quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A MAGIA DO CINEMA

RAQUEL EVANGELINA
Domingo é noite de Óscares. Mas a minha crónica não vai ser a fazer uma análise aos candidatos nem aos que deveriam estar a concorrer. Até porque, honestamente, apesar de gostar de ver a cerimónia sou mais adepta da seleção feita pelo Festival de Cannes. Não obstante esta noite que se aproxima deu-me a ideia do tema a abordar na crónica desta semana: Cinema. Goste-se ou não se goste toda a gente, pelo menos a que tem acesso a televisão, já viu um filme, ou partes de um.

A primeira vez que fui ao cinema tinha 5 anos. O meu pai folgava às terças-feiras e como eu não andava ainda na escola passava as folgas com ele. Levou-me a ver “O Rei Leão”. Quando o pai do Simba morreu desatei a chorar. Não sei se por desde miúda ser sensível à dor dos outros ou até mesmo influenciada por ele ficar sem pai e eu ter o meu ali ao lado quando presenciei a cena. Desde aí que sou uma cinéfila. Não tenho um género de filme favorito. Eu vejo tudo. Gosto mais de filmes cuja história seja interessante e não sou muito dada ao chamado “filme de pipoca”. Apesar de também os ver. Os meus pais não ligam muito a filmes. Mas quando eram novos sim. A minha mãe conta que quando estava grávida de mim ia basicamente todas as semanas ao cinema. Daí virá o meu gosto pelos filmes, apegou-me quando eu estava na barriga.

Aprendi imenso com os filmes. Graças a eles hoje sei falar inglês. Sei também desenrascar-me em francês porque faço parte da pequena percentagem de pessoas que gostam de cinema francófono. O cinema é uma boa ferramenta para aprendermos novos idiomas. Também o é para dar lições de História ou mostrar-nos histórias de pessoas extraordinárias. Graças ao filme “O Pianista” hoje sei um pouco quem foi Władysław Szpilman. Descobri recentemente que um espanhol a quem foi diagnosticado esclerose múltipla e a quem foi dito que não conseguiria andar mais de 100 metros conseguiu fazer um triatlo. E sabiam que o grande amor de Édith Piaf morreu num desastre de avião e que o “Hymne à l’amour” foi escrito para ele? Eu sei graças ao cinema.

É isto que gosto na 7ª arte. O cinema faz-nos aprender, torna-nos mais cultos. Choramos, rimos, sofremos, “apaixonamo-nos” até, mesmo sabendo que aquelas pessoas não são reais e que o que vemos não existe. Mas o que ressalvo no cinema é como ele nos faz sonhar. A Amélie Poulain que nos ensina que por muito difíceis que os tempos estejam para os sonhadores não se deve perder a esperança, o Forrest Gump e a sua inocência e bondade, a Bela e o Monstro a demonstrar que nem sempre o mais bonito é o que importa e, voltando ao Rei Leão, que sempre que tivermos um problema só temos que dizer "Hakuna Matata" e tudo fica melhor.

Portanto se por vezes a vida não estiver a correr bem vejam um filme. Não vos solucionará os problemas mas fará ver, ou pelo menos acreditar, que às vezes tudo é possível. E que tudo passa. Basta crer.

CAMINHAR, PEDALAR OU CORRER?

ELISABETE RIBEIRO
Ninguém nega os benefícios da prática de exercício, seja para obter uma melhor forma física, compensar os efeitos da vida sedentária, entre outros. Mas qual é o melhor exercício aeróbico? A lista normalmente começa com aqueles que são mais práticos: caminhar, andar de bicicleta e correr. O facto é que cada um tem suas próprias vantagens e desvantagens.

Caminhar

Andar a pé é o mais fácil para o corpo, cansa menos e exige menos do organismo. Contudo, dependendo da distância que percorrer, a caminhada geralmente oferece menos benefícios metabólicos do que andar de bicicleta ou correr. O que não significa que caminhar não seja benéfico. Estudos mostram que caminhar cerca de 30 minutos por dia reduz o risco de várias doenças cronicas. Para as pessoas que não pratiquem exercício há muito tempo, caminhar é um excelente “exercício de entrada” para melhorar a circulação sanguínea e colocar os músculos em movimento. A partir daí, a caminhada rápida é um próximo passo natural em busca de melhores resultados.

Pedalar

Andar de bicicleta não força muito o corpo, faz bem à saúde, mas requer alguns cuidados. As bicicletas estacionárias são uma ótima opção para pessoas que não querem circular ao ar livre. A desvantagem de andar de bicicleta é que normalmente só o quadril e os músculos das pernas são utilizados – ou seja, ciclismo não é um exercício de corpo inteiro. Alguns estudos mostram que a densidade óssea é menor entre os ciclistas regulares do que entre os corredores regulares. 

Correr

é o mais difícil para o corpo, especialmente para os joelhos mas oferece os melhores benefícios entre os três. Progredindo da caminhada rápida para a corrida é algo que muitos médicos recomendam. Tal como acontece com andar, correr pode ser uma atividade “interna”, feita numa passadeira de corrida, para aqueles que não gostam de sair ou não têm locais adequados perto de casa, embora as atividades físicas ao ar livre são mais eficazes na melhoria da saúde mental. Os especialistas recomendam que, para não forçar muito o corpo, deve-se variar a velocidade da corrida, assim como andar um bocado, correr outro, e assim por diante.

Seja qual for o(s) exercício(s) que decida optar mediante as suas vantagens e desvantagens o mais importante é tentar fazê-lo ao longo de toda a vida.



Referência: Diário da Saúde

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A VIDA POR UM FIO

ELISABETE SALRETA
É stressante quando temos uma vida na mão.

É preocupante quando podemos fazer a diferença mas optamos por nada fazer.

Somos racionais. Mas por vezes somos mais comodistas do que racionais. Não pensamos. Deixamos que filtros e aberrações tomem conta do nosso coração e este esconde-se, fecha-se, anula-se. É nessa altura que deixamos de nos preocupar com próximo, seja ela qual for. O preocupante é que grande parte da nossa sociedade está neste estágio. Encerramos o nosso coração atrás de grades de crueza e deixamos que tanto nos passe ao lado. O outro não importa, a menos que nos sirva.

Ia de viagem quando, como em tantas outras ocasiões, um pássaro bateu no carro. Pelo retrovisor vi aparecer o seu corpo que ficou estatelado no chão. Parei de imediato e corri para o sitio onde estava. Pedia em silêncio para que nenhum dos outros carros o pisasse e o tornasse, como a tantos animais que se vê pela estrada, parte do asfalto. Abeirei-me dele e vi que estava em choque, mas não morto. Peguei nele e levei-o para o carro. Pousei-o numa luva e deixei-o descansar. Dei-lhe duas gotas de água e aguardei. Perdi meia hora de viagem, o bastante para que se recompusesse e voltasse à vida dele. Gostei de o ver esvoaçar de novo pelo seu habitat. Antes de levantar voo, parou na janela do carro e olhou para mim, como a agradecer.

Ainda tirei uma foto para a posterioridade e para pedir ajuda na identificação, ficando assim a conhecer a avifauna que me rodeia.

Perdi meia hora de viagem, mas ganhei mais uma história e fiquei de coração cheio. E ele, ganhou uma nova vida. Tão simples como isso.

Como não foi o primeiro e suponho que não será o ultimo, posso testemunhar que na maior parte das vezes, os pássaros que embatem nos veículos não morrem. Ficam em choque e apenas precisam de uma ajudinha para que os voltemos a ver a esvoaçar pelos campos, onde pertencem.

Nós temos conhecimentos para tal e podemos ajudar. Então, porque não o fazemos?

Porque a nossa sociedade se tornou tão fria e tão cruel que optamos por dizer: - Era apenas um pássaro. Decerto que morreu.

Mas não vamos verificar. A sociedade age da mesma forma em relação a todos os outros, os próximos com os quais deixamos de nos importar.

Por isso abandonamos os idosos, as crianças, os animais e tudo o que nos liga à terra e à natureza. Somos crianças cruéis a brincar. Não a viver.

E onde isso nos leva?

COMUNICAÇÃO E MARKETING

RUI CANOSSA
Qual é a sua marca preferida? E o que significa o logótipo da sua marca? No mundo do marketing e da publicidade, uma boa marca é fundamental. Em termos de memória descritiva um bom logo ou marca tem de ter uma forma, cromático, tem a ver com as cores utilizadas e tem de ser expressivo. Há quem diga que tudo começou com René Lacoste, que depois de querer começar um negócio verificou que as suas vendas de roupa não vendiam. Daí surgiu a ideia de mandar bordar um crocodilo na roupa. A partir daí, marca que é marca, tem de ter a sua marca.

É neste contexto que a maior parte dos logótipos ter uma história, uma mensagem, para comunicar, pôr em comum, com o consumidor. Algumas marcas, inclusive, ganharam força de produto em si mesmo, quem é que não tem o seu kispo para o frio? Ou quem é que nunca sonhou em ter um jipe (Jeep)? Ou ainda quem não se esquece de levar um tupperware para um piquenique?

Eis algumas dessas mensagens que se escondem nas marcas. Comecemos pela Quicksilver, o seu logo é inspirado numa pintura japonesa do século XIX, por detrás da crista da onda pode ver-se o Monte Fuji no Japão. No logo da Hyundai, pode ver-se o H da marca mas, também, se vê o aperto de mão entre duas pessoas. A maior parte das pessoas deve conhecer a empresa de distribuição FEDEX, o que a maior parte das pessoas não observa à primeira é a sete formada pelo E e o X, que simboliza a eficiência e o movimento constante da empresa de entregas expresso. Outra empresa que faz uso do espaço negativo é a Gillette, veja se consegue ver a lâmina entre o G e o ponto do I. Os computadores da Sony com a marca Vaio ostentavam este logótipo que pretende representar a integração da tecnologia analógica e digital: o "VA" é como uma onda analógica, ao passo que "IO" representa o código binário. Se calhar adora um BMW, cuja sigla significa Bayerische Motoren Werke, fábrica de motores da Baviera, a empresa alemã nasceu, em 1917, de uma empresa que fabricava aviões e que teve de deixar de fazer, no ano seguinte, devido ao Tratado de Versalhes. Porém, o logótipo mantém a história da empresa: os quartos a branco representam as hélices e os quartos a azul representam o céu. Consegue imaginar um motor a hélice a rodar? E o simbolo da Toblerone? Este logótipo mais conhecido pelos gulosos é na verdade uma homenagem à cidade de Berna, local onde o chocolate foi desenvolvido, ao incluir o urso que dança na montanha. É que a cidade suíça é conhecida como "cidade dos ursos". Não podia deixar de falar da icónica Coca-cola. Uma campanha de 2003 da companhia de refrigerantes encontrou e divulgou um símbolo escondido no seu logótipo: entre o O e o L esconde-se a bandeira da Dinamarca, o país mais feliz do Mundo. Já comprou alguma coisa através da Amazon? Já reparou que a seta no logótipo da Amazon vai de "A a Z", passando a mensagem que há de tudo no site? Além disso, faz o efeito de sorriso, que remete para uma boa experiência. Se calhar tem algum aparelho da LG, curiosamente, a fusão de duas empresas coreanas, a Lucky com a Goldstar. A empresa de eletrodomésticos e aparelhos eletrónicos conseguiu introduzir as suas iniciais num logótipo em forma de "piscar de olho" usando o L e o G. E o mais famoso dos logos? O “swoosh” da Nike. Deram-lhe este nome porque é suposto representar rapidez e movimento, aquilo que os fundadores da empresa queriam no seu logo, e cujo concurso foi ganho por uma jovem designer que ganhou o equivalente, hoje, a 37.50€. Ela terá inspirado o seu desenho numa das asas da Deusa Nike, a deusa grega da vitória. Estou quase a acabar, não vos quero maçar. Por falar em maçãs! Sabia que o símbolo da Apple continha Newton e a célebre macieira onde se inspirou sobre a teoria da gravidade? Pois o logo era tão feio e tão difícil de reproduzir nos mais variados materiais de marketing e merchandising que optaram pela maçã? Mas mesmo esta teve de levar uma dentada porque na versão original parecia uma laranja!

São curiosidades como estas que fazem as delícias de todos aqueles que se dedicam ao marketing e à comunicação, pois, sem um bom logo, marca ou logótipo, as marcas não vão ser reconhecidas pelo seu público. Agora, faça uma lista das suas marcas preferidas e depois pesquise sobre a origem do logo que as identifica. Tenho a certeza que vai ficar fascinado.

A BACTÉRIA E O HUMANO

REGINA SARDOEIRA
Gostava de ter guardado o sol desta tarde. 
Do mesmo modo que guardo imagens, para depois revisitar, numa evocação de carácter visual, pudesse eu armazenar o calor intenso que me abrasou por umas horas e soltá -lo depois, quando o frio regressar e a estrela -mãe estiver arredada dos meus sentidos. 
Daqui a algum tempo, passada esta irrupção diurna da Primavera, o frio estará comigo de novo - e sentir-me - ei injustiçada. 
Percebi que tenho necessidade do sol a jorros (já o percebi há muito!), pois nestes dias álacres, de horizontes límpidos e abóbada azul, tenho vontade de sair do casulo e ir à procura de mim, na senda da luz. O resto do tempo projecta - me para dentro, das paredes e do íntimo, deixo - me submergir em hibernação, envolvendo - me em mim, querendo dormir e despertar somente quando a luz fizer os meus olhos abrirem - se - e a pele e todos os sentidos. 
Se estes sentimentos me acometem é na medida exacta da minha natureza. O meu corpo, em repouso, é de uma mornidão vizinha dos 37 graus : a sua harmonia e conforto dependem de atmosferas desta calidez - um pouco abaixo. Sinto que 25 graus convêm à homeostasia das minhas células e que abaixo de 10 graus oscilo para regiões de desequilíbrio; e também sinto que, muito além dos 37 graus que me são estruturais, se dá a ruptura harmónica do organismo. 
Sou assim e, com alguns cambiantes, todos o somos. Necessitamos de condições adequadas ao nosso conforto, funcionamos à semelhança de uma máquina cujo equilíbrio funcional depende do combustível certo, da manutenção adequada, do trabalho para que foi programada. Nem mais, nem menos. 
Se escassear o alimento, se não pudermos beber, se formos acometidos por qualquer dor, o organismo exige o impulso homeostático pelo qual procuramos o alimento, a água, a panaceia. 
Essencialmente, é deste modo que nos definimos . Tudo o resto que foi acrescentado à nossa humanidade, a saber, a consciência, o raciocínio, a imaginação, e seus correlatos, a ciência, a arte, a poesia, perdem sentido e são remetidos para segundo plano, caso o organismo não seja capaz de realizar a homeostasia. 
António Damásio, no seu último livro, "A Estranha Ordem das Coisas (Temas e Debates, Círculo Leitores, Novembro 2017), prosseguindo a sua incansável investigação sobre a consciência, fala deste modo acerca das bactérias :
" Na sua orientação desprovida de mente para a sobrevivência, elas juntam - se a outras que se esforçam por alcançar o mesmo objectivo. Ao seguir a mesma regra implícita, a resposta do grupo aos ataques gerais consiste em buscar automaticamente força nos números, seguindo o equivalente ao princípio do menor esforço. Seguem à risca os imperativos homeostáticos."(pág 37)
Lendo esta análise sobre essa forma rudimentar de vida que é a das bactérias, percebi o que nos liga, sendo nós mais complexos, a tais organismos. De repente, quase comecei a supor que, enquanto organismos, teríamos bem mais sucesso, sem a consciência, o pensamento, o raciocínio. 
E Damásio prossegue:
" Os princípios morais e as leis obedecem às mesmas regras essenciais, mas não só. Os princípios morais e as leis resultam de análises intelectuais das condições enfrentadas pelos seres humanos e da gestão de poder por parte do grupo que inventa e promulga essas leis. Baseiam-se no sentimento, no conhecimento e no raciocínio, e são processados num espaço mental através do uso da linguagem." (pág 37)
Eis aqui os quatro factores que nos distinguem das bactérias : o sentimento (em primeiro lugar), o conhecimento, o raciocínio e a linguagem.
Pelo sentimento que nos faz experimentar carências, desequilíbrios, dores, fomos capazes de inventar, por exemplo, a medicina; o conhecimento e o raciocínio permitem - nos compreender e procurar o que nos favorece, eliminando o que provoca danos; a linguagem possibilita a comunicação e o acto de fixar pelas palavras o resultado das aprendizagens.
Porém, os avanços científicos recentes provam que também as bactérias fazem coisas inteligentes.
"Quando as bactérias detectam 《desertores》no grupo, ou seja, quando certos membros não ajudam no esforço da defesa, elas isolam - nas, mesmo que estejam genomicamente relacionadas e que façam parte da mesma família. As bactérias não colaboram com bactérias da 《familia》que não ajudem o grupo, ou seja, rejeitam as bactérias vira-casacas que não colaboram. Não obstante, as batoteiras acedem aos recursos energéticos e à defesa que o resto do grupo providencia a grande custo, pelo menos durante algum tempo." (Obra citada, pág 36) 
Assim, no nível bacteriano, já estão contidos os alicerces da nossa espécie, pelo que, conclui António Damásio, "(...) o inconsciente humano remonta realmente a formas de vida anteriores, de modo muito mais profundo e vasto do que Freud ou Jung alguma vez sonharam." (Obra citada, pág 39)
Eis porque o sol moderado, o céu azul, a temperatura morna convêm ao meu organismo, harmonizando, em equilíbrio, os mecanismos do meu corpo. Estando homeostaticamente segura posso então ( porque sou humana) lançar -me para universos emocionais, intelectuais, artísticos, esquecer a minha condição semelhante à das bactérias, até que novo desequilíbrio (um golpe de frio, um indício de fome ou de sede, uma dor de cabeça ) me lancem na corrida homeostática, tornando secundárias a inteligência, o raciocínio e a criatividade.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A MEDICINA DENTÁRIA E O SNS (SISTEMA NACIONAL DE SAÚDE)

INÊS MAGALHÃES
Nos últimos dias têm-nos chegado várias notícias sobre a realidade da medicina dentária em Portugal. Uma delas, e que nos entristece a nós profissionais de saúde, é o facto de, cada vez mais, haver dificuldades económicas para se conseguir ir a uma consulta dentária. Nós, dentistas, verificamos isto no nosso dia-a-dia, onde famílias têm de optar por fazer tratamentos mais baratos, em detrimento de outros mais caros, mas que seriam os mais adequados para essa situação. Ou então, ouvimos um pai ou uma mãe dizer que para poder tratar da saúde oral do seu filho não pode tratar da sua. Só nos procurando em último recurso, quando a dor ou inflamação o impede de realizar as suas atividades diárias.

Eu, como dentista, mas sobretudo como profissional de saúde, preocupa-me muito esta situação. A medicina dentária deveria ser acessível a todas as pessoas, independentemente do seu estatuto ou classe social. Uma ida ao dentista deveria ser algo agradável, uma vez que estamos a tratar do nosso sorriso e bem-estar, mas sobretudo da SAÚDE oral. Mas quando as pessoas nos procuram em estado de dor aguda e quando, muitas vezes, não temos hipótese de optar por outro tratamento que não a extração dentária, como poderá esta visita ser algo prazeroso e a repetir no futuro? Como não há-de surgir então a fobia e o medo de ir ao dentista? Talvez se fossemos à consulta sem dor, apenas para prevenção, todos os tratamentos seriam mais acessíveis, deixando vontade de regressar novamente.

Contudo, isto só será possível quando a medicina dentária passar a ser uma especialidade médica comparticipada pelo estado e para TODOS! Não podem ser só alguns que têm acesso a ela pelo SNS (Sistema Nacional de Saúde). Somos todos cidadãos, pagamos os nossos impostos e, como tal, temos o direito a usufruir de uma saúde plena, incluindo, claro está, a saúde oral. Pois, sem saúde oral, não há saúde geral!

Mas, não quero terminar este artigo sem deixar uma mensagem de esperança. Sim, já há algumas mudanças positivas! Através do Programa Nacional de promoção da Saúde Oral (onde já muitos beneficiamos com o acesso ao Cheque Dentista), a Direção-Geral da Saúde assinou um protocolo de colaboração para integrar a temática da Saúde Oral nos currículos escolares. O protocolo foi assinado no âmbito do projeto SOBE – Saúde Oral Bibliotecas Escolares -, cujo objetivo é fazer da saúde oral parte integrante dos currículos escolares e do dia-a-dia das crianças e jovens, tal como envolver as suas famílias e comunidade, através da disseminação de informação e realização de ações. O protocolo pretende criar diversos materiais, como livros, jogos, manuais, músicas, cartazes e, assim, promover a literacia em saúde oral.

MARCHA DO AMOR


Numa época em que partilho publicações feitas no facebook, há um ou dois anos, retirei uma das mais belas recordações que guardei no baú das memórias.

Foi um autêntico desafio desfilar, como madrinha, na marcha do amor!

O convívio, a animação, a partilha e o amor são lembranças inesquecíveis. que agora partilho convosco.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

PSICOLOGIA DAS COISAS SIMPLES

ANABELA BRÁS PINTO
Estudei psicologia clássica, numa licenciatura em psicologia, numa universidade do Porto. Vinha cansada do Direito e fui encontrar respostas à psicologia. Encontrei algumas. No entanto as maiores respostas que encontrei foi mesmo em mim. Na vida. No trabalho. Mas sempre por mim.

E a questão é essa: procuramos a toda a hora respostas fora de nós. Sinais para avançarmos. Sinais para partirmos e sinais para ficarmos. E, não é fora de nós que estão as respostas.

“Não penses muito nisso!”, “Já passou”, e outros conselhos que damos diariamente a algumas pessoas, mas neste domínio diria: pensa nisso, passou, mas vai lá ao passado descobrir e revisitar as aprendizagens que tiveste. 

Cada um sabe de si, sem dúvida, mas vivemos num sistema único de inter-relação e ainda bem. A minha vida faz mais sentido porque a sua faz sentido, e assim sucessivamente.

Nestas coisas simples encontramos a cada passo a nossa essência. Porque, viver em conexão e a forma de vida mais simples e mais verdadeira. Como diz David Boadella, “Uma grama de contacto vale mais que uma tonelada de energia”. E a nós falta-nos tanto o contacto: o contacto sem medos, sem receios, puro, emocional, de amor.

Hoje sou uma pessoa melhor porque estudei por mim a psicologia das coisas simples. Disciplina que não nos dão na universidade, mas que a vida nos dá todos os dias. Só precisamos de estar atentos. Atentos a: um dia de sol radioso, um dia de chuva copiosa, à nossa vizinha, à árvore no nosso jardim ou num jardim qualquer do nosso percurso, uma noite de estrelas, um sofá e um comando de TV e um bom programa; à nossa família, marido, mulher, namorada, namorado. Em suma, à vida!

Entender as coisas mais simples dá-nos a vida que sempre quisemos. Uma vida plena de atenção, de autorregulação, de autoconsciência e de libertação.

“Correr” atrás das coisas simples todos os dias é um exercício de libertação e de coragem, mas sem dúvida teremos uma vida muito melhor.

Eu corro atrás das coisas simples: um sorriso, um abraço, uma opinião, tudo o que a vida me dá e sabem que mais? Sou feliz! Essa é a essência da minha felicidade. Apaixonar-me todos os dias por qualquer coisa simples.

E consigo? Onde anda a sua felicidade?

É TROLHA, MAS LÊ

LUÍS VENDEIRINHO
Sobre os degraus do escadote, pedestal insuspeito, o Martins ia falando de como cruzara o oceano, desde Terras de Vera Cruz, para enfim vir a usar da trincha, da lixa e da espátula, entre outros utensílios, a cuidar das paredes donde, eu mesmo, nunca ousei evadir-me. Os amigos não carecem que lhes coloquemos o título de “senhor”, e será por esta razão que não o uso neste pretexto: será o Martins, desde agora, e ponto final. O facto de ter agora o meu cárcere como novo, bem estucado, os rodapés como novos, o chão fruto da arte em o fazer realçar a beleza da madeira original, será de menor importância. Gostei de ouvi-lo, ao operário, enquanto me fazia seu íntimo acerca da sua fé, não da fezada, mas do credo e profissão de cristandade, como se essa sua identidade pudesse ser, ao mesmo tempo, prémio e consolo para a sua sorte de homem de trabalho, desses que lavam as mãos no fim do serviço e levam a roupa para ser cuidada no recato do lar. Por falar em lar, quando o Martins me cumprimentou por virtude de comparecer na apresentação do meu romance, cerimónia parca de presenças, com ele vinha a sua mulher, ambos trajados como eu uso fazer apenas em ocasiões especiais. O meu convite também fora especial: senti que, se alguém era digno dele, uma dessas pessoas chama-se o senhor Martins, “senhor” por direito próprio. Ainda não conversei com ele desde essa data, para mim lapidar, apenas imagino o meu livro entre as suas mãos, bebendo cada página sentado numa qualquer cadeira da sua casa, mergulhado em muitos mistérios que eu mesmo já havia inventado durante o acto sublime da redacção. Quando me colocam a questão sobre os motivos que me levam a escrever, a resposta essencial estará presa aos leitores que, como esse pintor revelado, fazem jus à arte, à deles e à dos que acrescentam aos seus sonhos das horas vagas. Longe de mim a ideia de misturar água com azeite, que não sou hábil em coisas domésticas, nem presumo ser o pincel manejado como uma simples caneta. Acontece é ser a função social do trabalho um conceito pouco respeitado, inquinado por preconceitos, pela sobranceria e servilismo dos que usam desses atributos. Pela minha parte, confesso ter-me seduzido a história que o Martins contou, ao evocar um dia em que, numa sala de espera de consultório, lia o seu livro. Um médico, ao cruzar o espaço, deve ter notado esse gesto particular da leitura e dirigiu-se ao Martins: “E vossemecê, o que é que faz?” – “Eu sou trolha.” – Então o médico dirigiu-se aos presentes e rematou: “Estão a ver? É trolha, mas lê.”

FAMÍLIA, PORTO DE ABRIGO

LÚCIA LOURENÇO GONÇALVES
Tenho a sorte de ter nascido numa família numerosa e que, mesmo após a perda dos nossos pais, continuarmos a valorizar os momentos que conseguimos estar juntos.

Claro que por força da vida de cada um, estes encontros se vão espaçando, até porque também as “nossas crias” vão ganhando asas… Mas ainda assim, conseguimos ao longo de cada ano que passa, manter esse espírito de família. Momentos perfeitos, cujo legado, claramente, nos foi deixado pelos nossos pais que vibravam de felicidade sempre que conseguiam reunir-nos no mesmo dia, à mesma mesa.

Tendo crescido rodeada deste sentimento de união e partilha de momentos únicos, sinto alguma dificuldade em perceber as famílias que vivem distantes, cada um apenas por si, esquecendo-se que têm a mesma origem, os mesmos genes, o mesmo passado comum, no qual partilharam a mesma casa, o mesmo amor dos pais.

É certo que tive pais que mesmo depois de termos “voado do ninho”, se mantiveram vigilantes e atentos aos nossos passos e sempre que ao “ninho” regressávamos a felicidade deles era demonstrada nos gestos mais pequenos, nos olhares mais ternos, nas palavras mais doces… O que faz com a saudade desses momentos seja enorme. Visto por outro prisma, é ainda este legado que faz de nós aquilo que somos. Uma família cujo elo se mantém inquebrável!

De modo que faço os possíveis por passar essa mensagem para os meus filhos, na esperança que da mesma forma, e quando cada um seguir o seu próprio percurso, se mantenham unidos, e sintam a felicidade de fazerem parte de uma mesma família.

Claro que da geração deles, já não fazem parte famílias numerosas, porém com vários primos da mesma idade com quem desde sempre partilharam momentos simples, mas importantes no que respeita a elos familiares, terão, caso todos o pretendam continuar este legado de amor!

sábado, 24 de fevereiro de 2018

PARIS TAMBÉM TEM ESTÁTUA DE CAMÕES

MANUEL DO NASCIMENTO
Em 13 de junho de 1912, foi inaugurado em Paris, um busto de Camões em bronze coroado de louros e com uma pena na mão direita da autoria do escultor italiano Luigi Betti. A cerimónia foi presidida por Jean Richepin da (Academia Francesa) Académie Française e a ela assistiram numerosas personalidades, entre as quais, o Ministro de Portugal, João Chagas, o Embaixador de Espanha Perez Caballero Ministro de Espanha em Paris, Madame Caristie Martel da (Comédia Francesa) Comédie Française, Oliveira Lima, Ministro do Brasil em Bruxelas e o representante do (Conselho Municipal de Paris) Conseil Municipal de la Ville de Paris, o Senhor Gay. Ao que consta, a vizinhança não apreciou a obra, e menos um ano depois, o busto desapareceu, depois de ter sido vandalizado. O vereador Senhor d’Andigné que se ocupa deste processo, faz-se eco no Conselho Municipal das críticas que se manifestam quanto ao valor estético do monumento “Camões possuía um só olho” segundo alguns comentários, não escritos; metam o outro olho!!!.Vistas as alterações do Senhor d’Andigné, o Conselho Municipal adota uma decisão tendente a retirar o monumento de Camões. Em março de 1913, a (Sociedade dos Estudos Portugueses) Société des Études Portugaises envia ao Conselho Municipal de Paris um protesto contra o projeto de retirar da Avenida de Camões o monumento do poeta. O jornal francês ‘Le Matin’ relatava o acontecimento: anteontem era o aniversário da morte do poeta Luíz de Camões. Os admiradores, que ali iam colocar flores junto ao busto de Camões, encontraram o busto vandalizados. Depois de um acidentado percurso, o busto de Camões acabou na posse da Fundação Calouste Gulbenkian, delegação de Paris. Em 1924 foi colocado no local do monumento um conjunto escultural decorativo denominado “Les Chansons à Bilitis”. Depois de 1987, um novo monumento de Camões da autoria de Clara Menéres, encontra-se no Boulevard Delessert, no cruzamento com a avenida Camões. O monumento é realizado em pedra lioz de Pero Pinheiro. Numa simples cerimónia evocativa, apenas acompanhado por funcionários da Embaixada de Portugal em Paris, coloquei lá uma coroa floral, com as cores da nossa bandeira. Notei, com agrado, que alguém já tinha tido o cuidado de deixar um ramo de flores ao nosso poeta (1). Segundo o livro “Poesias” de José Maria da Costa e Silva, 1844, tomo III, p. 65, relata assim; Em 1818, abriu-se em Londres e em Paris, uma subscrição para erigir um monumento a Camões, porém certas pessoas que estavam no governo, embaraçou a execução do projeto porque o monumento era em Praça pública!... e este homem era chamado pelos amigos o ‘Patriarca da nossa literatura. (1) Francisco Seixas da Costa, Embaixador de Portugal em Paris.

PORTUGAL NA LISTA NEGRA DOS MAUS TRATOS A IDOSOS

ANTONIETA DIAS
Numa lista de 53 países europeus, da OMS, Portugal está no grupo dos cinco piores no tratamento aos mais velhos: 39% dos idosos são vítimas de violência.

A Organização Mundial de Saúde(OMS), que analisa, no Relatório de Prevenção contra os Maus Tratos a Idosos, as agressões nos últimos cinco anos contra os mais velhos, num Universo de 53 países europeus, é clara: “Portugal tem um sério problema no que respeita aos maus tratos contra idosos.”

E o cenário é negro: quase 40% dos nossos idosos são vítimas de abusos. Desta lista negra fazem parte apenas mais quatro países: Sérvia, Áustria, Israel e República da Macedónia.

Por dia, na Europa, quatro milhões de idosos são vítimas de humilhações, quer físicas, quer psicológicas.

Bofetadas, murros, socos, queimaduras no corpo e cortes propositados são algumas das agressões mais comuns praticadas contra a terceira idade. DN Portugal, 10 de Julho de 2011.”

A Segurança Social estima que sejam já 25 mil os idosos em risco e sem apoio, num universo de quase 400 mil pessoas com mais de 65 anos que vivem sozinhas em Portugal, referiu numa notícia o Diário de Notícias. 

Uma publicação do DN de 2011.12.12 12, refere: "São números preocupantes", disse à agência Lusa Pedro Mota Soares, à margem do seminário "Sociedade Civil e Envelhecimento - Desafios do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações", que decorre em Lisboa.

O ministro adiantou que, com o Censos 2011, já se conhece a dimensão do envelhecimento: "Cerca de 20 por cento da sociedade portuguesa tem 65 anos ou mais". 

"Sabemos das situações de risco e, por isso mesmo, queremos agir de uma forma muito determinada e este Ano Europeu do Envelhecimento Activo também terá de acautelar todo o fenómeno que hoje existe dos idosos que estão colocados em situações de risco", afirmou.

Nesse sentido, adiantou, tem sido feito um trabalho mais direto com as instituições sociais, com os serviços da Segurança Social para se conseguir fazer a sinalização desses casos e "garantir protecção às pessoas dentro das instituições".

“Em 2010.10.01, a Linha do Cidadão Idoso da Provedoria da Justiça publica que recebeu nesse ano 1930 chamadas, das quais 176 sobre maus-tratos físicos e psicológicos.

Segundo uma nota da Provedoria, a propósito do dia Internacional do Idoso, entre 1 de Janeiro e 22 de Setembro, a Linha do Cidadão Idoso recebeu 1930 chamadas, 176 das quais relacionados com maus-tratos físicos e psicológicos. 


Comparativamente ao ano anterior, a Linha já recebeu quase o mesmo número de chamadas do que as 1982 registadas em 2009. 

Nas chamadas recebidas, foram denunciados 79 casos de abandono e recebidas 160 chamadas relacionadas com assuntos de saúde. 

Os dados indicam que 194 chamadas eram pedidos de ajuda para tratar de questões de apoio domiciliário, 109 sobre lares, 47 sobre complementos de dependência e solidários e 44 sobre pensões.”

“O Relatório europeu sobre prevenção de maus-tratos a pessoas idosas” é o título da publicação divulgada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – Europa. 

O documento destaca os factores biológicos, sociais, culturais, económicos e ambientais que influenciam o risco de ser vítima ou autor de maus-tratos a pessoas idosas, bem como os factores que podem ajudar a prevenir estas situações. 

O relatório propõe ainda um conjunto de acções para os Estados-Membros, organismos internacionais, organizações não-governamentais, investigadores, profissionais e outras partes interessadas poderem reforçar a resposta política e dedicar os recursos adequados ao problema. 

Os maus-tratos a pessoas mais velhas são generalizados a toda a Região Europeia da OMS, onde se estima que pelo menos quatro milhões de idosos são alvo de maus-tratos por ano e que mais de 2.500 morrem todos os anos. A maior parte dos países da região europeia tem uma população envelhecida, o que se traduz num número crescente de pessoas em risco.”

Em 2011 as Nações Unidas colocaram Portugal na lista negra dos países que pior tratam os idosos, com cerca de 39% por cento dos mais velhos vítimas de violência. Estes dados foram publicado em 2011.07.2013, por Regiões TV RTV.

Os dados da Segurança Social estimam que sejam 25.000 idosos em risco, em Portugal, sendo necessário investir na sua vigilância, pois vivem sozinhos sem qualquer tipo de apoio.

O censo de 2011, revela que 20 % da população portuguesa, aproximadamente 400.0000 pessoas tem mais de 65 anos, pelo que existe uma necessidade de sinalizar os casos problemáticos e aumentar o apoio domiciliário.

Em 2011 as denúncias de maus-tratos subiram 120 %.

Uma notícia da TV Regiões 31.01.2012, revela que foram encontrados 10 idosos mortos em casa numa semana.

Mais de metade dos idosos portugueses vivem sozinhos. Em 2011 o INE contabilizou 2,023 milhões de idosos, vivendo 60% sozinhos ou apenas na companhia de outros idosos.

Este indicadores denunciam que em Portugal o número de idosos em situações de risco é muito preocupante.

Considera-se mau-trato, qualquer forma de tratamento físico e / emocional, não acidental e inadequado, resultante de disfunções e / ou carências nas relações interpessoais, num contexto de uma relação de dependência (física, emocional e / ou psicológica), confiança ou poder, podendo manifestar-se por comportamentos ativos (físicos, emocionais ou sexuais), ou passivos (omissão ou negligência nos cuidados e / ou afetos).

Os maus tratos podem resultar de omissão ou de ação. No caso em apreço, designa-se por negligência, todo o comportamento regular de omissão, relativamente aos cuidados a ter com uma pessoa dependente, não lhe proporcionando a satisfação das suas necessidades de cuidados básicos de higiene, alimentação, segurança, afeto e saúde (no contexto dos recursos disponíveis pela família e cuidadores), o qual resulta um dano na sua saúde e / ou desenvolvimento (físico, mental, emocional, moral ou social), podendo ser voluntário (com a intenção de causar dano) ou involuntário (resultante, em geral, da incompetência dos responsáveis para assegurar os cuidados necessários e adequados (físicos, carência de higienização, alimentação e / ou hábitos horários inadequados, vestuário desadequado, vitaminopatias, cárie dentária, infeções leves recorrentes ou persistentes).

Existem indicadores (sinais) de negligência, que se manifestam por doença crónica que não mereceu tratamento médico, dos quais destacamos os hematomas ou outras lesões inexplicadas, acidentes por ausência de supervisão de situações perigosas, atraso nas aquisições sociais, comportamentos anti-sociais, tendência à fantasia, falta persistente dos cuidadores, relacionamento pobre intra – familiar, condutas para chamar a atenção dos adulto, etc.

Existem sinais nas vítimas de maus tratos que nos alertam para uma vigilância mais apertada, que se traduzem na presença de lesões com diferentes tempos de evolução, que surgem em locais pouco comuns aos traumatismos de tipo acidental, dispersas por diferentes áreas corporais, nas quais podemos salientar como exemplos, as marcas de mordeduras, intoxicações, doenças recorrentes inexplicáveis, lesões desenhando marcas de objetos, alopécia traumática, sequelas de traumatismo antigo de que não é conhecida a história, outras lesões de diagnóstico médico mais complexo (hematoma subdural, hemorragia retiniana).

Outros sinais podem servir como alerta para nos ajudar a diagnosticar situações de maus-tratos, como por exemplo a recusa ou mudanças nas explicações do processo de produção da lesão, a inadequação do intervalo de tempo entre a ocorrência e a procura de cuidados médicos, a história de lesões repetidas, a inadequação da explicação dada pelos cuidadores sobre o mecanismo de produção da lesão.

Importa, ainda referir que para além dos maus-tratos físicos, existem os maus tratos emocionais, que se revelam por perturbações cognitivas, perturbações da memória, baixa auto-estima, sentimentos de inferioridade, alterações da concentração e da memória, perturbações afetivas, medos, sentimentos de vergonha e culpa, timidez, afastamento dos amigos e familiares, hostilidade, falta de confiança, agressividade, manifestações de raiva contra as pessoas, relações sociais passivas, escassas, conflituosas e ausência de resposta perante estímulos sociais, fugas de casa ou relutância em regressar a casa, alterações do foro psiquiátrico, depressão, ansiedade, mudanças súbitas de comportamento e humor, neuroses graves (fobias, manias), alterações da personalidade, psicoses, comportamentos obsessivo-compulsivo, agitação, falta de integração entre o pensamento e a linguagem, as quais se traduzem como manifestações de reação individual aos maus-tratos psicológicos. 

Tendo em conta o progresso da medicina que levou a um aumento da esperança e qualidade de vida. Estudos recentes revelam que a violência contra idosos está a aumentar em Portugal (dados da Associação Portuguesa de Apoio a Vítima indicam um aumento de 20,4 % no total de idosos vitimas de crime, em 2006 para 2007).

Contudo, não nos podemos esquecer que o idoso tem direitos jurídicos, que têm que ser preservados e a persistência de conflitualidade numa fase avançada do ciclo de vida familiar, podendo suceder uma certa reprodutibilidade do padrão de violência, implicam uma vigilância apertada para evitar a violência praticada sobre os mais velhos em contexto institucional.

Como recomendações importantes destinadas a minimizar o número crescente de maus –tratos, preconiza-se: 

1- Implementação de medidas legislativas de proteção dos idosos vítimas de abusos.

2-Registo informático de todas as denúncias e intervenção imediata de medidas de proteção.

3-Campanhas de sensibilização dos idosos sobre a necessidade de planificarem a doença e a reforma.

4-Implementação de programas integrados de prevenção primária e secundária, identificando situações e fatores de risco.

5-Prevenção terciária destinada a minimizar os efeitos da violência contra os idosos.

6- Organização de programas de apoio aos idosos e aos cuidadores.

7-Criação de um sistema de gestão de informação integrada destinada a agir atempadamente às situações de maus tratos nos idosos.

8-Investir na implementação de instituições que disponibilizem vagas para alojamento temporário ou eventualmente definitivo de idosos em risco.

E, por fim criar cursos de formação de profissionais com competências técnicas, destinadas a proteger os idosos vítimas de maus tratos.

Em suma, sofrer em silêncio é um drama vivenciado pelos idosos vítimas de maus-tratos que temos que abolir o mais rapidamente possível, protegendo as vítimas e penalizando os agressores.

A HISTÓRIA DO TOM E JERRY

SUSANA FERREIRA
O projecto "Um amigo para sempre" iniciado em Janeiro de 2017, conta já com 150 cães adotados, apenas na loja Ornimundo Norteshopping. Maioritariamente estes cães são provenientes da Associação Ajuda Animais em Amarante (AAAA), que tem realizado um trabalho brilhante e são os principais responsáveis pelo sucesso do projecto. Apesar de já ser um número simpático queremos continuar o nosso trabalho e ajudar o maior número de cães possível. Mas no meio de todos estes números há sempre algum cão que a sua história nos marca mais, razão pela qual vou contar a história do Jerry. A Esperança, mais uma cadela cruzada de podengo, abandonada na rua à sua sorte com os seus dois bebés o Tom e o Jerry. Estes dois pequenos foram resgatados pela AAAA. O Jerry arranjou uma casinha, tendo vindo apenas o Tom para a Ornimundo. No dia seguinte recebemos a triste notícia que o Jerry tinha sido "devolvido". Entretanto o Tom (Pipo) , arranjou um lar. O Jerry ficou numa família de acolhimento temporário (FAT) onde permaneceu durante 4 meses. Ao fim desses 4 meses era necessário arranjar uma casinha definitiva para o Jerry, ele estava a desestabilizar a cadela da FAT. Chegou a hora do Jerry vir para a Ornimundo, mas passaram-se 3 semanas e ele não arranjou um dono. Três semanas consecutivas é o tempo máximo para estar exposto em loja. Mas o Jerry era um bom menino, o abracinhos como ficou conhecido adorava estar ao colo e receber mimos, merecia mesmo uma casinha. O abrigo já estava lotado, o que seria dele? 


Para ganhar mais algum tempo ele ficou na clínica para recuperar da castração. Eis que já estando castrado, arranja uma casinha, parecia que tinha chegado o final feliz desta história. Mas, infelizmente 2 dias depois foi mais uma vez "devolvido" pois não se adaptou ao novo companheiro canino. E mais uma vez o abandono, o nosso medo de não conseguir arranjar uma casinha definitiva e cheia de amor para o abracinhos. Uns 3 dias depois aparece um casal novo, simpático e com muita vontade de adotar um cão que não fosse muito grande e que fosse meigo e "filho único" ... era o Jerry. Foi amor à primeira vista e o Jerry finalmente encontrou a sua família. Tanto o Pipo como o Max (Jerry) visitam-nos regularmente e estão os dois muito felizes com as suas famílias. Obrigada aos adotantes que receberam e tratam tão bem os nossos meninos. E ainda hoje o Max quando nos visita salta para o colo para nos dar um abracinho e sabe tão bem... é tão recompensador... é um sentimento de dever cumprido. Mas estão a perguntar-se o que aconteceu à Esperança, esta pequena foi resgatada pela AAAA e encontra-se no abrigo onde os voluntários a tratam e enchem de mimos... mas quem sabe não está alguém desse lado interessado em dar uma casinha à Esperança. E porque uma imagem vale mais que mil palavras, fica as fotos do Tom e do Jerry.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

VEILLE DE CONGRES, VEILLE DE RENAISSANCE ?

NATHALIE DE OLIVEIRA
Nous, militants socialistes, nous savons les épreuves de notre vieux Parti qui a perdu la confiance belle et aveugle des siens. La séquence électorale de 2017 a été particulièrement rude pour notre famille politique, en France comme en Europe dont les valeurs et les principes sont issues des Lumières, où germa l’Idée que « Tous les êtres humains naissent libres et égaux en dignité et en droits. Ils sont doués de raison et de conscience et doivent agir les uns envers les autres dans un esprit de fraternité.».[1]

Nous savons aussi que l’Idée socialiste est presque neuve et que nous sommes à l’aube d’une nouvelle aventure collective, fidèles à notre passion intacte pour l’égalité. Ici, en Moselle, l’espoir est invincible, nous avons renouvelé nos adhésions, sans crainte du travail difficile qui nous attend car le moment l’exige et l’avenir nous oblige, conscients du temps long mais patient de la reconquête des têtes et des cœurs.


En veille d’un Congrès refondateur et en toute confiance, nous avons choisi d’emprunter le Chemin de la Renaissance, aux côtés d’Olivier Faure, guidés par l’Idéal d’une République sociale réellement aboutie. Armés de nos convictions, de notre courage et de notre combativité, nous nous sommes fixés 3 objectifs majeurs à mettre en œuvre, dès le lendemain du Congrès d’Aubervilliers :


- reconquérir la confiance des militants et des français,

- faire l’unité et redevenir la première force de gauche,

- proposer un nouveau projet politique visionnaire pour être prêts en 2021


Nous voulons bâtir une nouvelle maison commune où le mot camarade n’est pas un sale mot : un PS-plateforme, un PS-solutions. Élu ou non, le respect de chaque militant doit prévaloir car militer est un engagement et non un privilège. Fraternisons, décentralisons, digitalisons, travaillons, féminisons, organisés en équipes renouvelées et paritaires pour une façon nouvelle d’AGIR ENSEMBLE.


Fiers de notre identité et convaincus de l’utilité de notre engagement, nos valeurs sont pourtant menacées. Nos combats sont d’une d’actualité criarde, en particulier, contre le libéralisme autoritaire, le populisme protestataire et le nationalisme identitaire. Plus que jamais, nous voulons construire la gauche de demain, nous voulons réconcilier les gauches que certains voudraient séparer. Nous sommes une opposition responsable et nous incarnons l’alternative au pouvoir en place.


Rallumons les étoiles et les soleils en respectant un programme de travail élaboré par les militants eux-mêmes, plutôt que des solutions toutes faites, ficelées à la va-vite dans des couloirs spin doctor, hors les murs. Notre programme de travail annonce des combats terribles et chaque citoyen doit y prendre sa part. Le combat en faveur d’une Europe puissante mais protectrice dans la mondialisation, le combat d’une transition écologique, citoyenne et solidaire réelle, le combat du travail et de l’entreprise au cœur du lien social et des parcours de vie, le combat contre toutes les inégalités qui s’incrustent et reluisent partout.

A un moment de risque d’aRépublique marcheuse forcenée qui marche toute droite vers l’irréparable, notamment avec « une loi immigration » indigne de la France, engageons-nous pour une République et une démocratie vivantes, participatives, dévouée à chaque individu.

Veille de Congrès, veille de Renaissance ? Sans aucun doute. Le ciel azur du Grand Est français d’aujourd’hui le clame, les militants socialistes sont comme leur espoir, invincibles ! Ils sauront continuer, jour après jour, à « mettre du bleu au ciel », pour eux-mêmes et pour tous les autres.[2]

NDO

[1] Article 1 de la Déclaration universelle des droits de l’Homme de 1948
[2] Pierre Mauroy

PERMITA-SE EVOLUIR

JOSÉ CASTRO
Num mundo tecnologicamente avançado e interligado, em que o simples esquecer do telemóvel causa alguma “ansiedade”, constata-se que estas mesmas tecnologias quando incorretamente utilizadas originam “problemas mentais”, levando a que por exemplo, a “adição a jogos virtuais” seja incluída na lista de doenças (CID11 - Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, a sair este ano) da Organização Mundial de Saúde.

Num outro tipo de jogos, “jogos e apostas online,” em Portugal existem mais de 13 mil jogadores que querem “fugir” do vício! A atividade de “jogos e apostas online” geraram em 2017, cerca de 122,5 milhões de euros de receita bruta! Existem cerca de 800 mil registos de jogador, que não correspondem linearmente ao número de jogadores, pois cada um pode estar inscrito em uma ou mais entidades exploratórias legais! Sem contar as ilegais (o que poderá ser ainda mais grave)!

Os “problemas mentais” estão infelizmente na ordem do dia, sendo Portugal um dos países líderes da União Europeia!

A depressão (a doença mental do séc XXI e principal fonte de suicídios), tem aumentado a nível mundial e nacional. O registo nos Cuidados de Saúde Primários (CPS), segundo o Programa Nacional para a Saúde Mental de 2017, para Perturbações Depressivas em Portugal Continental, teve uma variação entre 2011-2016 de 74,5%. Provavelmente este não é o progresso que desejávamos…

Que está acontecer? Se os estados depressivos e potenciais suicídios (para-suicídios) ocorrem mesmo quando a sobrevivência e a segurança estão alegadamente garantidas (Pirâmide de necessidades/motivações de Maslow), que está a falhar? Será meramente o Ser Humano um conjunto de neurotransmissores e hormonas que nos comandam aleatoriamente? Retirando os casos em que falhas orgânicas impedem o “estado normal,” que se poderá fazer nas outras situações a título preventivo? Afinal o aumento de conhecimento e investigação na Saúde Humana é só para aplicar nos tratamentos? Para o aumento da produção e venda de medicamentos? ! É preciso as coisas “baterem” no fundo (sempre arrastando vítimas) para se Prevenir? Infelizmente procura-se atuar quase sempre no final da cadeia, quando a recuperação é quase impossível.

Um dos pontos-chave para a prevenção do “problema” será o promover desde a infância a conquista dos patamares mais elevados da pirâmide de Maslow, ou seja, o alcance da realização pessoal e posterior realização profissional. E nesta procura, terão obrigatoriamente de constar comportamentos conducentes ao bem-estar Físico, Mental, Social e Espiritual. 

O mundo tecnológico afastou o ser humano de si mesmo, da natureza, do diálogo com os outros (de forma presencial), da interajuda, do abraço fraterno! Cada vez mais, há plataformas digitais para prender o cidadão, da forma que quer e como quer, mas ao mundo “virtual”

Há pois que reconquistar aquilo que foi perdido!

Em primeiro lugar relacione-se consigo e ame-se, jamais se prejudicando conscientemente! Deixe o passado no passado, centre-se no hoje e prepare o amanhã! Aceite o que ocorreu e que não podia mudar! Caminhe na sua superação contínua, tornando-se um ser cada vez mais completo e pleno de felicidade! Um Ser com discernimento, com Sentido e Propósito de Vida.

Em segundo lugar relacione-se e ame o próximo (todos os Seres). Afinal, precisamos dos outros para evoluir. São eles que mexem cá dentro (para o melhor e o pior), permitindo pôr à prova a nossa inteligência emocional! No seu tempo livre saia de casa, desprenda-se daquilo que o faz apenas “perder tempo”. Faça atividade física e respire ar puro… Faça acontecer algo para alguém desconhecido, para algum Ser. Faça voluntariado, seja na causa animal, humana ou ambiental! Mas faça! Envolva-se na construção de um mundo melhor, na prática da cidadania, que é um dever de todos os cidadãos.

Em terceiro lugar relacione-se com o que de mais transcendente “conhece”. A fonte ou causa de tudo. Aquiete seu coração e sua mente! Esteja grato por tudo! Por aquilo que (ainda) é, por tudo o que tem (ou lhe foi permitido usufruir), por todas as oportunidades de fazer mais e melhor… Não se “prenda” doentiamente a nada, pois afinal, um dia só vai levar aquilo que fez acontecer em si para evoluir em essência e o que proporcionou de melhor aos outros Seres.

IRMÃOS OFERECIDOS PELA VIDA

LUÍS PINHEIRO
Nem todos temos, mas deveríamos ter, aquele amigo que é como uma dádiva nas nossas vidas, aquele que nos ouve e compreende nas horas difíceis, que consegue dizer as palavras que realmente precisamos ouvir.

Se já conseguiu encontrar um irmão oferecido pela vida, perceba que foi bafejado pela sorte, porque nem todos conseguem estabelecer um vínculo tão forte durante a nossa existência neste plano. Este vínculo pode ser mais forte do que um vínculo de sangue, por isso tire o máximo de proveito dele.

Se pensarmos bem, conclui-mos que não somos nós que estabelecemos os vínculos de amizades, eles criam-se naturalmente, independente da nossa vontade de querer que eles evoluam ou não. Inicialmente é determinada pela afinidade com o outro, com a forma de pensar, de entender e percecionar o mundo externo, depois começa-se a admirar, a ser solidário um com o outro a realmente se importar com a vida da outra pessoa.

Um das características centrais num amigo é a capacidade de serem excelentes ouvintes, ninguém consegue criar uma amizade se apenas falar de si próprio. É normal existirem assimetrias nesta característica, determinados momentos temporais em que um amigo é mais o ouvinte e o outro o que desabafa, mas na verdadeira amizade, estes acontecimentos são compreendidos pelos dois lados, e quando a situação se inverte, os papeis também se invertem. A atenção, a disponibilidade e a preocupação com o outro são os grandes propulsores de uma amizade, um começo de uma irmandade oferecida pela vida.

Encontrar um irmão num amigo, é uma surpresa que a vida te pode dar no seguimento de vários acontecimentos, bons e maus, é o grande prémio final que se pode atingir. Às vezes, é necessário estarmos fisicamente próximos do nosso irmão para no sentirmos confortados, mas é incrível como nos podemos sentir tão próximos de alguém que está longe ou que vemos com menos frequência, isto é resultado desta ligação especial

A energia entre ambos liga-os de maneira muito forte, por isso vamos cultivar a amizade, o amor pelo próximo… e focar-mo-nos naquilo que a vida nos pode trazer de bom. A melhor maneira de mudarmos o mundo é mudar o que nos rodeia.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

FALEMOS EM DESACORDÊS


(Num tempo em que o Acordo Ortográfico de 1990 volta à discussão à Assembleia da República, vale a pena reforçar a ideia dos imensos estragos que temos provocado na língua portuguesa)


ANABELA BORGES
“A língua é um organismo vivo”, a professora explicava. E os alunos, naquele ponto, ficavam logo muito atentos.

E perguntavam, “Como assim, ‘vivo’? Como um animal?”.

“Sim”, respondeu a professora, “como qualquer ser vivo”.

“Uma língua nasce, cresce, modifica-se, envelhece”, continuava a professora, logo interrompida pelo aluno incrédulo sentado ao fundo da sala (aquele que punha sempre tudo em causa, mesmo quando se tratava do mais logicamente entendido por todos), “E morre?”.

“Morre.”, respondeu outro, sentado na fila lateral.

“Como o Latim!”, disseram alguns quantos em coro.

A professora sorriu, orgulhosa. Não raro, recorria ao Latim para explicar a origem de muitas das palavras. Os alunos sabiam que o Latim era uma língua morta. Mas ali falava-se da língua viva. A língua em movimento, praticada por mais de 240 milhões de falantes em todo o mundo; a quarta língua mais falada e segunda em reuniões de negócios, logo depois do Inglês. Estes dados relativos à Língua Portuguesa, todos recentes, eram apresentados pela professora com recurso a fontes, para que os alunos vissem da sua veracidade. E perguntava, “É, ou não, de termos orgulho na nossa língua e de a tratarmos bem?”, os alunos respondiam “Sim!”, ainda um tanto estonteados pela força dos números.



Daí para a frente, não foi difícil explicar os ‘processos de formação de palavras’, nem foi nada difícil para a professora dizer que era contra ‘acordos ortográficos’. Porque não há forma de uniformizar uma língua falada por cerca de 240 milhões de pessoas. O Português, nas suas variantes – europeia, africana e brasileira –, possui inúmeras pronúncias, sotaques, variedades linguísticas e um vocabulário riquíssimo, de uma riqueza impossível de quantificar. Cada país de Língua Portuguesa tem as suas especificidades. Vejamos:

Se não fosse a riqueza de vocabulário do mundo da lusofonia, a professora nunca poderia dizer “Estou cá com uma (a)zoeira na cabeça”, e nem poderia sequer queixar-se que tudo se devia ao banzé feito pelos alunos. Não poderia dizer que a sua mãe estava a ver a xepa, que era como lá por casa designavam a telenovela. E em vez da mochila que os jovens tanto prezam, talvez continuássemos a chamar alforge ao saco de levar os livros para a escola (um exagero certamente aqui, mas “mochila” não diríamos, que a palavra não é originariamente nossa). Nem poderíamos utilizar a palavra canoapara designar a curiosa embarcação que habitualmente se vê a sulcar o rio Tâmega. Ou dizer que comemos pipocas quando fritamos o milho.



“Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação”, escreveu Vergílio Ferreira. A língua portuguesa conjuga, em muitos aspectos, o sabor salgado e o cheiro da maresia. O caminho essencial, esse desconhecido que foi traçado com vigor e convicção: o mar. E o mar trouxe-nos muitas palavras.

Além das palavras do mundo lusófono, outras palavras estrangeiras, faladas um pouco por todo o mundo, vão entrando na nossa língua e fazendo parte do nosso vocabulário oficial. São os empréstimos. Os alunos não tiveram qualquer dificuldade em dar exemplos à professora: “croissant”; “paparazzi”; “boom”; “shopping”; e uma parafernália de expressões ligada ao mundo das tecnologias – “motherboard”; “backup”; memória RAM; “e-mail”. Ah, sem dúvida, os alunos são barra nisto! É como se tivessem nascido com um “chip” instalado, com todo um roteiro de palavras orientadas para o mundo das TIC (acrónimo para Tecnologias da Informação e Comunicação). E para explicar que eles, os jovens, têm bué de influência nas transformações da língua, a professora explicou também os processos de truncação. E explicou-lhes assim, “Vocês gostam de poupar nas palavras: cortam uma palavra a meio, ficam com metade e deitam a outra metade fora”. Mais uma vez, os alunos foram rápidos a dar exemplos, “Prof’; Net’; Face’; Insta’…”. E depois ficaram muito admirados quando a professora lembrou que “foto” é uma truncação de “fotografia” e “metro” de “metropolitano”. E quando acrescentou que ‘s’tor’ era uma espécie de truncação da gíria estudantil que significava “senhor doutor”, foi o pasmo geral, uma surpresa total, pois os alunos desconheciam tal significado do vocábulo que usam de forma tão recorrente. Habituam-se de tal modo à linguagem corrente, que acabam por esquecer o vocábulo original. Mas isso é o preço a pagar pela evolução natural da língua. E esse foi o pretexto para a professora explicar algumas palavras amalgamadas, que, por força do uso, por pragmatismo, por rapidez de comunicação (por vezes, por pura preguiça), se transformaram em vocábulos cuja origem se vai perdendo, como “telefone móvel” para telemóvel, ou “informação automática” para informática. 

Tudo isto faz parte de um processo lento, estranhado e saboreado pelos falantes. É a evolução da língua. A língua perde e ganha novos vocábulos, e nós afeiçoamo-nos mais a uns do que a outros. E procuramos selecionar os que mais nos aprazem na prática da comunicação.



Lá mais para o final da aula, um aluno perguntou à professora, “E a palavra ‘s’tor’ como se escreve?”.

Boa pergunta! Isso foi logo o que a professora pensou, “Boa pergunta!”. E respondeu: essa palavra ainda não entrou oficialmente no vocabulário. E, desde já, vos digo: se entrar, será um problema para os linguístas conjugarem esta palavra com o Acordo Ortográfico (1990), pois iremos nós retirar um ‘c’ a sector e o professor passará a ser um ‘setor’?



Porque isto são mais de 800 anos de língua portuguesa, organismo vivo, sempre em evolução. E a evolução faz-se caminhando, não é com golpes de espada de desacordês.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

MARGOT FONTEYN

PAULO SANTOS SILVA
Faz hoje 27 anos que faleceu um dos maiores expoentes da Dança, na vertente do Ballet Clássico – Margot Fonteyn.

Tendo nascido como Margaret Evelyn Hookam, a 18 de maio de 1919, esta filha de pai inglês e mãe irlandesa (descendente de brasileiros), transformou o apelido da família da mãe (Fontes) no Fonteyn que associado à uma alteração do Margaret num mais “afrancesado” Margot, lhe deram um nome artístico que ainda hoje é conhecido.

A jovem Margot entrou para a famosa Sadler’s Wells em 1931, onde pelas sábias mãos de Ninette de Valois e de Frederik Ashton rapidamente evoluiu ao ponto de apenas 4 anos depois com apenas 16 anos se ter tornado na sua primeira bailarina. 

Estava, pois, na forja a companhia que se viria a designar de Royal Ballet e que viria a ser sediada na Royal Opera House, no mítico Convent Garden. O Royal Ballet foi a primeira companhia de Ballet do Reino Unido e é, ainda hoje, a mais importante.

A primeira digressão aos Estados Unidos (mais propriamente a Nova York) realizada em 1949, foi um sucesso para o qual muito contribuiu a parceria Ashton e Fonteyn, sendo que Margot funcionava para o coreógrafo como uma espécie de musa inspiradora. Exemplificativo dessa feliz parceria é Ondine, de 1958.

A primeira visita do Royal Ballet à Rússia, onde se encontravam expoentes do Ballet Clásico como o Bolshoi, data de 1961. É após esta visita que se forma um dos pas-de-deux mais famosos (senão mesmo O mais famoso…) da história do Ballet – Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev. Apesar de Nureyev ser 20 anos mais novo, isso não impediu que a dupla fosse absolutamente idolatrada até 1979, ano em que Margot abandonou os palcos.

No que diz respeito à vida pessoal, Margot casou-se em 1955 com o diplomata panamiano Roberto Arias, filho de um antigo presidente do mesmo país. Roberto foi atingido a tiro por um colega de partido, em 1964, por suspeitar que este mantinha um relacionamento com a sua mulher, tendo ficado paralítico. Depois de se retirar dos palcos, dedicou-se ao marido tendo vivido até a morte dele em 1989, na sua fazenda do Panamá.

Margot Fonteyn foi a grande diva do Ballet Clássico do Século XX. É por isso que ainda em vida, ela e Nureyev foram homenageados com a mais inteira justiça, o que não deixa de ser curioso uma vez que vivemos numa sociedade que tantas e tantas vezes, apenas atribui a grandeza que as pessoas merecem quando elas desaparecem.

Margot Fonteyn, faz parte do imaginário de todos aqueles que estudaram ou simplesmente apreciam o Ballet Clássico. Afinal de contas, foi durante 37 anos a Presidente da Royal Academy of Dance, instituição respeitadíssima do mundo da Dança e que se encontra espalhada pelo mundo inteiro!...

Delicie-se, pois, com Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev numa interpretação do bailado Romeu e Julieta!!!

IMPORTÂNCIA E DILEMAS DOS DIREITOS HUMANOS

RUI MANUEL SANTOS
As violações dos Direitos Humanos estão entre as principais causas dos problemas que a sociedade mundial enfrenta actualmente. Estes incluem a pobreza, a violência, a degradação ambiental, as desigualdades económicas, a corrupção e, em geral, a falta do estado de direito.

Os direitos humanos, na forma de um sistema de acordos reconhecidos internacionalmente, surgiram de forma consolidada após a Segunda Guerra Mundial, mais concretamente a partir de 26 de Junho de 1945, com a assinatura da Carta das Nações Unidas. Três anos depois, o primeiro instrumento internacional de direitos humanos foi adoptado pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 10 de Dezembro de 1948: a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde então, outros instrumentos legais de protecção ao ser humano foram desenvolvidos e acordados pela comunidade internacional.

A ideia de que as pessoas têm direitos perde-se no tempo. Em muitas culturas antigas existiam algumas leis para regular o comportamento das pessoas com o intuito de lhes ser proporcionada uma vida social harmoniosa, dentro de códigos de conduta e prática, embora estes tenham de ser entendidos no contexto histórico específico. Entre esses documentos históricos está o Código de Hammurabi (Iraque, 2000 a.C.), assim como as leis do Faraó do Antigo Egipto (2000 a.C.) ou a Carta de Cyrus (Irão, 570 a.C.). Bem mais recentes são, por exemplo: a Magna Carta inglesa (1215) e a Carta dos Direitos (1689); a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789); a Declaração de Independência, Constituição e Declaração de Direitos dos Estados Unidos (1791); Convenções de Genebra (1864 e 1929).

Mas afinal o que são os direitos humanos? Pode-se afirmar que são reivindicações que não dependem da garantia de ninguém. Os direitos humanos baseiam-se em afirmações sobre os valores humanos universais que garantem a dignidade humana. A sua garantia recai sobre convenções, acordos e mecanismos de direito nacional e internacional. Os Direitos Humanos cobrem uma grande diversidade de questões interligadas intrinsecamente. Sendo assim, o que é um problema de direitos humanos? Em princípio, qualquer questão que diga respeito à violação de direitos ou integridade/dignidade humana. Como os direitos humanos são inter-relacionados, geralmente uma violação de um direito humano implica uma violação de um outro direito. Esse processo bastante complexo pode apresentar vários dilemas. Um dos exemplos habituais de tais dilemas refere-se às tradições culturais. Por exemplo, a prática de casamentos combinados pelas famílias, ou a mutilação genital feminina, faz pensar se tais valores culturais devem prevalecer sobre a universalidade dos direitos humanos. Outra questão que ganhou muita atenção nos últimos anos é a restrição de certas liberdades, como o direito de proteger os indivíduos da detenção arbitrária e da prisão, como é no caso do Reino Unido, a fim de combater a ameaça do terrorismo. É certamente uma questão importante para a segurança. No entanto, deverá ser possível deter ou prender pessoas sem qualquer acusação ou julgamento, simplesmente com base numa «suspeita»? Uma questão semelhante diz respeito ao direito à associação e à liberdade de expressão dos grupos neonazis, o que pode representar uma ameaça para a população local judaica e outras minorias. É possível impedir a expressão de grupos que promovam a destruição de um povo inteiro? Ou é inaceitável restringir a liberdade de opinião?

Todas estas questões aqui apresentadas, devido à sua complexidade, não apresentam respostas simples, mas exigem muitos debates e argumentações. A discussão pluralista, juntamente com o facto dos direitos humanos não se basearem numa ideologia dogmática, faz com que o debate sobre os direitos humanos seja um processo contínuo no tempo. Considerando o facto de que os direitos humanos são universais e válidos para todos, os direitos humanos são inatos para todos os seres humanos.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A DEPRESSÃO E O SUICÍDIO

REGINA SARDOEIRA
Disseram - me que ela estava deprimida e que por isso se suicidou. E eu fiquei a pensar, tentando compreender, mais uma vez, que impulso poderoso é esse que leva alguém a terminar com a vida. Poderoso, sim, porque aceder voluntariamente à morte exige força. Força negativa, dir-me-ão, ou cobardia, também há quem diga; e no entanto eu afirmo que usar seja que instrumento for e pôr termo à vida é um acto que não está ao alcance de qualquer um.

A depressão tem, efectivamente, esta componente trágica: o indivíduo sente - se desvalorizado, de si para si mesmo, não encontra prazer nos gestos comuns do quotidiano, o amanhã é tenebroso ou vazio, qualquer acto comum (levantar - se de manhã, tomar banho, vestir - se, comer, sair...) revela - se extraordinariamente penoso para o doente com depressão. Porque, de facto, é de uma doença que se trata.

O nosso cérebro tem um poder imenso, lidera todo o comportamento, dá instruções a todo o corpo (que, por sua vez, comunica com ele) e nele são sintetizados os neurotransmissores, de entre os quais destacarei a serotonina .

O comportamento humano depende da quantidade de luz que o corpo recebe por dia. Desta maneira, durante as estações menos soalheiras (Outono e Inverno) surge um aumento da depressão, da falta de capacidade para usufruir o prazer. Quando chega a Primavera e o Verão, a serotonina é condicionada pela luz que se recebe do organismo, o que leva a um aumento progressivo do bem-estar e da felicidade, produto das concentrações deste neurotransmissor no cérebro. Pode-se dizer que a serotonina, além de ser a hormona do humor, é a "hormona do prazer". Por exemplo, para que se produza a ejaculação orgásmica, o hipotálamo liberta oxitocina através da hipófise (hormona que segrega na neuro-hipófise e que também é responsável pelas contrações no parto). Depois da ejaculação, a quantidade de serotonina no cérebro aumenta exponencialmente, o que provoca um estado de prazer e tranquilidade. Depois do prazer é produzido um mecanismo de retroalimentação que reabsorve a serotonina. Este mecanismo estimula a libertação de hormonas como a somatrofina (hormona do crescimento) e a prolactina (hormona que tem ação sobre as glândulas mamárias atuando no seu crescimento e na formação de leite) e inibe a secreção das hormonas luteinizantes (LH) e das hormonas folículo-estimulantes (FSH), que estão encarregadas de estimular a síntese de AMP cíclico, que por sua vez estimula a biossíntese de esteroides sexuais. Este mecanismo de retroalimentação não seria possível se não existisse absorção de serotonina pela hipófise. 

Este é um assunto complexo e não irei muito mais longe na análise científica; creio, no entanto, poder afirmar que a serotonina representa um papel fundamental no que diz respeito à capacidade humana de sentir prazer e que o seu deficit gera os sinais da depressão: essa profunda tristeza, esse desgosto de viver, essa incapacidade de respirar fundo e caminhar em frente - muito simplesmente porque, para o deprimido, já não há caminho. 

A depressão surge; e muitas vezes não encontramos uma explicação para tal. Um desgosto, uma tragédia, uma perda são capazes de mergulhar a pessoa na depressão; mas ela pode ser constitucional ou genética. Perceber a causa da depressão, enfrentá - la, resolver o problema seriam as soluções para o deprimido. Porém, o seu vazio é de tal modo profundo que ele não é capaz, por si só, de discernir uma causa e, ainda que suspeite dela, não tem ânimo para enfrentá-la, pelo que, à partida, nada pode resolver.

Aqueles que o rodeiam, escassamente percebem que lidam com um doente, que precisam de estar atentos, tornando - se os motores para a busca de ajuda. Não tenhamos ilusões : a depressão não é uma "mania", uma "esquisitice" , o deprimido não fica apático, isolado, de mau humor, pouco sociável etc. porque quer castigar o mundo à sua volta, chamar a atenção, ou ser intratável. Ele fica assim porque o seu cérebro não faz a síntese das substâncias que lhe restituiriam o ânimo e, se não se dispuser a tomar medidas, procurando o médico, dificilmente irá superar a crise.

O médico irá receitar - lhe antidepressivos, ou seja, substâncias químicas capazes de reporem os níveis de serotonina, promovendo, gradualmente, o retorno da normalidade. Mas o médico também lhe dirá, pelo menos, mais duas coisas: que essas pílulas mágicas ajudam a química do cérebro e de todo o organismo, melhorando o humor e ainda que terá, nesse momento em que recuperar a energia, de procurar as causas do estado depressivo e abatê - las. Não é um processo simples ou linear, nem se compara a outras enfermidades para as quais um certo medicamento, uma certa cirurgia resolverão de vez o problema. 

A depressão entra muito fundo em todo o organismo visto que a condição necessária e suficiente para alguém estar vivo depende de actos de vontade, de desejo, de procura; e o deprimido perdeu - os. 
O médico (e também os folhetos dos antidepressivos ) alertará o doente, falando -lhe do perigo de poder querer suicidar-se e, muitas vezes, hospitaliza-o para debelar o risco. Mas, ainda assim, esse desejo de morrer, esse sentimento profundo de que ninguém precisa dele, de que está sozinho no mundo e de que nada tem valor podem ter uma força irresistível. 

A depressão atinge de forma trágica este nosso tempo. Vivemos um quotidiano quantas vezes insatisfatório, injusto, acelerado, em que as perdas são maiores que os ganhos. Fugimos de nós mesmos e do nosso deserto, alienamo - nos de muitos modos :com bebida, comida, drogas. Um dia, face a face com a nossa própria imagem, não somos capazes de nos aguentar, desistimos de nós mesmos : é não há pai, mãe, filhos ou amigos, ou tarefas, ou dinheiro ou seja o que for que nos demovam da autodestruição. Porque o suicídio não é somente aquele gesto definitivo com que nos ferimos, mortalmente, de uma vez por todas, o suicídio pode ser lento, pode ser prepertado hora a hora, dia a dia, no vício, na bebedeira, nas fugas de todo o género à normalidade do viver.

Creio firmemente que aquele que se suicida, num certo momento, é porventura mais digno do que aquele que finge viver e no entanto está a destruir -se pouco a pouco : o primeiro enfrentou a derrota de si próprio e terminou com ela, o segundo vai-a ostentando num lamentável espectáculo. 

Logo, de certo modo, todos os homens são suicidas, todos os homens praticam em si a autodestruição, preferindo, escolhendo aquilo que os prejudica. São suicidas mesmo no modo como tratam a terra, o seu único habitáculo, tornando - a, progressivamente, um lugar inóspito; são suicidas porque criaram um universo de relações enviezadas, de onde a verdadeira sociabilidade se ausentou; são suicidas no modo como dirigem o quotidiano, feita carga insuportável para a qual têm que procurar um desvio.

Não admira, pois, que a depressão seja a doença mais comum do nosso tempo e que nele despontem, para geral consternação, os outros suicidas, mais raros, mas mais autênticos : os que decidem sair do mundo através de um acto violento (para eles e para quem os rodeia) e escolhem o meio de a si próprios se aniquilarem, de uma vez.