quarta-feira, 21 de junho de 2017

CORRER COM SOL E CALOR? SIM OU NÃO?

ELISABETE RIBEIRO
Agora que o bom tempo está a chegar, as pessoas começam a ter mais predisposição para sair de casa e começar a correr.

Deveriam correr todo o ano, mas o calor motiva mais a praticar desporto que o frio.
Obviamente que é preciso ter alguns cuidados quando se corre com calor. Seguem-se algumas sugestões para o calor não se transforme num dos seus piores inimigos!

Protetor solar
Quando correr com sol e calor é fundamental que use um protetor solar adequado. Mesmo em dias nublados em que não vê o sol. O sol melhora a visão, sintetiza a vitamina D, mata agentes patogénicos entre muitas outras coisas, mas se não proteger a sua pele, este pode-lhe ser nocivo.
Curiosamente, a água, a areia e a neve refletem os raios solares contribuindo para as queimaduras solares.

Quando se deve colocar o protetor solar?
Por norma, o aconselhado é colocar o protetor sempre 20 a 30 minutos antes do treino, mas com as novas fórmulas de rápida absorção da pele pode colocar apenas 10 minutos antes do treino.
Pode e deve colocar protetor a cada 2 horas de exercício. Se for treinar com muito calor irá, naturalmente, transpirar mais que o normal e, por consequência, também irá limpar o suor mais vezes.
Ao limpar o suor também está a limpar o protetor, logo é aconselhável que coloque protetor várias vezes durante o treino. Pode parecer exagerado mas acredite que a sua pele agradece!
Coloque o protetor em todas as partes do corpo que não estejam cobertas com roupa.

Proteja a cabeça
É fundamental que proteja a sua cabeça quando treina com muito calor.
Use um boné para proteger o couro cabeludo das queimaduras solares.
Hoje em dia as grandes marcas de vestuário desportivo já fabricam bonés com materiais muito bons e próprios para arrefecimento.

Tenha cuidado com o suor
Atualmente os protetores solares já têm fórmulas resistentes ao suor, mas por muito bons que sejam quando se transpira muito não há protetor que resista e como tal estes misturam-se com o suor escorrendo para os olhos!
Quando colocar o protetor e sentir suor na zona dos olhos limpe-os imediatamente, se o suor misturado com o protetor entrar para os seus olhos a sensação de ardor é desagradável!

Use creme hidratante
Depois do treino é fundamental que coloque um creme hidratante no corpo após o banho. Os cremes hidratantes são ótimos para revitalizar a pele.

Hidratação é fundamental
O seu corpo quando começa a aquecer, a forma natural que tem para se refrescar é expulsar o calor sob a forma de suor, logo você começa a perder líquidos e é imperativo que os reponha.
Leve sempre líquidos para os treinos para se refrescar, mas beba apenas quando o seu corpo “pedir” e não esteja constantemente a beber mesmo que não tenha sede.

Utilize roupa de treino confortável 
Com o calor é normal que se corra com pouca roupa, sendo isso o mais aconselhável!
Mas ainda existe o mito que quanto mais se transpira mais se emagrece. Muitos corredores casuais, mesmo durante o verão, correm carregados de roupa para esse efeito. Isso é completamente errado!
Quanto mais quente o seu corpo tiver mais necessidade irá ter de se refrescar. Seja consciente e use pouca roupa.

Escolha a melhor hora para treinar com calor
Para se treinar com sol e calor obviamente que as melhores horas do dia é logo pela manhã ou ao fim da tarde.
Mas se não conseguir treinar nestas horas e tiver mesmo que optar pelo pico do calor, tenha em atenção a dica do protetor solar e da hidratação bem presente na sua mente. Vão ajudá-lo de uma forma preciosa!
Escolha bem o local de treino
Se tiver oportunidade de escolher o local de treino, o mais aconselhável é treinar em parques da cidade ou em zonas arborizadas.
São mais frescos e pode, nas pausas, proteger-se do sol à sombra de uma árvore.
Se correr em estrada o calor é muito mais intenso e com os vapores dos escapes dos carros este torna-se de tal forma insuportável que será mesmo obrigado a parar. Evite estes locais.
Com certeza que muitas destas dicas você já as sabe, nas será que as aplica?

Tenha em mente que a prevenção é sempre o melhor remédio, siga estes conselhos e tire o melhor partido dos treinos de verão!

VERÃO E ÁGUA...

MARIA AMORIM
Falar de idoso neste tempo de verão poderá parecer um tema sem graça e sem interesse. Verão rima com juventude, corpos perfeitos ao sol, pele luzidia de saúde e beleza, bronzeada pelo sol...

Mas verão também rima com desidratação, e desidratação pode ser fatal para os idosos, que se esquecem de beber, e, a quem nos esquecemos de oferecer água, ou alternativas que lha possam oferecer. A água é vital para todos os processos do metabolismo corporal, sendo o solvente necessário para que todos os nutrientes desempenhem as suas funções e agindo quer como suporte quer como interveniente ativo nas reações químicas necessárias para o equilíbrio interno do nosso organismo. 

A água é o elemento nutritivo mais importante, e a sede o mecanismo através do qual o corpo regula a sua necessidade de água, que no adulto ronda os três litros, para compensar as perdas ( que, no verão estão aumentadas) e manter o equilíbrio electrolítico dos idosos. 

Se um idoso não bebe, facilmente desidrata, e, como muitas vezes são pessoas com algumas patologias associadas a idade, facilmente esse equilíbrio se rompe, pelo que é importante ter presente que um idoso raramente tem sede, estando particularmente atento ao seu estado geral, o aspeto da pele, das mucosas, oferecer água frequentemente, e, se não gosta de água, podem ser infusões, refrescos ( sem açúcar), ou até gelatinas fresquinhas, que são uma excelente alternativa para quem não aprecia água. 

Vamos fazer do verão uma época para todos e não constituir um risco para a saúde dos nossos idosos em casa, só porque nós esquecemos que, mesmo que eles não tenham sede, PRECISAM MAIS DE ÁGUA DO QUE DE PÃO...

terça-feira, 20 de junho de 2017

BOMBEIROS,

CÁTIA GONÇALVES
Esses grandes HOMENS e MULHERES que arriscam a sua vida em prol dos outros; esses que tudo fazem pelo bem-estar de toda a população, tanto em termos de emergência médica, como em termos de Incêndios Urbanos e Florestais. Essas grandes pessoas que tudo fazem e nada recebem em troca, mas que se contentam sempre com um simples sorriso por parte de quem ajudam. Essas grandes pessoas, que só são lembradas com frequência e dada importância quando chega a altura dos Incêndios Florestais, e das grandes catástrofes. 

Bombeiros, aqueles que muitas vezes com medo avançam sem olhar para trás, sem pensar duas vezes quando o que é necessário, é salvar casas, pessoas, animais, carros…, esses a quem o Sr. Secretario chama de amadores. Amadores esses que se for necessário passam dias e noites a fio sem dormir, e a combater as chamas para salvar todos aqueles que precisam; “Amadores” esses que passam horas e horas em formações para puderem prestar o melhor socorro possível à população. São esses “Amadores” que neste momento se encontram a combater as chamas. 

1,87€/hora é muito dinheiro para os bombeiros andarem a combater as chamas, afirmam alguns. Não estou aqui para discutir se é muito ou pouco, o que está aqui em questão, não é o facto de os bombeiros serem pagos, porque muitas das vezes, alguns dos que combatem as chamas não recebem, por exemplo, nesta época, só existe uma equipa de ECIN por quartel, e neste caso, só esses elementos (5pessoas) são remunerados (se é que podemos dizer remunerados, mas dilemas à parte), se houver um incêndio grande que sejam necessários mais homens, esses restantes não recebem dinheiro nenhum, e vão com todo o fulgor que lhes é próprio, quando são chamados à sua missão – SALVAR. O que está aqui em questão é o facto de que esses homens não se importam se são pagos ou não, o que se importam é de ter reconhecimento pela sua profissão, sim, ser Bombeiro Voluntário podemos considera-lo como uma profissão, o que importa é serem reconhecidos o ano inteiro e não só na época de incêndios. 

E agora questiono eu, será que essas pessoas que dizem que 1,87€/hora é muito, seriam vocês capazes de deixar o conforto dos sofás, das cadeiras, o sossego das vossas casas, deixar a vossa família, para voluntariamente irem combater as chamas?! Seriam vocês capazes de deixar de ir a aniversário os pais, filhos, sobrinhos, afilhados, para simplesmente ajudarem uma pessoa que seja?! Seriam vocês capazes de trocar as vossas camas para passar uma noite a socorrer a população e receberem somente um sorriso e ficarem felizes por terem conseguido salvar alguém?! Não me refiro somente aos incêndios, refiro-me a todos os serviços que os bombeiros fazem, transporte de doentes, emergência, incêndios, acidentes… seriam vocês capazes?! Deixariam a vossa família para ir ajudar quem não conhecem de lado nenhum? Seriam capazes de após passar horas seguidas num incêndio, sem conseguirem com o sucesso que querem, salvar casas, terrenos, pessoas, voltar à vossa vida normal? Seriam capazes de após verem a morte a vossa frente, e terem a coragem, sim Coragem, para continuar a socorrer os outros?!

Os bombeiros não são heróis, são PESSOAS EXTREMAMENTE CORAJOSAS e BONDOSAS que deixam de lado tudo o resto, para servir Portugal. São HOMENS e MULHERES que muitas vezes veem a morte diante dos olhos e no mesmo dia, ou no dia seguinte regressam a casa e seguem o rumo normal das suas vidas. São pessoas que deixam os seus, para socorrer os outros.

Seriam vocês capazes?! Sim, vocês que criticam, que muitas vezes não valorizam, que muitas vezes só pensam em vocês mesmos, vocês que dormem sossegados sem se preocuparem…

Os bombeiros não querem que vocês os olhem como heróis, querem que vocês os olhos com o respeito e dignidade que merecem pelo seu trabalho.

A todos, aos que valorizam os BOMBEIROS todo o ano, àqueles que valorizam os BOMBEIROS só na época florestal, àqueles que só sabem criticar, deixo-vos esta reflexão, e o HINO que descreve resumidamente aquilo que acabo de escrever.

“De machados erguidos ao alto,

Arma branca da paz renascida,

O Bombeiros é o guerreiro da esperança, 

Que luta e avança,

Como anjo da vida.

Onde há dor, sofrimento ou desgraça,

Há um Homem, há uma melhor sem nome,

É o Bombeiro que rompe, que salva e que passa,

Sem cor mas com raça – sem sono e sem fome.

De machados erguidos ao alto,

Arma branca da paz renascida,

O Bombeiros é o guerreiro da esperança, 

Que luta e avança,

Como anjo da vida.” (Hino Bombeiros)

O TURISMO EM PORTUGAL – A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO

RUI CANOSSA
De acordo com o INE, no 1.º trimestre de 2017, as atividades ligadas ao Turismo empregam 294 mil indivíduos, mais 40 mil do que no período homólogo de 2016 (+15,6%) Ø A população empregada nos setores do Alojamento e da Restauração e Similares representa 6,3% do total da Economia, no 1.º trimestre de 2017, (5,6% no 1.º trimestre de 2016) Ø Em Portugal, 51% da população empregada pertence ao sexo masculino, enquanto que, nas atividades ligadas ao Turismo 57% das pessoas são mulheres Ø 95% da população empregada no setor do Alojamento trabalha por conta de outrem, enquanto que na restauração e similares esta percentagem desce para 71% Ø 96% da população empregada no setor do Alojamento trabalha a tempo completo, enquanto que na restauração e similares esta representação desce para 85% Ø 45% da população empregada no Alojamento tem o ensino básico (até ao 9.º ano). Essa quota aumenta para 65% quando nos referimos à Restauração e Similares Ø 22% dos empregados no setor do Alojamento tem habilitação superior Ø 42% dos empregados no setor do Turismo tem 45 e mais anos. 

Estas estatísticas permitem refletir sobre a importância, não só do Turismo na nossa Economia nacional mas também da cada vez maior importância de se apostar na educação no setor. De facto, podemos assistir a duas realidades, 45% da população empregada no Alojamento tem o ensino básico (até ao 9.º ano). Essa quota aumenta para 65% quando nos referimos à Restauração e Similares, ou seja, baixas qualificações académicas. Mas, 22% dos empregados têm já habilitação superior. Ora se Portugal quer apostar no turismo tem de se posicionar na qualidade elevada e isso implica maior aposta na produtividade da mão-de-obra, que é como quem diz na formação superior. 

Mas e no meio? No meio temos os cursos de planos próprios como o Curso de Turismo Cultural e Recreativo ministrado no Colégio de S. Gonçalo em Amarante. A aposta em quadros intermédio vem facilitar a empregabilidade de um cada vez maior número de jovens com dupla certificação, um diploma escolar e profissional de nível 4 de acordo com o Quadro de Nacional de Qualificações. Posteriormente, os jovens podem ingressar no Ensino Superior para aumentar a percentagem de profissionais com Curso Superior, mas os outros já não têm o nível de 9º ano e ao mesmo tempo injetar sangue novo num setor onde predominam os mais de 45 anos.

A Estada média em Portugal é de 3,3 noites para o mercado externo e de 1,6 noites para os residentes (-0,1 noites em ambos os casos, face ao 1.º trimestre de 2016); Ø Lisboa ocupa o 1.º lugar no ranking do país em termos de dormidas, com 2,7 milhões (+13% face ao período homólogo de 2016); Ø TOP 5 com 3,8 milhões de dormidas (+3% face a 2016) representa 60% dos estrangeiros. Neste grupo, Espanha foi o único mercado a registar decréscimo (-22%), decorrente do facto de, em 2016, a Páscoa ter sido em março e, em 2017, em abril. Ø Os Proveitos atingem 448,9 milhões € que se traduzem num aumento homólogo de 14%; Ø Receitas turísticas ascendem a 2,2 mil milhões € (+12%). Destaque para aumentos do Brasil (+61%), EUA (+37%), Holanda (+14%) e França (+13%); Ø Taxa de ocupação - quarto atinge 49,9% (+3 p.p.) e cama 35,4% (+0,5 p.p.)

Finalmente, uma palavra para as remunerações. Um guia turístico com qualificação superior pode ganhar 150€ à hora! Dá que pensar não dá? 

O Turismo é uma paixão minha, muito antiga, não só como cidadão, mas também como economista e professor. Se há setor em Portugal no qual acredito que poderá ser a grande alavanca do crescimento económico é precisamente, o Turismo. Oxalá, o espírito empreendedor dos portuguese em cooperação possam arranjar formas cada vez mais eficazes para dinamizar a nossa riqueza cultural e natural e que essa possa constituir um fator de união, de crescimento, mas sobretudo de desenvolvimento para todos.

O FOGO QUE NOS DEVASTA

ELISABETE SALRETA
Como não podia deixar de ser, vim expressar o que sinto nestes dias de agonia.

Quem me segue, sabe que defendo sempre os animais, crianças e as mulheres vítimas. Hoje, não vai ser diferente

Passando pelos textos em que as histórias são contadas na primeira pessoa, tendo sempre a negritude como companheira, saltam-me à vista os apontamentos de coragem para os que nada têm além de si próprios. Muitas famílias ficaram sem os seus haveres, muitos perderam até a vida. Mas muitos, mesmo em desespero, conseguiram ter a humildade de pensar em outras vidas. No vizinho que ajudaram deixando as desavenças para mais tarde e nos animais. Seus, e do vizinho. Lamentam-se as vidas humanas perdidas. Eu lamento todas as vidas. Principalmente as vidas que nunca vão pertencer a uma contagem ou estatística, porque ninguém a faz. Lembro-me daquela senhora que acolheu um borrachinho de pombo selvagem e que ao perguntar nas redes sociais como melhor o havia de tratar, logo alguém se insurgiu com possíveis ilegalidades e outras respostas sem qualquer cabimento. Do que interessam as ilegalidades quando se trata de salvar uma vida? Não valerá tão mais a pena ficar com a doce lembrança do dever cumprido por ter servido da forma mais generosa do que o salvar de uma vida. O resto, o resto trata-se no dia seguinte.

Lembro-me do vizinho que soltou as vacas que estavam presas e no final, foram os únicos animais que se salvaram. E leva-nos a pensar na agonia dos que por egoísmo e incúria não tiveram a sorte de serem soltos e pereceram dramaticamente. Lembro-me do cão cuja família humana não resistiu, mas ele sim, embora estivesse com uma coleira ao pescoço, cumprindo uma pena que não é sua. Mais um egoísmo humano.

Lembro-me de todos os animais das florestas que tiveram um fim horrendo e que continuam pelas terras fora, queimadas, estéreis de vida, agonizando, sem que ninguém lhes valha.

Sim, existem clinicas veterinárias que abriram as suas portas para cuidar das vítimas não humanas. Mas claro, aparecerão por lá gatos, cães e talvez um ou outro coelho de estimação. E os outros? Aqueles de quem ninguém fala, que ninguém procura e que não têm voz?

Caminheiros, associações ambientais, unam-se e procurem-nos. Afinal, ninguém mais o fará.

Quero ver os vossos feitos nas redes sociais. Desafio-os.

Encham as notícias de histórias com valor, porque de tristeza, já tivemos o final de semana.

Estes atos de coragem devem ser enaltecidos como são tantos outros. Estes verdadeiros heróis dão de si para salvar vidas que não contam. Mas contam para quem tem coração e está num outro nível de evolução.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

ASPETOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO/ ATIVIDADE FÍSICA


Existindo a espécie animal,
existe movimento, portanto, atividade física,
que pela sua repetição, aperfeiçoa e desenvolve
os órgãos, sistemas e aparelhos.
 "A função cria o órgão"
Lamarck

MARIA ELISABETE
A História da Educação Física relaciona-se com todas as ciências que estudam o passado e o presente das atividades humanas e a sua evolução. O homem, condicionado à situações de ser pensante, desempenhou, em todas as etapas da vida, um papel importante na história da educação física, a qual se propõe a investigar a origem e o desenvolvimento progressivo de suas atividades físicas, através dos tempos bem como a sua importância.

Retornando aos primórdios da humanidade, podemos dizer que o homem dependia de sua força, velocidade e resistência para sobreviver, deslocava-se de um lugar para outro em busca de alimentos, percorrendo grandes distâncias ao longo das quais lutava, corria e saltava, ou seja era um ser extremamente ativo fisicamente. Assim, o homem à luz da ciência executa os seus movimentos corporais mais básicos e naturais desde que se colocou de pé…corre, salta, arremessa, trepa, empurra, puxa...

O homem pré-histórico, na primeira fase de seu primitivismo, tinha a sua vida quotidiana pontuada, principalmente, por duas grandes preocupações – atacar e defender. Era mais músculo do que cérebro. Realizava todo um conjunto de exercícios naturais, praticando uma verdadeira educação física espontânea e ocasional. Pela repetição contínua desses exercícios, na luta pela sobrevivência, aperfeiçoava as funções educando-as gradativa e inconscientemente.

A transmissão de geração em geração de uma série de práticas utilitárias, que, observadas e imitadas possibilitaram-lhe, vivendo em meio hostil, melhor apurar os seus sentidos, força, destreza, capacidade física e habilidades.

Posteriormente, iniciou-se um processo de sedentarização, quando o homem começou a dominar técnicas rudimentares de agricultura e domesticação de animais. Em qualquer desses momentos, foi necessário o aperfeiçoamento das habilidades físicas para a otimização de gestos e a construção de ferramentas que possibilitassem maior sucesso nas práticas de sobrevivência.

À medida que o homem entra num estágio definitivo de sedentarização, o seu espaço ocioso aumenta, levando ao aparecimento de uma conceção desportiva, para as atividades que, até então, eram praticadas apenas por razões utilitárias, guerreiras ou ritualísticas.

Na antiga Grécia, a atividade física era desenvolvida na forma de ginástica que significava “a arte do corpo nu”. Estas atividades eram desenvolvidas com fins bélicos, preparando o homem para as guerras e lutas.

Atualmente, atividade física pode ser entendida como qualquer movimento corporal, produzido pela musculatura esquelética, que resulta em gasto energético, tendo componentes e determinantes de ordem biopsicossocial, cultural e comportamental, podendo ser exemplificada por jogos, lutas, danças, desporto, exercícios físicos, atividades laborais e outros.

A atividade física escolar na forma de jogos, danças e ginástica surge na Europa no início do século XIX. A partir daí, surgem diversos métodos de exercícios físicos, uns inseridos em programas de educação nas escolas outros alicerçados em bases médicas, procurando formar o indivíduo “saudável” com uma boa postura e aparência física.

As escolas, sistemas e movimentos evoluíram e avançaram para a educação física do século XXI, que tem como principal característica a sua consolidada inclusão no programa educativo de todo o mundo, enquanto elemento fundamental de uma educação integral, porque, a educação física «é, antes de mais, educação».

Assim, a educação física do novo milênio colabora na formação de uma pessoa íntegra, procura o seu desenvolvimento psicomotor e fomenta a qualidade de vida através do exercício físico e do desporto; prepara o ser humano para as exigências que a sociedade lhe apresenta e desenvolve a sua criatividade e personalidade. Graças à educação física atual, as atividades físico-desportivas irão tornar-se, em companheiras inseparáveis no decorrer de toda a vida.

DEUS DÁ A VIDA E É DEUS QUE A TIRA

RITA TEIXEIRA
Acredito que Deus tem o destino traçado para cada um de nós. Todavia acredito que ele está ao lado da investigação científica e, consequentemente, apoiando a medicina.

A vinda de um bebé ao mundo é uma benção de Deus, para os pais ansiosos por um rebento, fruto do amor que os uniu. Entretanto, outros casais vivem na expetativa de alargarem as suas famílias. 

Infelizmente, não são contemplados com essa dádiva de Deus. Como fazer? Recorrer à medicina, claro! O mesmo aconteceu comigo. Não fora a medicina, eu nunca conheceria o dom da maternidade. É um processo longo, cansativo, árduo e muitos desistem do seu sonho. Alguns casais sentiram o amor grandioso, abnegado, eterno, graças à inseminação artificial, fruto da investigação científica. Deus dá a vida, mas a medicina também a dá. 

Não sou a favor do aborto, mas quando a grávida corre graves riscos de vida ou foram detetadas muitas graves más deformações aos fetos, estou plenamente de acordo em que se recorra à medicina, para tirar a vida a estes fetos. 

No que se refere à morte medicamente assistida, estou plenamente de acordo. Continua a ser uma polémica a sua legalização por parte dos deputados da assembleia da república. Ponham-se na minha situação.

Sofro de uma doença rara e fatal. É mais conhecida pela sigla. E. L. A.. Que significa Esclerose Lateral Amiotrófica. 

Com o decorrer do tempo, todo o meu corpo irá-se atrofiando, enquanto o cérebro funcionará a cem por cento. Tudo se desmorona à nossa volta. Sonhamos com um final de vida, com a concretização de pequenos desejos, mas a vida torna se uma prisão. Ansiamos por um final de vida recheado de afetividade, mas ergue se um muro invisível que apenas eu vejo quem passa do outro lado. Esperamos rever amigos que marcaram pegadas na passagem pela nossa vida, mas evaporaram-se, mostrando que eu fui somente um peão nas suas caminhadas. 

Como posso ficar ligada a máquinas, sabendo que estarei consciente o tempo todo? Como poderei estar ligada às máquinas, pressentindo a presença dos entes mais queridos? Como poderei estar ligada às máquinas, apenas vegetando e não vivendo? Não estaei à espera de uma recuperação ou de um milagre, estarei à espera da morte cerebral. Não viverei, apenas sobreviverei. 

Quantos cortes no orçamento da saúde! 

Quantas cirurgias adiadas por falta de verbas! Quanta falta de médicos e enfermeiros nos centros de saúde, espalhados por Portugal. 

Quanto dinheiro gasto naqueles que já não vivem, simplesmente sobrevivem!

“NÃO GOSTO DA COR DOS MEUS DENTES”… “SERÁ QUE HÁ SOLUÇÃO?”

INÊS MAGALHÃES
Ter uns dentes imaculadamente brancos é o sonho de qualquer pessoa. No entanto, nem sempre é fácil exibir a dentição perfeita das estrelas de Hollywood ou das manequins que aparecem nas revistas. A boa notícia é que existem soluções acessíveis que lhe possibilitam ter um sorriso de que se orgulhe. O branqueamento dentário é um tratamento seguro, desde que realizado por um profissional de saúde oral.

Numa consulta prévia, o médico dentista tem de examinar a boca e assegurar que está em condições de avançar com o tratamento. É necessário observar a existência de pigmentos externos ou tártaro que podem ser removidos apenas com uma simples destartarização, seguida de um jato de bicarbonato de sódio. No caso de existirem cáries e gengivites, o branqueamento deverá ser feito somente após o tratamento destas doenças.

É necessária uma avaliação rigorosa da pigmentação, sobretudo se esta foi provocada por medicamentos (tetraciclinas), alimentação ou alguma má formação dos tecidos dentários, para decidir a técnica mais adequada para cada pessoa. A forma mais eficaz de branquear os dentes é aquela realizada nos consultórios médicos dentários, onde é aplicado primeiro um gel de proteção gengival e, a seguir produtos à base de perborato de carbamida ou hidrogénio, que são ativados por uma fonte luminosa que pode ser de led ou laser. Este tratamento está contraindicado a pessoas alérgicas a algum dos medicamentos que compõem o gel aplicado na superfície dos dentes.

Outra possibilidade é realizar o tratamento em casa, recorrendo-se a uma moldeira para ser utilizada durante a noite. A moldeira e o gel devem ser adquiridos no consultório. A moldeira é preenchida com uma pequena quantidade de gel que atua durante as horas de sono. Neste caso, o tratamento pode durar algumas semanas até se conseguir obter o resultado esperado.

No caso de existirem restaurações extensas nos dentes anteriores ou coroas, há que ter atenção especial, já que o branqueamento é exclusivamente feito sobre a parte do dente natural e não atua sobre as restaurações nem sobre as coroas. Muitas vezes, torna-se necessário a substituição destes tratamentos porque o resultado do branqueamento acentua a diferença de cores, dando mais destaque às diferenças.

Há situações em que um dente, depois de desvitalizado, ou que tenha sofrido um trauma (queda), fica mais escuro que os outros. Nestes casos, é feito um branqueamento interno sem danificar a estrutura do dente.

O número de consultas para atingir o objetivo pretendido varia de acordo com a resposta ao tratamento, bem como da coloração prévia existente.

Alguns dias antes de ser realizado o branqueamento, deve ser feita uma limpeza dos dentes, com a remoção do tártaro e dos pigmentos que ficam colados à placa bacteriana. Uma correta higiene dentária é fundamental, quer antes quer depois do tratamento. São de evitar, nesta fase, alimentos que contenham uma elevada concentração de pigmentos (café, vinho tinto, entre outros) e não se deve fumar.

O branqueamento dentário poderá levar a um aumento da sensibilidade dentária aos alimentos frios e ácidos, sendo este o principal efeito secundário do branqueamento. Pode durar até algumas semanas, dependendo do tipo de produto aplicado e de uma possível fragilidade do esmalte dos dentes ou exposição das raízes dos mesmos.

A duração do efeito “dentes brancos” depende da higiene oral e de fatores como hábitos alimentares, tabaco, consumo de bebidas com pigmentos como o vinho tinto, café, chá e muitos outros. Há situações em que os dentes mantêm o padrão de cor desejado durante muitos anos e há outras em que, anualmente, há necessidade de um reforço. A orientação do médico dentista é que vai determinar se há, ou não, necessidade de um novo tratamento.

Hoje em dia há uma banalização do branqueamento dentário, tornando-o acessível a mais pessoas. Há publicidade de branqueamentos caseiros e de canetas de branqueamento, não sendo aconselhados por não haver evidências cientificamente comprovadas dos seus resultados. Tudo isto representa um risco porque, em situações que não sejam as indicadas e quando não realizadas por profissionais, utilizando produtos que não sejam cientificamente aprovados, poderão provocar danos irreversíveis nos dentes.

sábado, 17 de junho de 2017

SABER DIZER QUE NÃO!

CARLA SOUSA
Parece fácil, mas não é… Dizer que não pode ser verdadeiramente difícil para algumas pessoas. 

Podem sentir medo de rejeição, medo de serem julgadas ou , ainda, sentirem, falta de auto-confiança e amor-próprio.

A assertividade é a capacidade que uma pessoa tem de ter confiança em si próprio para dizer que não sempre que sentir e achar necessário. 

Não saber dizer não pode conduzir a comportamentos de risco, problemas emocionais e ao esgotamento.

Tentar atender a tudo no trabalho, vida familiar e outras esferas relacionais, pode conduzir a um esgotamento físico e psicológico. A pessoa sente que não tem tempo para nada e estão sempre a solicitá-la para isto ou para aquilo. Acaba, quase sem dar conta, por colocar os pedidos dos outros à frente dos próprios compromissos e prioridades.

Em termos sociais é normalmente o sentimento de culpa e o medo de rejeição que leva a pessoa a dizer que sim. 

Pessoas pouco assertivas sacrificam o seu bem estar e a sua felicidade pois vivem para agradar o outro sempre com medo que com uma possível recusa a relação fique abalada.

Para haver um equilibro emocional e um sentimento de pacificação é importante um equilíbrio saudável entre o dizer que sim e o dizer que não.

Contudo, se, porventura, estiver cansado de dizer que sim, porque está farto de se sentir manipulado, sem identidade, sem amor-próprio e sem bem-estar…. Mude! Mas, prepara-se!!! Porque, durante este processo de mudança é perfeitamente normal que sinta que os outros o estranhem, se afastem ou até questionem o facto de tal mudança de atitude. Podem ainda vir com segundos pedidos… Porque, normalmente, quando dizemos um não, temos maior dificuldade de dizer um segundo…Pelo menos quando se trata da mesma pessoa. Isto acontece sobretudo com conhecidos.

Um dos truques iniciais é dizer “Vou pensar” , “Deixa-me ver". Após um pedido, nunca dê uma resposta no imediato. Pense, e avalie as suas prioridades. Lembre-se que o seu tempo é precioso, a sua qualidade de vida também e, não vai ser egoísta ou mal educado se conseguir dizer que não. 

Aprenda a não sacrificar a sua vida pessoal, aprenda a gerir da melhor maneira o seu tempo, desenvolva a capacidade de confiar em si próprio estabelecendo os seus limites e os limites do outro: Diga que não, quando tiver que ser!

FAINAS

MIGUEL GOMES
A doca atarefa-se como sempre o faz quando os barcos, já depois de ancorados à esperança da faina tormentosa se transformar em palpável gratificação, descarregam o peixe que, sem culpa alguma, se vê enredado na rede e no pleonasmo. Os olhos vítreos são a janela para o local vazio onde um dia, ainda que inexplicavelmente, nadou uma alma. A correção diria que os peixes não tem alma. A introspeção diria que a alma não tem peixes. E eu, que transporto ao etéreo as vontades blimundanas, deixo-me ficar encostado à sombra do prédio, fitando o chão e as letras desenhadas pela trajetória retilínea da luz.

Teremos tanta fome assim que nos obrigue, dia após dia, a voltar a cavalgar um mar que se espuma de forma salgada, ver confiada a sorte nos ventos e marés, ter os dedos gastos de rodopiar contas de um rosário invisível? 

Indiferente a toda a azáfama e também a mim, que me apoiava à sombra e me imiscuía pela penumbra, a Terra vai andando de terra em terra que é o vácuo orbital onde permanece, sem direção ou sentido, mudando de posição e estendo sombras onde antes eram penumbras, penumbrando novas pedras, azulejos, calçadas, asfalto, grelhas de esgoto, velhas beatas inanimadas e o tradicional lixo, ornamentalmente bordado a qualquer solo que pisemos. 

Viro a cara ao ouvir e, depois, ver uma pequena carrinha soluçar, tossindo um fumo branco e, depois, parar quase ao meu lado. Acredito que a sua cor já tenha sido branca, no entanto, salpica-se de ocre como velhas sardas a quem o tempo se incumbiu de tatuar profundamente na carenagem. Imobiliza-se com um saltinho, como um soluço, como se pedisse perdão por parar sobre a grelha em ferro fundido. O polícia, em bicicleta, deita um olhar reprovador ao aspecto, mas o olhar rápido pelo canto inferior confirma a validade dos dísticos e, a espreitar pela porta podada na parede cinzento amarelada da taberna, o piscar de olho do taberneiro confirma que esta é situação para dispensar.

A porta abre-se, um pé grande calçado por uma moderna sandália réptil verde com olhos cinzentos. Outro pé no chão e o levantar abraçado à ombreira. Bate a porta com delicadeza viril, como se o tempo (e eram certamente oitentas medidas de tempo naquele corpo grande) tivesse perdido a acutilância do toque com conta, peso e medida. Vai lesto na vagareza do corpo que parece habituar-se ainda à posição vertical depois de, deduzo, longa viagem ou tempo sentado, alcança o outro lado, encolhe-se entre si mesmo e o autocarro azul e branco enquanto este passa apressado para, agora, abrir a porta com o cuidado pueril de quem em noite de núpcias eternas, como sucede com quem se permite amar todos os dias. As mãos gastas e enrugadas encontram-se e a custo ele, no esforço de puxar, e ela, no esforço de erguer, içam em esforço de faina a vontade de ir à doca encher as brancas cuvetes de alguns, deduzo, quarteirões de peixe variado. 

Quando voltaram, de mão dada, saio da sombra para visualizar melhor o palco onde se desenrolava a peça. Vejo que o polícia, embora parecesse preocupado em não o mostrar, apreciava a cena com um sorriso. A porta traseira da velha Renault Express abre-se na horizontal, não sem antes um bom abanão desprender a ferrugem das dobradiças ou, aqui é apenas a insolação a divagar, a acordar do sono a que parecem pertencer todos os que envelhecem de bem com a vida. O jovem que lhes trouxe as cuvetes, já depois de as pousar na carrinha, recebe animadamente uma gorjeta em forma de moeda, a mesma moeda que, sem que os velhotes reparassem, deixou cair no bolso do avental azul da idosa menos idosa do casal. 

Do lado da lota, algumas pessoas, perdão Pessoas, fitavam com um sorriso enternecido a cena que deduzo ser usual, tal o grau de cumplicidade e facilidade de gestos entre os intervenientes, as mulheres acotovelavam os maridos e apontavam com a cabeça, os homens encolhiam os ombros, um ou outro passava o braço sobre a mulher e a ternura que também veste quem nos gestos despe gestos cuidados para puder abraçar melhor as redes que puxa para bordo.



A porta da carrinha fecha-se, ele, novamente, abre a porta para que a companheira e companhia entre. Fá-lo a custo, deixando-se cair primeiro com cuidado e, já quando a distância ao banco o permite, com a força que a idade parece exercer nos corpos que acumularam trabalhos, fazendo a carrinha abanar. O estremecer da porta ao fechar faz cair um pouco mais de ferrugem. Quando ele entra, um pouco mais aligeirado que a esposa, agarra o volante com as duas mãos e sorri. Ela coloca a mão sobre a mão dele, fechando-a sobre a mão e o volante. Com a cumplicidade que só se atinge quando os dois corpos são parte integrante de um corpo apenas, e já nem este corpo se sente, fita-a. Levanta a mão esquerda e leva-a à face rosada, enrugada, quase curtida da esposa. Retira-lhe da frente da cara uma madeixa da cor do nevoeiro que se habituaram (invento) a sentir nas manhãs de faina. Com o grosso e torpe indicador raspa uma escama que luzia na bochecha já descaída. Dá-lhe um beijo tímido com o pudor de quem ama na inocência, liga a carrinha e arranca e é neste momento que me arrependo de não ter trazido o caderno para escrever a história.

TEMPO… A FALSA QUESTÃO DA ERA MODERNA

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
Pois é, todos nós nalgum momento do nosso dia-a-dia nos escudamos por detrás da falta de tempo!

Mas será a questão assim tão verdadeira?! Vejamos, muitas vezes, temos tempo para atualizar o status nas redes sociais e não para um simples telefonema para os amigos!

Pois é, nos últimos anos as redes sociais foram sugando o nosso tempo. Claro que, na medida que nos mantêm ligados com o mundo e se transformaram em indiscutíveis ferramentas de trabalho, também se tornaram importantes e imprescindíveis, mas não estaremos demasiado dependentes delas? Sim, é certo que também aproximou as pessoas, mas apenas as que vivem distantes!

Afinal, o tempo que perdemos a digitar não será o mesmo que gastaríamos a marcar o número de telefone e ouvir de viva voz o que há para ouvir? Falar! É para isso que temos voz, para comunicar. E o som das palavras diz muito mais que meras frases a aparecer nos monitores.

Então, porque continuamos agarrados, como que viciados, às redes sociais? Comodismo! Comodismo é a palavra para a nossa falta de motivação para sairmos dos hábitos pouco saudáveis que fomos criando ao longo dos anos. Que se traduz em contacto com o mundo, mas fechados entre quatro paredes.

Atualmente, uma boa parte das vezes e através dos vários meios disponíveis, envia-se uma mensagem escrita e pronto, assunto arrumado. Não, não está! Amizades verdadeiras requerem muito mais que isso, requerem algum tempo sim, mas esse é completamente compensado pelo prazer das conversas animadas, das gargalhadas sonoras e genuínas, da presença física, das histórias que se vivem, às vezes simples momentos, mas cuja recordação pode soar a melodia nos dias cinzentos!

A vida real, para ser vivida em pleno, precisa de palavras reais, conversas à séria, do movimento das crianças na rua. Precisa do tempo que alegamos não ter!

17 DE JUNHO | DIA MUNDIAL DE COMBATE À SECA E À DESERTIFICAÇÃO

AIDA CARVALHO
Neste dia mundial de combate à seca e à desertificação convém alertar as consciências e lembrar que Portugal tem das maiores proporções de área de floresta na Europa, representando 35% do território nacional. Este pedaço de terra precioso, é um privilégio natural, que ocupa 3.2 milhões de hectares, sofrendo um decréscimo de 57 mil hectares, entre o ano de 2005 e o ano de 2010. Estes números atestam uma preocupação maior; os solos têm sido degradados física e quimicamente devido à erosão, exaustão e poluição, sendo, muitas vezes, objeto de utilizações irracionais e desapropriadas pela cobiça e ignorância do homem. 

Torna-se urgente uma educação ambiental mais incisiva, pois, o solo apesar de ser um recurso renovável, a capacidade de regeneração natural é muito limitada, podendo demorar centenas de anos, consoante a situação. Que esta preocupação crescente se torne mais um imperativo nacional antes que seja tarde! 



quinta-feira, 15 de junho de 2017

REPENSAR UM MUNDO SEM RACISMO

ANABELA BORGES E A ALUNA
FRANCISCA TEIXEIRA
Este é um texto da Francisca Teixeira, aluna do 7.º ano da Escola Secundária de Marco de Canaveses. A Francisca insiste em dizer que é ainda uma criança e que pretende permanecer criança por muito tempo. Esta sua afirmação revela uma imensa maturidade. Que assim seja!
Numa aula, a Francisca foi desafiada a dar a sua opinião acerca do racismo, partindo de uma citação atribuída a Bob Marley. Do alto do seus 12 anos de idade, a Francisca tem ideias bem assentes, que lhe permitem ir construindo os seus ideais no sentido de caminhar para a desejada sociedade pós-racial.
O tema carece de ser debatido, trabalhado, estudado, recalcado até à exaustão, porque é preciso descolonizar o mundo. Anabela Borges (professora de Português)



Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos haverá guerra.”, Bob Marley.
O racismo é algo de muito mau, pois todas as pessoas são iguais, mas ao mesmo tempo não são. Isto é, todas as pessoas devem ser tratadas de igual forma, mas todas são diferentes, seja no aspeto ou na personalidade.
Um dos desejos que tenho para a vida é a abolição total do racismo no mundo.
Na citação do cantor jamaicano Bob Marley, podemos ler que enquanto se der mais importância ao aspeto do que à personalidade, o mundo será um local de guerra e ódio.
Acho que quando um ser humano racista se depara com uma pessoa “diferente” (de diferente raça, religião, cultura, tradição) pensa nas diferenças de uma forma negativa, o que é completamente errado; e também há o sentimento de que pessoas que não sejam semelhantes a ela não são tão “humanas” como ela, no sentido da espécie humana.
Infelizmente, existem muitos casos assim e um bom exemplo é a Segunda Guerra Mundial, que se deu por causa de uma ideologia repugnante, liderada por um homem maldoso, racista, sem coração, de seu nome Hitler. Milhares e milhares de pessoas sofreram horrores e sucumbiram nas sombras à “luz” dessa maldita ideologia.
Não podemos esquecer que muitas pessoas ganham poder com o racismo. E não podemos deixar de pensar no Terrorismo atual, que está carregado de ações racistas – desde o facto de os terroristas não aceitarem estilos de vida diferentes dos seus, formas de vestir, formas de estar, formas de diversão, religião, e muitos outros aspetos.
Isto não está bem, e temos de agir contra qualquer forma de descriminação. O racismo é uma das mais difíceis pragas da humanidade. O primeiro passo para a sua abolição, tal como eu estou a fazer, é a tomada de consciência.
Francisca Teixeira, aluna do 7.º ano da Escola Secundária de Marco de Canaveses  

BURNOUT: O ESGOTAMENTO PROFISSIONAL

VANESSA MIMOSO
O Burnout é definido como uma síndrome psicológica que resulta da tensão emocional crónica no trabalho. Independentemente da profissão, a pressão emocional constante, o stress excessivo e prolongado fazem parte do dia a dia num mundo cada vez mais competitivo.

O Burnout é uma consequência deste ritmo atual, pois existe cada vez mais uma maior competitividade no contexto de trabalho, uma pressão desajustada (sobrecarga de tarefas, desajuste nas funções atribuídas, alterações no horário de trabalho, isolamento social no trabalho) ou porque a atividade exercida é muito intensa e/ou sujeita a riscos.

O processo de Burnout é individual (Carlotto, 2002). É visto como uma experiência subjetiva interna que gera atitudes e comportamentos negativos relativamente ao trabalho, com desmotivação, desgaste, perda do comprometimento e, consequente menor entusiasmo, dedicação/empenho e eficácia profissionais o que leva a consequências indesejáveis para a organização (baixa produtividade, abandono do emprego).

O indivíduo pode apresentar um conjunto muito amplo de sintomas, tais como: tristeza, irritabilidade, perda de controlo emocional, desânimo, apatia, humilhação, revolta; é possível que o indivíduo sofra fisicamente com a doença, apresentando sintomas psicossomáticos como falta de ar, palpitações, dores de cabeça, dores musculares, distúrbios gastrointestinais. É frequente apresentar dificuldades de atenção e de concentração, dificuldades de memória, diminuição da autoconfiança, do autoconceito, da autoestima. Por vezes, apresentam comportamentos marcadamente agressivos, um isolamento social e maior propensão para o consumo de álcool.

Há diversos sintomas que, numa fase inicial, se confundem com depressão. No diagnóstico diferencial é importante entender que o Burnout é provocado por uma exaustão/stress profissional e, uma vez retirada da situação que lhe provoca essa exaustão/stress, a pessoa melhora significativamente e recupera. No entanto, o Burnout pode ser acompanhado de uma depressão e, neste caso, é muito provável que a pessoa continue a estar depressiva embora já tenha sido retirada dessa situação que lhe causava exaustão/stress profissional (Almeida, 2016).

Relativamentge ao tratamento, a Psicoterapia irá ajudar o indivíduo a compreender melhor as razões que contribuiram para esta problemática; em simultâneo a atividade física regular e os exercícios de relaxamento devem entrar para a rotina, assim como o cumprimento das horas do sono, pois ajudam a controlar os sintomas. É essencial que o indivíduo mantenha uma vida social bem ativa.

OS NOSSOS IDOSOS SÃO A NOSSA MAIOR RIQUEZA

LUÍSA VAZ
Hoje celebra-se o Dia Mundial do Idoso e infelizmente, o que deveria ser um dia mundial de celebração é em muitos casos um dia como os outros e para muitos idosos, mais um dia de aflição e medo pelo dia seguinte.

Eu tive a sorte de desde o meu nascimento viver e conviver quer com a minha avó, que ainda hoje é para mim uma referência em todos os sentidos, quer com a minha bisavó que muito do seu tempo e afecto dedicou a criar-me. A minha avó tinha 50 anos e a minha bisavó 68 quando nasci. Tive a sorte suprema de as ter comigo diariamente durante mais de 30 anos.

Considero que isso me enriqueceu a todos os níveis e fez com que eu evoluísse muito como Ser Humano. Os comportamentos, a forma de estar, as atitudes perante a vida, a Educação que me deram fizeram de mim uma pessoa moralmente bem-formada.

Costumo dizer, vendo alguns exemplos de como jovens e adultos tratam os idosos que eu devo ter uma costela nipónica pois para mim é impensável destratar de alguma forma o Idoso quanto mais sujeitá-lo a atrocidades como as que, infelizmente, de forma sucessiva vemos noticiadas nos media.

Refiro-me à sociedade nipónica porque eles têm a mesma interpretação que eu sobre a pessoa Idosa, também para eles, ela significa uma fonte inesgotável de conhecimento e sabedoria única que não vem nos livros e à qual não temos outra forma de aceder se não por via do contacto directo com eles. E que rica experiencia é!

Quero acreditar que será por força da falta de Educação e de Valores que muitos familiares apenas esperam o dia em que os seus idosos partam, ou porque exigem atenção, ou porque estão doentes e necessitam de cuidados ou porque são eles os detentores de alguma – mesmo que modesta – posse que a família possa deter. Tudo isto, a ser verdade, resume-se no entanto a duas palavras: por um lado “egoísmo” e por outro “ignorância pura” até porque se esquecem que também eles para lá caminham. Fazer com que os seus idosos sejam colocados num Lar acaba por ser o objectivo de muitos mas a solução deveria ser encontrada no seio da Família pois se formos a ver, quando um dia os Idosos foram chamados a tomar conta dos infantes, eles não negaram essa responsabilidade e fizeram-no de coração aberto.

Como não lhes retribuir da mesma forma quando precisam? É chato? Dá trabalho? Tira-nos tempo para outras actividades? Acredito que sim mas nós também éramos chatos e também já demos imenso trabalho e isso não os impediu de o assumir não como uma tarefa mas como uma Missão de vida.

É verdade que as Famílias não são todas iguais e que cada núcleo tem a sua história – muitas vezes demasiado intrincada – e que muitos idosos nem sempre têm ou tiveram um trato fácil mas nada deveria servir de desculpa ou acaso se tivermos divergências com um filho vamos devolvê-lo? E caro leitor, por favor não seja moralista na análise desta questão.

São inúmeras as violações aos Direitos dos Idosos e se por uns eles são vistos com complacência, por outros são vistos como um estorvo e nenhuma das visões é correcta. São os nossos antecessores, fazem parte da nossa História, são o acervo de tempos passados dos quais muitas vezes já só há memória e estórias contadas “de boca em boca”; são costumes e culturas diferentes e tradicionais; são um manancial inesgotável de experiências e conhecimento.

Daí que eu celebre este Dia com muita alegria e respeito por todos os Idosos e proponha que, tal como se criou a Carta dos Direitos da Criança, se crie uma Carta dos Direitos do Idoso e que se puna quem não os respeitar ou os tratar com a Dignidade que merecem.

Nunca nos devemos esquecer que é graças aos nossos Idosos que cá estamos e somos quem somos e que o fim da linha para eles é o começo da nossa. Portanto não podemos nem devemos dissociar realidades indissociáveis e que necessitam uma da outra para que o núcleo familiar e a sociedade funcionem em pleno.

Uma sociedade que trata bem e respeita os seus Idosos é uma sociedade evoluída e mais uma vez nós ainda estamos muito atrasados mas estamos sempre a tempo de “emendar a mão” e agir de forma digna e correcta para com aqueles que de forma absolutamente gratuita nos dão o que têm e o que não têm e acima de tudo nos dão o que não se compra nem se vende e que ainda assim não tem preço – o Amor Incondicional.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

QUEM DÁ O MELHOR DE SI...

VERA PINTO
O que é ser super herói? Segundo o dicionário de língua portuguesa é uma “personagem fictícia dotada de poderes fantásticos e notável pelos seus feitos extraordinários em defesa do bem e da justiça”. Tendo em conta esta definição podemos então dizer que não existem super heróis, verdade? Mentira.

Imaginem só que todos nós podemos ser super heróis! Todos nós temos um poder fantástico, a solidariedade e podemos causar a diferença, salvando vidas.

Hoje celebramos o dia mundial do dador voluntário de sangue. Escrever sobre o tema foi a forma que encontrei de prestar homenagem a estes verdadeiros heróis.

“Dar sangue são 15 minutos da vida de cada um que podem representar anos de vida para um semelhante.”

De uma forma geral, o sangue é um composto de diversos tipos de células que têm como função manter a vida do organismo, levando oxigénio, participando da coagulação e protegendo contra possíveis infecções. Estas funções tornam este fluido imprescindível à sobrevivência de cada pessoa. Existem situações como cirurgias, tratamentos de cancro, doenças renais crónicas, entre outras que exigem reposição de sangue e, este fluido ainda não pode ser produzido artificialmente, não tem substitutos.Ou seja, por ser vital, nada pode ser utilizado no lugar deste tecido conjuntivo líquido (sangue), o que pode levar muitas pessoas a perderem sua vida.

A primeira transfusão sanguínea conhecida num ser humano foi realizada em 1667, em Paris, pelo médico Jean-Baptiste Denis, que trabalhava para o rei Luís XIV de França, e pelo cirurgião Paul Emmerez. Os dois clínicos trataram assim uma jovem paciente que sofria de sintomas anémicos, a qual melhorou bastante depois de ter recebido sangue de cordeiro. Em 1825, James Blundell, um obstetra de Londres, executou a primeira transfusão sanguínea homóloga, numa senhora que sofria de hemorragia pós-parto e cujo marido doou o sangue. Desde então, são tantos os casos de sucesso, são tantas as vidas que foram salvas graças à boa vontade dos dadores que só pode encher a humanidade de orgulho. Podem ser dadores de sangue todas as pessoas com bom estado de saúde, com hábitos de vida saudáveis, peso igual ou superior a 50 kg e idade compreendida entre os 18 e 65 anos. Para uma primeira dádiva o limite de idade é aos 60 anos.

São imensas as campanhas e apelos para dar sangue e, nunca é de mais relembrar, pois dar sangue é mais do que um simples gesto de altruísmo, dar sangue é salvar vidas, dar sangue é ser um verdadeiro super herói, dar sangue é dar o melhor de si.

ONANEMO-NOS

LUÍS CUNHA
Começo esta crónica por uma confidência, que é também uma justificativa para o tema escolhido. Preocupado com a inspiração dos cronistas, ou com a falta dela, o Editor desta revista tem o cuidado de assinalar aquilo a que é dedicado cada dia da semana. Aos clássicos dias do pai, da mãe e da criança, juntam-se hoje dezenas e dezenas de outras evocações, que não deixam um único dia do ano sem esta espécie de padroeiro dos tempos modernos. O difícil é encontrar tema ou assunto que não tenha o seu dia. Difícil mas não impossível, tanto assim que eu encontrei um e por isso proponho a constituição do Dia Internacional da Masturbação. 

Arte discreta ou, mais ainda, secreta, exemplo perfeito das virtudes e defeitos da auto-aprendizagem, está na hora de resgatar da imerecida sombra esta forma de consolo, que não é só dos solitários mas também dos sábios. De entre estes apreciemos a clarividência de Diógenes, esse mesmo que de lanterna em punho percorria as ruas de Atenas declarando procurar um homem honesto sem que entre toda aquela multidão lograsse encontrá-lo. Este Diógenes, que por habitação tinha uma simples barrica, foi por todos visto masturbando-se em plena Praça Pública enquanto proclamava: «Ah, pudesse eu satisfazer o meu estômago de maneira tão simples». Menos sábio que Diógenes mas bem mais conhecido, Woody Allen escreveu, com acerto: «Não menosprezes a masturbação. É fazer amor com a pessoa que mais amas». Narciso entenderia o cineasta e dar-lhe-ia razão, assegurando que não há paixão que se compare à que podemos sentir pela mãozinha que Deus nos deu. Já Diógenes coloca a masturbação no mesmo plano da manducação, vendo nesta uma preocupação e na primeira um alívio. Em todo o caso, faço notar, de forma bem diferente consideramos nós esses dois prazeres: se a manducação solitária nos parece normal, seja por aperto de horário ou falta de companhia, tendemos a olhar com desconfiança e desaprovação o prazer sexual obtido a sós. Diógenes, que era um sábio, saberia explicar porquê. Eu, que não sou sábio, apenas suspeito da razão de tal desacerto. Pudéssemos nós ser outros; pudéssemos deixar para trás o (mau) lastro cultural que às vezes nos prende; pudéssemos «Acabar de vez com a cultura», título dado por Woody Allen a um dos seus livros, e seria outra, e menos tensa a nossa relação com o prazer. Mesmo com o solitário. 

A má fama da masturbação tem, certamente, várias raízes, mas uma delas, como não podia deixar de ser, está na Bíblia, concretamente na má interpretação de uma narrativa inserida no Genesis. Trata-se, naturalmente, da história de Onã, personagem de que deriva o substantivo «onanismo», sinónimo de uma prática que aqui proponho para Dia Internacional. Onã, ao contrário da fama, não é um masturbador, pelo que devemos recusar tê-lo como padroeiro da prática e do Dia. O que sucedeu foi que Er, o irmão de Onã, morreu sem deixar descendência, pelo que o pai de ambos, Judá, ordenou a seu filho que cassasse com a viúva do irmão para dessa forma assegurar um primogénito que seria o herdeiro legal de Er. Ao que parece o noivo não terá achado grande piada à situação: «Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sémen na terra, para não dar descendência a seu irmão». O terrível Deus vingativo do Antigo Testamento acaba por matar este adepto inconsequente do coito interrompido, só que o pior de tudo foi os crentes terem tomado essa divina punição como sinal de oposição à masturbação. 

A ideia de um ato estéril, associal e pecaminoso, perseguiu desde muito cedo e de várias formas o exercício de auto-satisfação masturbatória. Putativo responsável pelas borbulhas dos adolescentes que abusam da prática, suspeito de cegar quem a ela se entregasse, a masturbação alimentou uma má fama imerecida. A literatura ocupou-se dela talvez menos do que devia, mas ainda assim engendrou páginas inspiradoras. Procure-se em «O Complexo de Portnoy», obra desse eterno candidato ao Nobel que dá pelo nome de Philip Roth, as desventuras de um jovem adolescente tenazmente masturbador. Coisa de adolescente? Nem por isso, bastando ver como Leopold Bloom, homem maduro e casado, recorre a esse fácil expediente no culminar do inesquecível Bloomsday descrito por James Joyce em «Ulisses». Nem Portnoy nem Bloom estão sozinhos no ato. Atrever-me-ia a dizer que ninguém se masturba sozinho, havendo sempre convidados, figuras próximas ou distantes, que não sabem, e que talvez nunca venham a saber, que estiveram ali, metidos em ação por força de uma imaginação fértil e convincente. Enorme vantagem esta, a de poder convocar quem se quer e até mesmo pintar quem se convida com as melhores cores, mesmo se estas, no culminar do processo, desbotam e perdem a graça – aconteceu a Bloom, já que as curvas da moça com quem fantasia ao masturbar-se perdem metade da graça quando termina o «serviço». 

Wilhem Reich calculava que o ser humano terá uma média de quatro mil orgasmos na vida. A pergunta que se impõe, então, é clara: valerá a pena desperdiçar algum deste stock em pulsões solitárias? Eu cá não sei, e acho que cada um terá que encontrar a resposta que lhe convém. Porém, não posso deixar de considerar que algo que foi tão reprimido ao longo dos séculos algum proveito há de transportar no ventre. Combatida militantemente por religiosos e moralistas mas também por profissionais de saúde, a inofensiva masturbação merece uma oportunidade, talvez mesmo um Dia Internacional assinalado no calendário. À violência de tantos séculos, que incluiu intervenções cirúrgicas (cliteridectomias), cintos de castidade e o banal amarrar da mãozinha marota à barra da cama, deve dar lugar ao amor incondicional por nós mesmos (Woody Allen) e à valorização de uma prática que tem uma baixíssima pegada ecológica (Diógenes) – afinal ninguém precisa sair de onde está, o que poupa imenso em transporte, alojamento e bebidas propiciatórias. 



Por outro lado, na Era do Conhecimento como desprezar a possibilidade de nos conhecermos e descobrirmos? Cito Georges Bataille: «Mete os dedos nas tuas dobras húmidas. Será doce sentir em ti a acritude, a viscosidade do prazer – o cheiro molhado, o cheiro insosso da carne feliz». Pois é, conhecimento da fêmea, e com ela queria terminar, já que nela, ou na representação que a nossa cultura dela nos dá, se combina a repressão cega com a imaginação erótica (masculina) mais desbragada. De tal forma que cientistas e amadores são facilmente apanhados numa teia de sentidos imprecisos e contraditórios, entre o desejo de ver e ambição de controlar a sexualidade feminina. Dos médicos que manipulavam as mulheres nos seus consultórios, numa masturbação terapêutica que julgavam curar a histeria diagnosticada às pacientes, a outros terapeutas que prescreviam medidas disciplinares radicais, como insensibilizar o clítoris com fenol, forma máscula de travar feminis devaneios eróticos e mesmo o perigo de cair na ninfomania. Quantos atos propiciatórios seriam necessários para obtermos a absolvição dos desmandos repressivos de tantos séculos? Pela minha parte contribuo com uma receita oferecida por Pierre Louÿs no seu livro «Diálogo de Cortesãs»: «Mistura 30 gramas de vaselina, 5 gramas de farinha de mostarda, 2 gramas de pimenta de Caiena e 3 gramas de ácido bórico. Molha a extremidade do dedo médio na mistura e unta de forma regular o clítoris e os lábios antes de começares a masturbar-te». Fica a ideia. É que quando o Dia Internacional da Masturbação foi decretado convém estar preparado/a.

CAPÍTULO 5 BASILIDES VILLANOVA: O NOSSO PLANETA

BRUNO SANTOS
- Porque trouxeste o Mocenigo?
- Foi ele que pediu para vir. Insistiu que queria falar com o Avô.
- Porque quiseste ver o Avô, Mocenigo?

Mocenigo não respondeu e virou a cara para a janela por onde começara nesse instante a entrar uma espessa faixa de luz. Cerrou as pálpebras por alguns momentos e fez uma inspiração muito funda, como se além do ar quisesse aspirar um pouco daquele Sol intruso para dentro dos seus pequenos pulmões.

- Porque vieste, Mocenigo? - Insistiu Basilides.
- Avô, qual é a última parte do Céu? - perguntou o pequeno ainda antes de abrir os olhos.
Basilides conhecia bem esta rara capacidade do seu neto para desfazer num sopro a mais inexpugnável teoria do conhecimento. Embora tivesse apenas cinco anos, Mocenigo tinha apenas cinco anos. Agia e falava como falam e agem as crianças com a sua idade ou o mais cáustico discípulo de Diógenes. Um pouco desarmado pela pergunta, o velho Basilides não se deixou vencer à primeira e esboçou uma resposta.

- Sabes, Mocenigo, talvez não exista uma última parte do céu. É muito provável que haja outra parte depois da última e depois mais outra e outra ainda. Essas partes vão sendo cada vez maiores para lá caberem os sonhos e todos os mundos que se vão sonhando nas outras partes, que nunca são tão grandes que não possa haver uma ainda maior. Percebeste, meu filho? É assim como as bonecas russas…

Mocenigo enfiou o dedo no nariz enquanto abria os olhos e interrompeu a resposta do Avô.

- Estás com a cabeça na Lua, Avô? O Céu nunca acaba nem nunca começa. O Céu está nos nossos
olhos. À volta da nossa cara. A nossa cara é o nosso planeta.

O REQUISITO MÍNIMO DOS NOVOS EDUCADORES

REGINA SARDOEIRA
Quando Sócrates afirmou, perante os cidadãos de Atenas, "Eu só sei que nada sei", pretendia dar testemunho não somente da sua ignorância mas também da sua sabedoria. 

Diz-se que, surpreendido com as notícias que lhe chegavam do oráculo de Delfos, segundo as quais ele seria o homem mais sábio de Atenas, Sócrates acedeu a duas perspectivas de auto-questionamento. Por um lado, a sua crença no deus Apolo, segredava-lhe a certeza da exactidão das palavras do oráculo - o deus tem que estar certo em todas as suas afirmações. Por outro, ele conhecia a dimensão da sua ignorância, sabia que, quanto mais investigava, maior significado atribuía ao que lhe faltava saber - de onde resultava a consciência de nada, afinal, conhecer. 

Para resolver o enigma, diz-se que o filósofo procedeu a um périplo pelas ruas de Atenas, exercendo a arte do questionamento, como era seu hábito e logo praticando a ironia - esse talento de, fingindo-se ignorante, propor aos interlocutores a solução para um sem-número de questões. 

Foi ao encontro dos cidadãos, tidos como mais sábios: os poetas, os comerciantes, os juízes, os políticos . Astutamente, confrontou-os com assuntos considerados triviais, a saber, o que é o bem, a justiça, a virtude. Multiplicou de tal modo as questões, fazendo derivar cada uma delas da resposta dada, que, invariavelmente, o interlocutor perdia-se nas suas certezas, enredava-se em contradições e percebia que, afinal, o seu conhecimento acerca do mais simples era, de facto, nulo. Cidadãos proeminentes que eram, na cidade, não ousavam, contudo, reconhecer a ignorância, tanto mais que esses diálogos ocorriam na praça pública e a sua reputação ficaria comprometida. Sentindo-se injuriados, afastavam-se com rancor, partindo para os tribunais onde acabaram gizando a condenação de Sócrates. Quanto a ele, havia decifrado o enigma de Delfos. "Sim, eu nada sei, é verdade, mas pelo menos sei que não sei; no entanto, estes homens, tidos como os mais sábios, são ignorantes e desconhecem a sua ignorância. Portanto, o deus tinha razão." 

Se fizermos a transposição da conclusão socrática, no século IV a. C. , para o nosso tempo, percebemos de que modo reina a convicção de conhecimento em todos os níveis da sociedade e em todos os graus da cultura. E quão poucos Sócrates se atrevem a questionar os pseudo-doutos e a praticar, em si mesmos, a dúvida constante. 

Cada vez mais os pseudo-sábios emitem sentenças que eles próprios consideram irrefutáveis, não prestando a mínima atenção aos interlocutores; cada vez mais deparamos com interlocutores distraídos, pouco ou nada interessados nos argumentos apresentados com o objectivo de lhes alargar os horizontes. Aliás, poucos são aqueles que, verdadeiramente, crêem necessitar de, como disse antes, "alargar os horizontes". Por todo o lado vejo praticar-se a auto-suficiência, a convicção de que o mundo do saber é tão acessível que qualquer um pode conhecer tudo acerca de tudo. 

Lamento profundamente o que está a suceder entre os jovens, incapazes de prestar atenção àquele que, de um modo ou de outro, é o seu mentor, renitentes em seguir os modelos da geração anterior- porque eles estão convictos de que os instrumentos que aprenderam a manipular lhes dão tudo o que precisam. E os educadores que lhes surgem no caminho são "velhos" cujas trivialidades - crêem eles - não se comparam à sua "sabedoria". 

Porém, esses educadores necessitam também de ser educados, a fim de perceberem que o método que utilizam para passar o testemunho da sua experiência está, certamente, bastante obsoleto. Necessitam de pôr em prática, cada vez mais, a inteligente astúcia socrática, capaz de fazer o vazio no interlocutor para depois parturejar dele o saber autêntico - aquele que cada um tem por inteiro, sem suspeitar que tem. 

Proponho, assim, uma revolução das consciências, em que os mais velhos acedam à prática, cinco vezes milenar, de esvaziamento mental periódico dos preconceitos em que, aos poucos, se transforma o saber anquilosado. Proponho que, à semelhança do que fez o douto ignorante de Atenas, cada um exercite em si a dúvida acerca das próprias certezas, se disponha a sondar-se a si mesmo e ao mundo que o cerca, para lá da aparência, e, mantendo desperta a sua inteligência, assim exercitada, possa tornar-se mentor credível das novas gerações.

A ADMISSIBILIDADE AO TRIBUNAL EUROPEU DOS DIREITOS HUMANOS

RUI SANTOS
Não são assim tão poucas as vezes que ouvimos alguém dizer ter decidido apelar ao Tribunal dos Direitos Humanos em virtude de considerar que esses mesmos direitos foram, no seu caso, violados. No entanto, nem todos os casos são passíveis de serem admitidos naquela instância judicial. Aliás, uma vítima de uma violação dos direitos humanos não pode dirigir-se directamente ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

Embora o principal objetivo da Convenção Europeia dos Direitos Humanos seja fornecer uma protecção efectiva dos direitos humanos, é aos Estados que cabe a principal responsabilidade de proteger e regular o exercício desses mesmos direitos a nível nacional. Portanto, os problemas que surgem devem ser abordados no país em questão. A tarefa do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos é subsidiária disso. Supervisiona a acção dos Estados para verificar se eles colocam em causa, de alguma forma, as suas obrigações decorrentes da Convenção.

Por ser a principal responsabilidade do Estado prover a proteção dos direitos humanos, um indivíduo não pode apresentar directamente ao Tribunal Europeu as suas reclamações. De acordo com a Convenção, nem todas as queixas sobre uma violação dos direitos humanos são admissíveis, estando os requisitos de admissibilidade estabelecidos nos seus artigos 34 e 35. A maioria destes pode ser facilmente associada a três princípios principais do sistema de convenções, que são os princípios de efectividade, primariedade e subsidiariedade. Vejamos como na prática tal acontece utilizando o seguinte exemplo. Um político quer organizar uma manifestação num determinado país membro da Convenção e, como tal, notifica devidamente a autarquia sobre os seus planos planos. No entanto, o presidente do município receia uma contra-manifestação organizada por um grupo oposicionista. Sabe que violentos ocorreram antes, e tem medo de distúrbios na ordem pública. Por essa razão decide proibir a manifestação. Isso é, claramente, uma restrição do livre exercício do direito de manifestação. O político requerente da manifestação suspeita então que tal atitude pode ser uma violação da Convenção e interroga-se acerca do que pode fazer para ter o direito de manifestação protegido. De acordo com os princípios de primariedade e subsidiariedade, não pode simplesmente recorrer directamente ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. O que deve fazer é apelar às autoridades nacionais para saber se a proibição pode ser anulada. Apenas quando todas as soluções domésticas forem esgotadas é que pode recorrer ao Tribunal Europeu. Isto resulta do artigo 35, § 1º da Convenção, em que são estabelecidos os chamados requisitos de esgotamento dos recursos internos.

Mas, é claro, que nem sempre é razoável solicitar aos indivíduos que esgotem todas as soluções possíveis. Pode ser importante protegê-los de Estados que desejam bloquear um caso diante do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Como tal, é necessário um controlo sobre isso, e tal respeita ao princípio da efectividade. Esse princípio implica que o nosso político não precisa tentar todos os recursos internos possíveis, mas apenas os potenciais efectivos.

Uma denúncia perante o Tribunal Europeu tem que se referir aos direitos da convenção e a queixa deve ser feita contra um dos Estados signatários da Convenção.

Espero que com este texto tenha contribuído para o esclarecimento de eventuais dúvidas sobre esta temática que tantas vezes suscita opiniões baseadas apenas na percepção individual e não no conhecimento efectivo sobre o assunto em causa.