quinta-feira, 6 de abril de 2017

CONTINUAR AGUSTINA Apresentação da obra Ensaios e Artigos (1951-2007)

MÓNICA BALDAQUE (esq.) e ANABELA BORGES
Agustina veio a Amarante. Veio, na figura de sua filha Mónica Baldaque, para apresentar a mais recente obra desta ilustre filha da terra, numa actividade organizada pela associação cultural Gatilho. Veio no dia 1 de Abril, e não foi mentira.

A mim coube-me o prazer, a honra e a imensa responsabilidade de fazer a abordagem inicial à apresentação.

Ensaios e Artigos (1951-2007), de Agustina Bessa-Luís, recolhidos pela sua neta Lourença Baldaque, dispersos por inúmeros jornais e revistas, é uma obra organizada em cerca de 3.000 páginas e 3 volumes, onde podemos encontrar variadíssimos textos: contos, ensaios, crónicas de viagens, textos de cariz histórico, observações e reflexões críticas, acontecimentos da actualidade.

Preparei a minha exposição, no sentido de encaminhar a apresentação para três ou quatro questões (que a seguir exponho), às quais Mónica Baldaque, eventualmente, responderia na sua exposição.

1- Questão:

- Será possível estabelecer um friso cronológico, tendo em conta que a obra de Agustina praticamente recusa o tempo cronológico, remetendo, antes, para um “tecido” que se fia num tempo imemorial? As histórias e os tempos das histórias vão surgindo no tecido narrativo em sucessivas dobras, como um tempo estilhaçado, em que o passado é uma marca constante de busca de autoconhecimento.

A questão temporal apresenta-se de grande complexidade na obra de Agustina, já que podemos ler, em A Sibila, que o passado é um “tempo morto, porém inesgotável”; e, em As Terras do Risco, lemos que “a História não passava de vestígios submetidos à preferenciadas paixões que os tinham acentuado. Quantos factos maiores do que os chegados até nós ficaram esquecidos! Quantos deuses derrubados e civilizações reduzidas a cinzas das quais não restava nada! A memória escrita levantou uma coluna de fumo, mas isso era uma parte insignificante do que existira à face da terra. Bastava um estremecimento de medo para que um vestígio se apagasse para sempre e outro tomasse o seu lugar. Um simples azar acabava com vinte gerações duma só vez”. 

2- Questão:

Memória colectiva: Atendendo ao período de publicação que abrange os Ensaios e Artigos (1951-2007),período marcado por profundas mudanças histórico-sociais (todo um período de transição que se verifica no país: pós-guerra e todas as crises que dele advêm; a década de 60 (período de mudanças particularmente importante, a nível das relações comportamentais, interpessoais, sociais e culturais; o período da Ditadura e pós-ditadura; deslocamento do eixo da vida agrária para as cidades; o conjunto de conflitos que ressoam da modernização que se inicia; também o advento do mundo tecnológico…

Qual a importância dos artigos e ensaios na memória coletiva dos portugueses, tendo em conta que Agustina vai traçando a história e acompanhando-a?

A obra de Agustina percorre, através de variadíssimas personagens, o tempo completo da vida humana, desde a infância à velhice e à decrepitude da morte (pondo a nu as maiores fragilidades da essência humana) – a título de exemplo:

Sobre infância e adolescência, em O Sermão do Fogo, “Não, ninguém se evade jamais da infância, evolui-se muito pouco depois desse profundo período de conhecimento, e, se pensamos estar longe, apenas tentamos recuperá-la, se dizemos que a esquecemos é porque começamos finalmente a ter contacto com a sua realidade.”; “Oh, a tristeza dos adolescentes, nunca mais se conhece outra igual, assim ardente, assim como um abraço que nos gela de espanto, como uma grande capa que nos enovela a respiração! […] a tristeza, esse poema que pode tirar a vida num segundo […] só um adolescente a vive inteiramente”.

São inúmeras e muito abrangentes as temáticas que atravessam o universo da obra agustiniana, desde: felicidade, bondade, maldade, amor, morte, ingratidão, inveja, vaidade, luxúria… a genética e a génese da essência humana… a dura realidade…

Vem ao caso um exemplo sobre essência humana, em Terras do Risco: “O indivíduo sabia que era portador dum dado real de nascimento, crescimento, força criadora, declínio e morte. Mas isto não era sabedoria, era uma informação genética”.

…Permitindo-nos traçar diversificados retratos sociais / construir tipos sociais, como neste exemplo num enterro, em O Sermão do Fogo: “Esses mortórios extraordinários […]. Há rostos esquinados que parecem surgir duma fresta de pedra […]. Falam demoradamente, viajam infinitamente em volta da sua pequena existência pecadora, saborosa, aparecem nas festas filosoficamente e não faltam nunca aos enterros porque – dançar e cantar escusa-se, a morte não”.

…Permitindo-nos também tocar no mais fundo da decadência da vida humana, na sua maior fragilidade – a morte, em O Sermão do Fogo: “[…] percebeu esse desaparecer, esse desenlace, esse abandono, como se um ramo varresse as veias e um vento, com esse ramo, apanhasse a soma da vida, e despedisse da pele a sua matéria, a água e o fogo. Apenas ficavam líquidos corrompidos, os cabelos subitamente secavam, aguçavam-se as narinas, suspensa já toda a respiração”.

3- Questão:

Papel da Mulher: Agustina é percursora, neste aspecto, na medida em que preside à enunciação de um discurso que é próprio do sujeito feminino, que emerge na cena social a partir de meados do séc. XX. Estas não são uma abstracção universalizante, mas antes mulheres reais, seres actuantes no campo social, mulheres que governam o mundo a partir da sua casa, do seu quintal, ou em redor do fogo da lareira, mulheres plenas de intuição e detentoras de uma sabedoria ancestral. Caso, entre muitas outras obras, de A Sibila, onde podemos ler: “E que mestras tão sábias aquelas duas mulheres […] Toda a freguesia, com suas casas, seus campos e suas gentes, e as origens deles, e também todos os seus pensamentos e movimentos todos, passavam naquela lareira onde os gatos se chamuscavam no fogo”.

Há também especial destaque para o universo feminino, à semelhança do seu conjunto de obras ficcionais?

4- Questão:

Procurando satisfazer a minha curiosidade e dos demais, na esperança de podermos sempre continuar Agustina, o que é que está previsto ainda ser editado? Cartas… correspondência… outros textos inacabados… apontamentos de preparação de livros…?

Ficámos a saber que sim, que há mais inéditos de Agustina Bessa-Luís que importarão vir à luz.

Esperemos que sim. Esperemos que esta eterna menina – que nasceu adulta e morrerá criança – detentora de uma natureza questionadora, inquieta e curiosa, e com elevadíssimo sentido crítico, estudiosa, erudita, com uma tenacidade e firmeza de espírito inabaláveis, permaneça fisicamente entre nós, até ultrapassar a espantosa barreira dos cem anos.

Tenhamos como exemplo a postura humanista face ao mundo da mulher que, nas palavras de sua filha, Mónica Baldaque, viveu sempre livre e em paz. A sua obra, essa, é um legado, e será eterna, permanecerá no mundo pelo poder de todas as liberdades – a palavra.

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