espuma se desfaz e deixa cair, de costas, no amparo do mar.

Elas sabem-me de lá, por isso apascentam e sorriem quando, ofegante, chego ao cimo do monte escarpado e com um dente de leão por cajado as saúdo.

Sorriem-me na maré dourada que se estende pelas sombras do que o Sol não cobre. 

Ondas de lavoura e espuma de milheirais, na irregular costa da simplicidade de amar a terra, eis os despojos sem guerra.

Soçobro a passividade e pastoreio a espuma das ondas. 

Gravo-me em arado que se verte pelo olhar. 

Eu e as ondas, a suspirar. 

O texto que teima em falar e eu, navegante, calado, sem me saber sequer vocalizar, porque há um hiato entre as vagas das vidas onde não sei nadar.

A CIDADANIA É FIXE

MOREIRA DA SILVA
A cidadania atribui aos cidadãos os direitos e deveres que estão consignados na nossa lei e que, recentemente, foram alargados ao serem consagrados de forma relevante no projeto da Constituição Europeia, que remonta ao Tratado de Maastricht de 1992, cujo artigo 1º consagra plenamente a cidadania europeia, ao afirmar-se que a União é "inspirada na vontade dos cidadãos e dos Estados da Europa de construírem o seu futuro comum". É a Europa, enquanto projeto comum de várias nações e povos.

Os deveres que a cidadania “impõe” aos cidadãos, embora sejam poucos, são muito relevantes, como por exemplo: o ser responsável, proteger a vida de todos os seres, respeitar os outros e os seus direitos, assim como respeitar o sexo, a raça, a língua, a religião, a educação, a situação económica e a condição social de qualquer pessoa, mas também ajudar, defender e manter os valores da humanidade. 

Quanto aos direitos que a cidadania portuguesa “oferece” aos cidadãos há uns que são exclusivos dos portugueses, sobretudo direitos políticos, e há outros que são exclusivos dos estrangeiros, como o direito de asilo. À luz da Constituição, existem duas grandes categorias de direitos fundamentais: os direitos, liberdades e garantias, e os económicos, sociais e culturais. 

Os direitos políticos abrangem o direito à liberdade e à segurança, à integridade física e moral, à propriedade privada, à participação política e à liberdade de expressão e também à participação na administração da justiça. Os direitos económicos, sociais e culturais englobam o direito ao trabalho, à habitação, à segurança social, ao ambiente e à qualidade de vida.

O Estado tem a obrigação de respeitar os direitos fundamentais (as posições jurídicas básicas reconhecidas pelo direito português, europeu e internacional com vista à defesa dos valores e interesses mais relevantes que assistem às pessoas), e de tomar medidas para os concretizar, quer através de leis, quer nos domínios administrativo e judicial. Pode-se afirmar que a cidadania é fixe, pois num sentido amplo é reconhecida como o “direito a ter direitos”. 

Nas próximas eleições autárquicas vão poder votar todos os cidadãos portugueses, mas também os cidadãos dos seguintes países: Estados Membros da União Europeia, mas também Argentina, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Islândia, Noruega, Nova Zelândia, Peru, Uruguai e Venezuela. Todos os cidadãos destes países podem votar nas eleições autárquicas, desde que devidamente inscritos no recenseamento português.



Mais uma vez, os cidadãos estão convidados a praticar um ato puro de cidadania, para exercer o seu direito de voto. Vão ser convocados a colocar uma cruz no boletim de voto, neste caso em dose tripla – câmara municipal, assembleia municipal e assembleia de freguesia. Nas eleições, os cidadãos têm o dever de exercer o seu direito.

sábado, 16 de setembro de 2017

7.º DIA DA MORTE DE DOM ANTÓNIO FRANCISCO, BISPO DO PORTO

CRÓNICA DO PE. AMARO GONÇALO
1. Tivemos o nosso 11 de setembro! Não caíram torres gémeas, não houve sismos, nenhum furacão deu à costa! Não houve nenhum ataque terrorista. Mas a cabeça do ministério apostólico da nossa diocese caía por terra! A morte súbita do nosso bispo, Dom António Francisco, abala profundamente a sua amada diocese do Porto; deixa em choque a Igreja em Portugal, com réplicas de lágrimas, por Lamego, Braga, Aveiro e pelo país inteiro. Na verdade, um abalo imenso estremece o coração de uma enorme multidão, de homens e mulheres, que foram alguma vez acariciados pela sua quase infinita bondade, de todos aqueles a quem reconhecia o rosto e chamava pelo nome, por quem se interessava, de perto e em concreto. Um ataque fulminante traía o coração do nosso bom pastor, que nos amou tanto, “tanto que o coração não aguentou mais” (Dom António Taipa)! 
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A notícia chega mais veloz que um relâmpago e provoca um turbilhão de emoções, de recordações, de gratidões, como se todos e cada um tivessem uma bela história de vida e de amizade, uma palavra, uma carícia, um gesto de atenção concreta e de bondade, para contar e agradecer, acerca deste grandioso Bispo do Porto, um bispo sábio e bondoso, que se despedira da sua Diocese, em Fátima, num largo abraço, para assim nos confiar à Mãe do Senhor, como Jesus ao discípulo amado. 
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Foi aliás esse o evangelho proclamado na belíssima celebração, em que nos deixara uma espécie de testamento pastoral: “Igreja do Porto: Vive esta hora, que te chama, guiada pelas mãos de Maria, a ir ao encontro de Cristo e a partir de Cristo a anunciar com renovado vigor e acrescido encanto a beleza da fé e a alegria do Evangelho. Viver em Igreja esta paixão evangelizadora é a nossa missão. A vossa e a minha missão”!
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2. Neste domingo, que é também o do 7.º dia da sua morte, a vida bela, o mesmo é dizer, a vida santa do nosso querido bispo, resume-se nas palavras lapidares do Apóstolo Paulo: “se vivemos, vivemos para o Senhor, se morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7-8). Ele viveu como Pastor que conhece, guarda e dá a vida por cada uma das suas ovelhas, sem se poupar. Viveu para o Senhor, porque viveu d’Ele e viveu n’Ele, para nós. E assim morreu, dando tudo, dando-se todo! Morreu assim, não para desaparecer, não para deixar ficar apenas na retina dos nossos olhos o seu sorriso, ou a sua bondade, na memória eterna dos nossos corações. Morreu para o Senhor, para que, no Senhor, a sua vida consumida por nós, seja consumada por Ele, e se torne vida plena, definitiva, coroada de honra e de glória. 
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3. “Se vivemos, vivemos para o Senhor, se morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7-8). 
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Irmãos e irmãs: o Senhor é a origem e a meta, o princípio e o fim da nossa Vida! D’Ele vimos: é d’Ele que recebemos esta Vida. Para Ele vamos e n’Ele morremos, porque só n’Ele a nossa vida se realiza e finaliza. E, entretanto, como disse o mesmo Apóstolo, é o mesmo Senhor a fonte e o sustento, o alento e o alimento do nosso viver, pois “é n’Ele que nos movemos, somos e existimos” (At.17,28). Sim, é n’Ele que nos movemos!
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4. “Movidos pelo amor de Deus” (2 Cor 5,4): eis o lema deste ano pastoral 2017/2018, que não vamos deixar ficar no papel, mas que queremos assumir e cumprir, com renovado entusiasmo, dando corpo e vida ao plano diocesano de pastoral, [para o qual tanto trabalhei, com outros colegas, ao lado do nosso bispo, que ficava ora na retaguarda, ora adiante, mas sempre por perto, de olhos visionários. Fui muitas vezes o seu lápis e a sua folha, o confidente e o amanuense dos belos sonhos que Deus lhe inspirava, para a esta Igreja do Porto. Não sei como o hei de agradecer] . 
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5. Escutemos e vivamos, pois, o testamento pastoral do nosso bispo, em Fátima, como um desafio irrenunciável: «vamos partir daqui movidos pelo amor de Deus, para que cresça, no Porto, [e na nossa Paróquia], “uma Igreja bela, verdadeira casa de família, sensível, fraterna, acolhedora e sempre a caminho, mãe comovida com as dores e alegrias dos seus filhos e filhas, cada vez menos em casa, cada mais fora de casa, a quem deve fazer chegar e saber envolver, na mais simples e comovente notícia do amor de Deus” (cf. CEP, Carta Pastoral, 16.7.2010). Como disse de modo extraordinariamente belo e sucinto [aqui], em Fátima, o Papa Francisco: “o rosto jovem e belo da Igreja que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor (Plano Diocesano de Pastoral 2017/2018, pág. 45)». 
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Foi assim que ficou a Igreja do Porto: pobre de meios, porque nos sentimos órfãos de um pai amoroso, de um mediador atento, de um pastor tão bom. Mas rica de amor, pela sua imensa bondade, cujo perfume se derrama agora por toda a parte. Ele partiu. E nós ficamos, com Ele, junto de Deus, a interceder por nós, para que levemos por diante os seus belos sonhos, agora e sempre “movidos pelo amor de Deus”.

ASSEMBLEIA NACIONAL FRANCESA TEM AGORA MAIS DEPUTADOS FRANCO-PORTUGUESES

Manuel do Nascimento
No decorrer das eleições legislativas em França de junho de 2017, 4 deputados franco-portugueses foram eleitos; o lusodescendente Ludovic Mendes do partido A República em Marcha (Presidente Emnanuel Macron). Ludovic Mendes com raízes de Guimarães, é diretor de vendas numa empresa, que vai agora deixar, para a função de deputado. Depois de ter deixado o PS, entra em campanha no movimento de Emnanuel Macron.

Dominique da Silva, empresário, com raízes de Barcelos e de Póvoa do Varzim, vereador da cidade de Moselles, cargo que desempenha desde 2008, que vai deixar para se dedicar às funções de Deputado. Dominique da Silva, aderiu ao movimento Em Marcha, de Emmanuel Macro quando foi criado em abril de 2016.

A lusodescendente Anne-Laure Cattelot, também foi eleita deputada do partido A República em Marcha (Presidente Emnanuel Macron). Anne-Laure Cattelot, com raízes na Covilhã, franco-portuguesa, europeia convicta, e já trabalhou no parlamento europeu. Com os seus 28 anos, e na função de Deputada, diz defender todos os projetos do Presidente Macron, se assim o merecerem.

Christine Pires Beaume, com raízes da Guarda, foi reeleita do partido socialista. Diz poder votar as leis do Presidente Macron, se considerar que vão no bom sentido. Em 2008, Christine Pires Beaume é eleita ao Conselho Municipal da cidade de Volvic, e, é deputada desde 2012.


              

PORQUE DEVE APANHAR AS FEZES DO SEU ANIMAL?

SUSANA FERREIRA
Para alguns este tema pode parecer despropositado, no entanto, hoje em dia, apesar dos diversos materiais existentes para recolha de fezes, poucos são os donos que o apanham os excrementos. 

Quem nunca reparou na quantidade de fezes em torno da entrada do seu prédio, nas imediações e no meio dos jardins públicos? Jardins onde brincam os seus filhos, onde você vai fazer algum exercício físico. Quem nunca se sentiu incomodado por apanhar as fezes e passar alguém a rir da situação, como se o que estivesse a fazer fosse a maior vergonha do Universo? 

Apesar de estarmos evoluídos a nível tecnológico e serem cada vez mais os portugueses formados a nível superior, algo tão básico como apanhar as fezes continua a ser um problema na sociedade. 

Primeiro é uma questão de respeito pelo próximo, não temos que andar a desviar de fezes na rua, nos parques, proibir os nossos filhos de brincar nos parques, entre outros. E muito mais importante o risco de saúde pública. Existem algumas zoonoses (doenças que são transmissíveis ao homem) que podem ser transmitidas através do contacto com as fezes. O sentar na relva, contactar com fezes, não lavar convenientemente as mãos por não se aperceber da presença das mesmas, pode ser suficiente para transmitir patologias.

Existem sacos, pás, transportadores de sacos adaptados as trelas, existem ainda autarquias que fornecem sacos próprios em zonas de parques e passadiços. 

Não tem mais desculpas, respeite o próximo, respeite o ambiente e acima de tudo respeite a saúde de todos, apanhe as fezes do seu animal.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

VIVER DEPOIS DE TI

LUÍS PINHEIRO
Como podemos sobreviver depois da perda de alguém bastante importante para nós? Na sociedade a morte e o ato de morrer continuam a ser temas bastante difíceis de se abordar, principalmente se a pessoa em questão tiver tido/têm um papel importante no nosso passado e presente. As expectativas que criamos sobre as pessoas das quais gostamos caiem por terra num único momento. E o depois? Como devemos proceder sobre algo que sabemos desde o primeiro dia que iria acontecer… Ninguém nos ensina a morrer nem a viver a morte.

A nossa sociedade retrata a morte como um tema “tabu” e nunca é um tema natural no seio de um grupo de amigos ou familiares. Se nos focarmos na literatura podemos ver que a perda de um ente querido é sem dúvida uma experiencia devastadora, Bowlby (1980), o pai da teoria da vinculação relata-nos a importância dos laços emocionais que são criados com as figuras parentais no início da vida, laços esses, que são usados para relações futuras. Surgem da necessidade de nos sentirmos seguros e protegidos. O que fazer quando eles laços são interrompidos? Como podemos ultrapassar algo que nós vemos como não natural e que colocamos sempre num futuro longínquo?

Do ponto de vista da psicologia, existem quatro grandes tarefas que têm de ser realizadas com vista a um processo de luto mais suavizante.

A primeira tarefa prende-se com a aceitação da realidade da perda. Neste ponto, existem três grandes possibilidades de fuga, a negação dos fatos da perda, a alteração do significado da perda e a reversibilidade da morte.

Existe uma tendência natural para inicialmente entrarmos em negação durante um processo de luto, muitas vezes pode traduzir-se numa retenção dos bens materiais do falecido para lhes serem entregues quando ele “regressar” a casa, outra forma das pessoas se protegerem da realidade é alterar o significado da perda, desvalorizando a importância que essa pessoa tinha para eles, um exemplo clássico é “ah, ele também não era um bom amigo” e por ultimo a tendência para pensarem que a perda é reversível, uma estratégia utilizada para negar a finalidade da morte é o espiritualismo. A ideia de reunião com a pessoa morta é um sentimento natural e importante caso faça parte do nível espiritual da pessoa, contudo a esperança crónica por tal reunião pode ultrapassar os parâmetros da normalidade, não deixando a pessoa vivenciar o luto.

Atingir a aceitação da perda é um processo demorado, pois envolve uma aceitação intelectual, emocional e espiritual. Em norma os rituais associados à morte ajudam na realização desta tarefa (funeral).

A segunda tarefa prende-se com a elaboração da dor da perda, ou seja, a pessoa que está em processo de luto tem que vivenciar a dor da perda na sua plenitude, tentar evitar ou suprimir apenas fará com que o processo de luto se perpetue mais no tempo. A negação desta segunda tarefa resume-se simplesmente no não sentir. Este boicote pode ser feito com ajuda de alguns medicamentos ou pela utilização de álcool ou de outro mecanismo de coping menos adequado.

O ajustamento a um ambiente em que o ente falecido não está presente apresenta-se como o terceiro passo para um processo de luto adaptativo. A falta do significante começa a ser sentida num período posterior à sua morte, quanto mais integrado nas rotinas diárias mais cedo somos apoderados pelo sentimento de perda. A estratégia utilizada para aceitar e lidar com a perda pode originar um benefício para o sobrevivente e deste modo levar a uma resolução bem-sucedida desta tarefa. Por exemplo, um senhor que perde a sua companheira, que tinha entre muitos outros papeis, o de alimentar os animais da quinta que tinham, passa a resolver ele próprio essas questões o que lhe irá dar um enorme prazer apercebendo-se que isso não teria acontecido caso a sua companheira não tivesse falecido.

A última tarefa prende-se com o reposicionamento da pessoa que faleceu em termos emocionais e continuar a sua vida. A memória de uma relação significativa nunca é perdida pela pessoa que sobrevive, o processo de luto tende a terminar quando deixa de existir a necessidade de reativação e de representação do falecido com uma intensidade exacerbada no seu dia-a-dia. Uma das possibilidades de fugir á realização desta tarefa é deixar de amar, é a pessoa agarrar-se ao vínculo que tem com o passado e não deixar formar novos vínculos, acontecendo em alguns casos pactos com elas próprias com vista a nunca mais amarem.

O processo de luto não é fácil, é árduo continuar a viver sem alguém que deu tanto significado à nossa vida. O caminho do luto é difícil, mas têm de ser feito. É nestes momentos que temos de ser fortes e realmente fazermos a ligação com o nosso lado espiritual. O sofrimento tem de ser vivido, e de certa forma, é o que nos faz ascender enquanto seres humanos. É nos caminhos mais difíceis da nossa vida, que as respostas tendem a aparecer.

CONTROLO ALIMENTAR PARENTAL

DIANA PEIXOTO
Aproveitando o inicio do novo ano letivo, apraz-me falar sobre a influência dos pais no controlo alimentar dos seus filhotes. Porque sabemos que é na infância que se formam comportamentos alimentares e os pais são objetivamente cruciais neste processo de aprendizagem. 

Os pais são efetivamente os responsáveis pela criação dos padrões alimentares nos filhos, uma vez que influenciam sobre a decisão dos alimentos a consumir, a quantidade consumida destes alimentos e a frequência deste consumo. Isto tudo influenciará, no fim, a manutenção do estado ponderal e a sua monitorização/regulação ao longo do tempo.

Nas diferentes práticas parentais do controlo alimentar na criança, a literatura apresenta o seguinte: 

pressão para comer – aqui os pais atuam no sentido de aumentar a ingestão alimentar da criança, estabelecendo normas relativas à quantidade e qualidade dos alimentos a ingerir, com vista em obter um maior ganho de peso. O recurso excessivo a esta prática pode ter efeitos adversos, nomeadamente condicionar a resposta da criança à fome ou a saciedade ou até mesmo conduzir aversão ao determinado alimento;

restrição - aqui os pais atuam no sentido de promover menos acesso a determinado alimento ou grupo de alimentos tidos como menos saudáveis; Mais uma vez, o recurso excessivo a esta prática pode produzir uma maior atração da criança, levando a um consumo excessivo sempre que esse alimento se encontra disponível;

monitorização – traduz -se na observação mantida sobre os alimentos que a criança vai ingerir. O aumento da utilização desta prática está associado negativamente com o consumo de frutos e hortícolas abaixo das recomendações.

controlo explícito e controlo encoberto – o primeiro limita a ingestão de alimentos menos saudáveis com a perceção da criança, o segundo também limita a ingestão, mas sem que a criança dê conta. A literatura diz que níveis elevados de controlo explícito podem aumentar a ingestão de snacks saudáveis; o controlo encoberto leva a diminuição de ingestão de snacks menos saudáveis.

Resumindo, o controlo na alimentação das crianças ou a falta dele, pode condicionar fortemente a alimentação destas e contribuir para diferentes desenvolvimentos ponderais. Tendo em conta a literatura, a pressão para comer parece poder traduzir uma diminuição ponderal das crianças, ao passo que a restrição está associada a aumento do peso. Já para a monitorização não há consenso no efeito do peso da criança. O controlo encoberto mostra associação positiva com o peso da criança e o explicito potencia associação negativa.